16 Novembro, 2009

Ameno.


Outro dia vislumbrei flores debaixo dos meus pés, um ar rarefeito que não tinha mil cheiros nem sufocava, e um tempo sem dor. Asfalto não era sinônimo de cidade, ou terra de campo, as coisas só eram. E eram boas. As pessoas não pareciam muito sensitivas, andavam como que anestesiadas, mas isso não é tão ruim, é? Diz se isso seria tão ruim. Se as reclamações independem da situação que se vive, então não há problema real nessa ausência de percepção do mundo. When you got nothing, you got nothing to lose.

Imagina só, todas as casas tinham cortininhas de renda na janela, e pessoas esperavam pessoas nelas. Não posso mentir, isso acontecia em todas as casas, todos os dias. Acontecia com a mesma naturalidade com que se come uma maçã, não era uma linda cena de filme, entende? Era comum e bom.

Eu abri os braços e toquei na água provavelmente gelada de uma fonte bem grande na praça central, tão gelada que os dedos mudavam de cor e as unhas perdiam um pouco a rigidez, mas já disse que não há muita coerência nesse lugar. Não arrepiava, não doía ou incomodava de qualquer forma, só se notava a temperatura da água pelas mãos visivelmente alteradas, e isso sem nenhum motivo aparente era incrivelmente lindo.

Lá a procrastinação tinha lugar, e que amplo lugar. Mas não havia sensação de culpa por ter decepcionado a própria alma com desculpas, tantas desculpas... Havia coisas a fazer e elas eram feitas com calma, simples como são. E se demorava todos entendiam, afinal todo mundo adia tudo, não é?

A paz dessa ilusão toda não encontrava espaço em mim, e comecei a pisotear as flores numa ciranda frenética.

Voltei pra cá. Sufoquei.

29 Outubro, 2009

Que merda.

    
Eu sou preconceituosa com best-sellers. Preconceito puro, não quero, não gosto (pelo menos agora).

- Tô lendo "A Cabana"!
cérebro: Que merda.
boca: Ah, é? Ahn...Tá em que parte?



- Ah, um livro que eu achei muuito bom é "Crepúsculo", é demais.
cérebro: Que merda!
boca: É, né...Tem bastante gente falando desse livro...



Pode ser bom? Pode, eu acredito que alguns realmente sejam. Digo mais: pretendo ler um dia daqui a vinte anos. Alguns até despertam meu interesse.
Mas vamos com calma né, Brasil. Abri ontem a revista da Avon e no meio dos acendedores de fogão, sandálias, curvex, escovas e coisas estranhas em geral, havia duas páginas anunciando livros. "É Natal! Presenteie com informação e cultura!". E o que tinha lá? A Cabana, Crepúsculo, Marley e Eu, A menina que roubava livros, Harry Potter nos volumes1,2,3,4,5,78,12541 e 17895, O Caçador de Pipas, Quando Nietzsxshzche chorou e por aí vai...

Ratificando, meu preconceito não se confunde com a qualidade do livro, - até porque nunca li nenhum desses e não sou imbecil pra julgar sem conhecer - também não tem estreita ligação com seu público. Digo estreita porque as opiniões de algumas pessoas são duvidosas, principalmente as que não conheço muito bem, e convenhamos que são muitas, afinal todo mundo da faculdade, do trabalho, da rua, da aeróbica e da bocha lê.

A implicância é por que é pop? Um pouco. Os livros que são bons serão lidos muitas vezes sem que a pessoa entenda ou seja realmente tocada de alguma forma pelo que está ali, já que ela iniciou a leitura cheia de informações das mais diversas já prontas. Isso é triste. Os que são ruins serão divulgados também, e isso passa de triste, é cansativo.

Outra questão que faz eu não querer me aproximar dos sucessos do momento na vitrine recheada das Lojas Americanas, é que, sinceramente, não acho que esses livros serão eternizados. Eles sempre me parecem apenas cabíveis para o momento, seja histórico, social, emocional ou momento literário mesmo. Neste ponto, criem uma nota mental pra nossa amizade não se abalar: não confundir best-seller com clássico, não confundir best-seller com clássico, não conf...
Posso estar bem errada nessa minha última impressão. Não sei se os livros que são clássicos hoje pareciam ter esse futuro promissor, quando foram lançados.

Eu enumerei várias justificativas pra minha aversão, mas acho que na verdade elas são desculpas. Eu faço uma careta quando ouço um dos títulos do momento mesmo, e ponto.

Você pode vir aqui defender qualquer um dos livros citados numa boa (ainda que sem motivo, já que eu não critiquei pejorativamente nenhum). Mas, se alguém vier falar que eu esqueci dos livros do Paulo Coelho como best-seller, ou achar que qualquer livro dele poderia receber um título diferente de "Os maiores clichês do século", ou argumentar que é literatura, nem adianta criar mantra pra manter a amizade, ela vai acabar aqui e eu vou dizer: Tu é um(a) merda.

30 Setembro, 2009


19 Setembro, 2009

Vaso perdido.


Abriu o envelope e leu o recado com aparente tranquilidade, apesar dos olhos que sempre trabalharam com a pressa de quem perde coisas só pelo piscar. A correspondência veio da França, era lá que seu único filho morava, segundo as últimas notícias. Agora não era mais, nada mais era realmente alguma coisa. Agora o pai tinha certeza de onde ele estaria e de que não sairia de lá.

Na loja de antiguidades do velho, o cachorro Tupi protegia de clientes inexistentes os objetos empoeirados. Lá fora o sol brilhava forte e invadia a única grande janela que havia no local. Uma luz claríssima aparecia com inocência absurda, como se o dia, afinal, não fosse uma coisa ruim. Então o velho achou que precisava se examinar no espelho por alguns minutos, ver se de fato ainda estava ali e entender o porquê, se seu filho quarenta e dois anos mais jovem já não estava.

O massacrante não era só a dor da falta. O massacrante era saber que, mesmo com esforços, a convivência entre os dois não era possível. Não há semelhanças entre um velho falido que se distrai com argila e um pouco de tinta e um jovem com roupas tão estranhas, olhos vermelhos de nunca se sabe exatamente o quê e brincos na cara.

Tupi já não se incomodava com o chute que levara do rapaz na última briga que pai e filho tiveram, quando tentavam mais uma vez conviver em paz. O que ficou, entretanto, foi um receio de se aproximar de pés humanos - mesmo de seu dono, que o socorreu prontamente com remédios caseiros após o golpe.

O homem subiu ao quarto que o filho ocupava vez em quando, depois de noitadas na rua e ausência de explicações. Decidiu abrir as cortinas e não resistir ao sol, que o atingiu imediatamente e iluminando a mesa de cabeceira, fê-lo ver um de seus vasos que acreditava ter sumido há meses. Dentro do vaso havia fotos antigas do menino ainda bebê, do pai segurando suas mãos, da mãe. Havia bilhetes de escola feitos em datas comemorativas, amarelecidos pelo tempo.

Desceu as escadas, fez uma nova e grande placa pra loja, deu banho em seu cachorro e pegou o espanador, que era pra tirar a poeira da vida.

15 Setembro, 2009

Grandes coisas.


Num galpão pessoal recheado de tralhas a gente se perde do que é realmente importante, quando sente que está tudo muito cheio. Quando a gente sabe que definitivamente, se está cheio. Trabalhos, tarefas, horários, conceitos, sentimentos que acha que sente e que na verdade são outras coisas, outras coisas inventadas porque um dia algum merdinha não-importante sugeriu que aquilo de fato era. Tralhas.


O primeiro impulso é esvaziar todos os corredores, fazer aquela faxina e disponibilizar espaço suficiente pro que é bom, pro que vem de novo e que, aí sim, deve ser importante. Mas ser impulsivo nem sempre dá certo. Depois de conter essa fixação pela limpeza geral e impiedosa, o que invariavelmente acontece é uma observação detalhada de tudo o que tem dentro da gente. Aí sim. Aí sim você vê que o que gosta e valoriza de verdade, está junto com as tralhas. Não está num cantinho luminoso etiquetado com os pontos correspondentes que você fatura ao lhe dar o devido crédito e atenção.


O que você gosta mesmo é aquela risada escandalosa e conhecida que vem do fundo do busão às 23h20, quando seu corpo não produz nada além de sono, fome e cansaço. É o desejo mais puro de um bom dia, vindo do dono da bomboniere em frente ao prédio, e as conversas divertidas que atrasam uns três ou cinco minutos o trabalho. São aqueles olhos que se vê semanalmente um tanto caidinhos na extremidade, e uns cílios que acompanham essa linha e dizem que nunca serão cílios de Emília.


Não chamo isso de “pequenas coisas”. Não acredito em pequenas coisas. O que é importante não é pequeno. Esse é só o adjetivo errado que aplicamos porque elas estão misturadas com tudo o que enche o saco, e que sempre parece muito maior do que é. O que enche a alma é mais discreto e se manifesta onde ninguém acha que tem algo de bom, justamente pra que tenha.

18 Agosto, 2009

O misterioso sentido das lojas de presentes


Loja de presentes é uma coisa interessante de se analisar. Nada contra os comerciantes que optaram por essa fonte de renda, é claro. Mas convenhamos, é o local que por último vem à cabeça do comprador (quando vem) e sempre porque as opções iniciais se esgotaram ou por pura falta de criatividade.

Há pessoas que presenteiam com peças de vestuário, perfumes, chocolate, jóias, pelúcias, flores. Isso pra falar de presentes mais simples. Há quem opta por animais, instrumentos musicais, livros, carros e coisas estranhas em geral. Agora, a dúvida principal: tem tudo isso na loja de presentes?

Se alguém quer comprar um par de brincos, vai numa joalheria ou loja especializada. Se for um tênis, vale um shopping ou loja de calçados mesmo. Ah, um saxofone? Visitinha na Teodoro Sampaio já!

Agora vejam que irreal: dia dos namorados. Você que é uma pessoa ultracriativa e inovadora pensa, na lata: “Vou à loja de presentes comprar alguma coisinha pro meu amor”. Chega lá e escolhe um lindo portarretrato ou uma bolinha de vidro com uma paisagem fria e neve dentro, ou quem sabe ainda uma daquelas tartaruguinhas de pano com areia em seu interior, pra manter a porta aberta.

Brincadeiras e comentários preconceituosos à parte, a verdade é que em loja de presentes se encontram normalmente artigos para casa, presentes que podem ser dados a qualquer pessoa, nada singular demais, o que não é totalmente ruim porque o risco de errar é diminuto. Viram? O esforço em encontrar pontos positivos é grande! Agora que o lado bom já falou, voltemos ao lado mau.

Primeiro pensamos no presente, depois vamos às compras. Até é possível andar por algumas ruas com lojas, pra ver se algo nos ocorre. Porém, entrar numa loja de presentes e ficar paradão lá no meio se questionando qual dos corredores (se houver mais de um) é mais atraente, é praticamente ficar em dúvida entre um jantar com o Tiririca ou uma corrida no parque com Tirulipa.

Passemos agora pra outro ângulo, que se mostra mais intrigante, o dos proprietários. Como é elaborada a listinha de produtos que serão vendidos na loja? “Hum... vamos colocar agendas, tapetes, canetas que dão choque, copos e talheres, faixas pra cabelo, ferro de passar, flores artificiais e reservar um espaço pros quadros com paisagem e aquele da Xuxa pelada”. Francamente... Que planejamento é esse, né Brasil?

Fica aqui registrada - ainda que sem bons argumentos - a indignação dessa que vos irrita os ouvidos, sobre a existência das lojas de presentes.

13 Agosto, 2009

Olhos secos como pedras, e duas mãos quebradas*


A ligação termina. Ela larga o aparelho e vai logo tomar banho. Por sorte tinha conseguido estabelecer contato usando aquele celular imprestável, e de alguma forma, marcado o encontro. No último havia acontecido uma briga, é verdade, mas alguns acontecimentos de classificação indiscutivelmente “alfa” anulam os anteriores que há dois dias atrás pareciam o sofrimento do universo. Enquanto esfrega no couro cabeludo um xampu verde, pensa em como é formada por fragmentos. Fragmentos das pessoas que a rodeiam, das coisas que decidiu gostar, das notícias que chegam por telefone e massacram o coração ou seja lá o que for que guarda nossas emoções.

Todas as pessoas se esforçam tanto em ser profissionais completos, mães exemplares, em manter seus relacionamentos resolutamente impecáveis aos olhos dos outros. Mas são pessoas fragmentadas, como um velho quebra-cabeça incompleto. Formadas pelas músicas que ouvem, pelos autores incríveis e maravilhosos e geniais e endeusados que, curiosamente, enumeram em cinco páginas razões científicas para não acreditar em Deus, porque assim se sentem mais racionais. São formadas pela psicodelia que é jogar Super Mario World, onde um minidinossauro estica a língua e devora uma tartaruga voadora pra cuspir fogo depois, ou o Mário bate a cabeça em um tijolinho e ganha de lá um cogumelo que o faz crescer.

 

Ela, assim como todos os outros, no fim das contas mal contabilizadas, nunca conseguiu ser inteira. Nunca conseguiu conciliar responsabilidades e problemas. Ao contrário, foca toda a alma no ponto mais grave, que é pra satisfazer aquela sede humana pela dor.

Veste-se de maneira desleixada em tons de cinza, passa o indicador, o médio e o anular pelos cabelos e sai. O dia está frio, o vento não perdoa as peles hidratadas com o melhor creme e muito menos aquelas limpas só com um sabonetinho medíocre de kit higiênico. A caminhada é longa, mas ela tem seu mp3 equipado estrategicamente com as músicas mais depressivas do mundo. Hoje sim. Ele aceitou marcar o encontro e então ela vai poder chorar sem limites, vai descarregar a angústia que carregou nesses três dias penosos dominados por um acontecimento ruim. Vai ter o famigerado ombro amigo.

Encontram-se numa praça vazia. Ela conta tudo com detalhes do ocorrido. Explica que quis sair um pouco de casa onde seus familiares faziam exclamações alegres forjadas num esforço de provar que está tudo bem, que a tempestade já passou. Diz que não tinha pra quem mais desabafar e então, nota que na verdade não tem como fazer isso. Lágrimas não são compartilhadas realmente, só mostradas numa ilusão de alívio. Não havia mais nada pra chorar. Era preciso garantir conforto por outros meios.
- Não solta a minha mão...
* verso do poema "Canção" de Cecília Meireles.



28 Julho, 2009

de onde vem a calma.

Engraçado como tem coisas que pedem descrição. Ou vai ver que eu uso isso como desculpa mesmo, pra começar a escrever. Hoje na hora do almoço eu tinha uns trinta minutos livres e saí pra andar um pouco, conhecer as ruas ao redor. Embora não tenha encontrado nada que me prendesse a atenção (nos comércios), foi bom sentir o cheiro da rua – ainda que a rua cheire sempre a uma cidade que não pára. Veja só onde é que eu fui tentar acalmar a minha cabeça.


Reparei que algumas árvores não se contentam com o espaço que lhes é dado, e com muita razão: cimento nunca foi chão adequado pra árvore. Então elas fecham as mãos, aquelas raízes que parecem mãos forçando o obstáculo urbano e formando relevos pela calçada. Mostrando que não estão nem aí pra frente toda cheia de vidros e brilhos e rotina plástica dos prédios comerciais. Ainda bem. Ainda bem que pelo menos as árvores têm coragem de expressar esses gritos de insatisfação.


O dia é um daqueles que você pode andar só de camiseta ou com um casaco, que não vai se sentir incomodado por algum exagero climático. O céu, uniforme. De uma cor que não chega a ser cinza, mas que vai dormir ensaiando um azul tímido, tenho certeza. Já reparou como venta nesses dias e o chão fica cheio de minifolhinhas? O mais engraçado é elas não se contentarem em colorir o chão e decidirem se acomodar então, no cabelo de algumas pessoas.


Às vezes eu me limito a olhar pela janela aqui do prédio, sem ir à rua. Hoje eu teria feito isso mais uma vez, já que não tinha o consolo de pensar que “pelo menos está um dia bonito de sol”. Mas sabe, é bem melhor descer e ver que o dia está lindo sim, porque afinal nossos olhos e nosso corpo podem captar tudo ao redor, e tudo é tanta coisa e tanta gente tentando viver, que se eu disser não haver nada interessante dentro de mim e fora daqui é quase blasfêmia.


O meu coração ficou leve, porque eu quis pensar em coisas que o fizessem ficar, e porque eu não pensei em todas as outras que “ainda vão dar certo” ou que “eu ainda tenho que terminar”. Eu não pensei em planos. Nem em ontens.


Eu queria te passar essa calma, ainda que ela provavelmente seja passageira. Queria te passar a força que tanto falam pra eu te dar e que eu ainda não sei onde comprar. Queria te proporcionar um daqueles momentos em que a gente tem certeza do que é felicidade. Mas eu não sou suficiente.


Eu pensei então em dizer que te amo, te comprar umas flores e jogar umas minifolhas no seu cabelo.

09 Julho, 2009

Querido Victor,


Como você está? Espero que bem. Recebi os cartões-postais que você me enviou, são de fato lugares muito bonitos. Mas confesso que estou preocupada por não receber cartas com notícias reais suas, e os cartões são de, no mínimo, um mês atrás. Desculpe se ultimamente ando rabugenta neste sentido, mas é que as pessoas colocam coisas na minha cabeça, dizem que você não está nem aí e que não volta. Eu não acredito nelas e sei que tudo deve estar muito corrido por aí, ou que você está meio sumido por motivos muito fortes. Bom, vamos esquecer isso, está bem?

Hoje lá no orfanato uma das crianças me perguntou coisas que não condizem com a idade dela. Mais tarde pensei que na verdade, não condizem é com a minha, pois eu corei enquanto a garotinha desinibida esperava resposta. Preciso me atualizar. As matérias dominadas pelos pequenos aumentaram. Às vezes penso que lidaria melhor com eles se tivesse um filho. Quero dizer, no passado, é claro. Mas logo percebo que a experiência com os órfãos me acrescenta até mais do que teria com um filho apenas. Foi mesmo ótima esta idéia de assumir a direção do orfanato. Algumas crianças (as mais grandinhas) perguntam por você e sentem sua falta. Eu as distraio e aproveito pra fazer o mesmo por mim.

Já reparou como cheiros lembram pessoas e coisas? Ontem eu e a Nilza fizemos um bolo de laranja e quando o forno foi aberto lembrei de cenas que não me ocorriam há muito: minha mãe vestindo suas luvinhas coloridas depois de tomar o chá da tarde com bolo... Ela tinha verdadeira mania por luvas. Lembrei também da vizinha moça que eu imitava quando pequena, toda educada e suave, andando sempre na ponta dos pés. Eram tardes com o mesmo cheiro de bolo me esperando no forno, enquanto eu me perdia nos detalhes. Ainda hoje é assim.

Bem, conforme combinamos, escrevi "o que sai do coração", como você diz.
Espero ansiosamente suas cartas.

Com carinho,
Branca.

03 Julho, 2009

Dona Pia


Podem existir outras Piedades por aí, mas nunca vai haver uma igual a minha avó Piedade. Dona Pia é, sem sombra e possibilidade de dúvidas, a pessoa mais doce que eu já conheci. É mulher daquele tipo que se multiplica: boa mãe, boa esposa, boa avó, boa vizinha e, acreditem, boa sogra!

Sua casa é o lugar que eu vou pra me sentir bem o tempo todo. Pra ouví-la contando dos exercícios na hidroginástica e no Tai Chi-Yoga, ou dos passeios sempre cômicos com as minhas tias. Nem todas as conversas são sobre o dia-a-dia modernérrimo dela. Há também as lembranças de um tempo que, ao meu ver, era menos artificial e até menos vazio. Tempo em que ela distraía o menor dos filhos com panos coloridos, pra poder dar conta da casa, do meu avô e de tudo mais. Até as crianças nessa época eram mais inocentes, mais fáceis de lidar.

Enquanto conversamos são colocados na mesa pães, biscoitos, leite, quem sabe um bolo. O que há de melhor nos armários, sempre. Isso quando ela não compra goiabas, porque sabe que eu adoro.

Não bastasse tudo isso, ainda faz o papel de vovó clássica: óculos apoiados no nariz, e vamos bordar! As toalhas pra família toda, com as letras coloridas e tortinhas mais lindas do mundo.

Na hora de ir embora, depois do "tá cedo, minha filha", ela pega uns trocados debaixo da latinha de arroz da prateleira, não importa quantas vezes eu recuse. Ouço como resposta um "compra uns doces pra você e pro seu irmão", sussurrado.

Daí eu afundo a cara no abraço quente e com cheiro de flor dela, e o dia se desenrola melhor.