19 maio, 2013

obediência


i

permanecer sob a fresta de sol.
isso das costas coladas à parede fria
para que me atinja em cheio


ii

a manhã que começa
no quintal do silêncio mútuo
orvalhando em uma samambaia de folhas truncadas


iii

e já cai com a língua de fora:
mesmo clara, é cadela à procura
exposta, triste que só o diabo,
sussurrando samba
e de quatro


iv

quando nota, virou tarde;
e com uns ares
de estação errada
sobra-lhe, enquanto noite,
uma veia que lateja na cabeça
roxa
como fosse motivo


v

como fosse solução isso de mover-se
sob raios para buscar cura
para buscar ternura


vi

e levar ambas na concha das mãos, pontualmente
para que te atinjam em cheio

30 abril, 2013

o tempo é um mar aberto absurdo

em que ecoa o que me disseram há tempos
e desde então não soube responder, de amores: 
o que é que acaba, afinal?
houve uma suposição acerca da esperança, 
e tanto uma quanto a outra se afogaram no álcool 
e na falta de exigência de horas que sozinhas avançam.
algumas das folhas viçosas que pendem do telhado 
(sabe-se lá exatamente brotando de onde)
me davam alguma. esperança. estão amarelinhas agora 
e eu suponho que seja o outono, e eu supunha que a lua estaria diferente por esses dias.
eu andava numa estupidez de querer bem a lua se revirando no meu cabelo;
que é vago, muito falho e muito pouco.

.

sonhei que um urubu era um pássaro pequeno, gordinho e marrom que caía de seu ninho, depois de sentir-se mal revirando os olhos sem amparo. aí alguém dizia, olhando de longe, que o bico havia quebrado. ainda me acontece de acordar com sons da pancada seca na mente e achar minhas mãos muito vazias pela manhã.

15 abril, 2013

é a lama, é a lama

quando passo daquela linha, continuo falando e achando que as coisas não me falam; alongo a perna para transpô-la, fininha, procuro não fazer barulho na aterrissagem, apago uma parte ínfima do tracejado com os pés inábeis e peço desculpas imediatamente. no que bebo as horas vou afundando e não é a ponta dos pés que oferece vislumbre, nem poderia, se já não dança por si. de modo que se a vista plena me fosse dada, gritaria, eu faria um escândalo, ah, que lindo é o meu amor! e me jogaria no mar estourando de felicidade. [...] mas eu dizia que, depois da linha, sou criação no que é dito também. e digo, digo, digo mas não sei. sei que nervosa sapateio em espaços pequenos, e que isso agora me vem mais vezes do que gostaria; na verdade nem gostaria, embora saiba das assimilações decorrentes e colha cada uma devagarinho no canto da cortina, na fruteira, nos olhos dos outros – quando se deixam. prevejo os enquadramentos nesses mesmos pontos e a luz matinal das cozinhas ainda me é uma coisa lindíssima, a cama um retrato calmo muito só e comovente, o corpo na cama etc.

23 março, 2013

Maranha

Sol a pino, os respingos violentos de sempre e a ponta do dedo latejante; a grande lasca de unha ficou entre duas pedras rudes no trecho em que a maré avança. Anos mais tarde, experimentaria o mesmo minuto de contemplação lembrando, no contato com as barras do trem, que, embora os calos parecessem iguais, a palma nos tempos de mar trazia um desenho diferente. Tudo que é traço os supunha navios, desde que a cigana velha da praça central lhe disse mudarem as linhas da mão com o tempo. Ponta de galho no chão não faz caminho inesperado para formigas, pois não? Trajeto é coisa que enreda à noite e clareia na alvorada instigando destino novo. Pena que escorrega pelos dedos.

Parece mesmo um formigão, dizia agora a garota da mercearia enquanto lixava as unhas com um ruído insuportável, como diria toda vez que ele tocasse a cabeleira queimada pelo sol de antes, como disse na primeira vez em que esteve em sua cama, diante da surpresa pelo corpo bronzeado segundo ela tão contrastante com a claridade dos olhos. Tu é galego só no gene. Movia-se rápida pelo cômodo pequeno, de modo que sua chegada e saída eram notadas pelo palratório eterno, em agudos, que não exigia de todo a dedicação do interlocutor. Calava quando ele lhe dizia que nas conchas dá para ouvir som de aguaceiro, sim senhora. Encolhia-se atenta, transmudada em marisco. Na superfície da noite recém-chegada alguma melancolia salgava as horas – um estado metropolitano de existência não consentida e muda. Encolhia-se, ela, miúda.

Até seu primeiro mês de asfalto, os moradores do bairro lhe estranhavam os modos sem cuidado, o desinteresse em lidar com objetos de uso já decididamente corriqueiro e sobre os quais não se exige racionalização. Nas frases soltas ouvidas através de lençóis nos varais também, por vezes, chocava; como no dia em que disse à jovem vizinha, em pleno pátio e apontando uma namoradeira de gesso na janela defronte, para andar pelo mundo sem manha, levantando a saia onde fosse moita. Era de uma afronta sutil tal sobrevivência que se bastava justamente por sua naturalidade, pelo desprezo ao que foi incorporado à rotina em virtude de uma necessidade criada. Estruturas invisíveis do proceder. Toma tento, caiçara.

As semanas eram um emaranhado de pó, buzinas nervosas, cimento na lata e cartões de ponto. No fim da tarde era mais fácil encontrar matérias aquosas nos olhos dos homens. Os do chefe da obra (cara de tartaruga), pequenos, azuis, transportavam sempre para as miçangas vendidas à margem da praia, ligadas por cuidadosas mãos de artesãs para que a maresia fizesse volta em pescoço de madame. 

De maneira que a vida, assim profunda e menos nítida, lhe vinha por redes de arrasto quase nunca cheias. Preenchia os losangos de saudade no encharcar dos cabelos – a cabeça pendendo da janela em noites de chuva. Os fios, no entanto, impenetráveis. Detentores em cada nó de uma praia que a água não leva.

06 março, 2013


viu,
que manhãs claras me comovem demais.
 
vontade de não ser triste, talvez, e morrer sorrindo depois que o sol evidenciar toda a penugem, uma janela escancarada que não se preocupe com o adjetivo também destinado às pernas e estas aos paus; devolver tranquilo o ar reposto em vias desobstruídas de metrópole – partículas de nuvens de silêncio guardando nas juntas e cotovelos e joelhos algodoados um raio imenso que desabe bonito. vontade de perder o medo e adentrar claridades sem guarda-chuva.
 
 
clique falho na base
ali onde mais se vê, minicrisântemos que dei pra minha mãe numa véspera difícil. estavam assim vistosos antes, mas todas essas florzinhas secaram e caíram.
falta dizer de um porém importante que o vaso está cheio de botões hoje. cada um deles diz, de precoces: te acalma e espera.

contraponto, outro
a descoberta que costas-com-costas faz erguer. e outros exercícios cujas sementes jamais vimos antes, mas brotam das articulações e do âmago do âmago do âmago...

27 fevereiro, 2013

fiéis

gritaria aborrecida na tv:
o moço fala de si, da placa que ostenta, de seus valores, de si.
queria que alguém entendesse quando digo que estou cansada.

– oi, boa noite. posso só passar pra tomar banho?
posso, por favor, não ser uma vencedora em cristojesus?
sim? graças.

penso ir dissolvendo conforme a espuma se forma.
achei a noite clara hoje, e pela tranquilidade dessa sentença
busco crer que alguém neste momento,
alguém neste mundo de meu deus (qual mesmo?)
se sente bem.

.

no meu celular dizem que a lua está linda. lindo é seu ombro nu, quero responder.
(lindo é minha mãe ter conseguido levantar o braço último domingo.)
mas deixo pra lá os céus e tudo além.
queria mesmo um silêncio profundo
e alguém
pra esfregar as minhas costas.

31 janeiro, 2013

floreios bem servem ao campo

. caatinga

o tipo de vegetação, me perguntas quando a íris fica amarela de sanidades e pende para o solo.
afundei, digo.

penso ser pedra interrompendo placidez, lançada com duas mãos e um coração úmido, tamanha a pancada no vão dos musgos. escorrego em cada desejo flutuante e escapa às falanginhas o mato rasteiro nas margens para ajudar a travessia. se minha boca se enche em verde, admito lascas nos dentes; a tua alegria sai aos borbotões pelas frinchas da arcada, e sob controle (para que na poça formada caibam dois apenas, isto decidi).

mas baixo os olhos... é tão cristalina esta água! e a posse abranda. em corredeiras tudo se engole.

a pergunta foi por conta do bom dia fechado em espinheiros,
atinei.
tudo era seco, e sobre isso que faria eu?



. maritacas

desisti dos pêssegos
por medo aos ferimentos.
pesam muito à natureza as dores que os homens carregam em sacolas abafadas.

às outras frutas fiz buracos na casca,
e me movi branca pela polpa.
pela manhã descobri que cantava com coragem:
há no sumo quando desce a goela um quê de amor pelos que viajam.

este dia quis sumir-se sonoro-suculento nas montanhas antes que lhe viesse o podre pelos maus-tratos.
ou que maltratasse a si: o bico descendo forte no tórax, arrancando as penas desde o cálamo.



. esturricado

quisera ele, do focinho pontudo à coda,
um todo intacto.

(de corpo quis perto o teu,
para o lamento pelos que desconhecem estrada.)

éramos perigo em zigue-zague nas duas vias
do sonho imenso.

carimbaram-no em vermelho, pois, no fim de um raio de sol.
pudesse antes, pulularia: veja, cidadã, um gambá é isto!



. para não calejar

ao fim e ao cabo, eram-me fortes as marcas nos pés. mapas da calmaria impressa: ficou gravado teu equilíbrio nas pedras.

era o verde vasto, e era tanto, que a carne em contraluz pareceu esmaecer.
quando não éramos fato, e éramos pouco, fiquei com ideia de títeres: de cada membro sairiam galhos finos cujo controle da outra ponta a alegria desconhece e sobre ele não se aflige.

tanto ofereço para que escrevas... à minha sola e à palma chamo papiro.



Trabalho publicado na 6ª edição do caderno-revista de poesia "7faces", disponível aqui. Inspirado em uma viagem a São Bento do Sapucaí-SP, no último setembro.

22 janeiro, 2013

Every single night


os sonhos inconclusos retomo aos poucos,
sentidos vagalume - ponto de luz para colher ao acaso
e levar elucidação às mãos outras;
frágeis como as minhas, e tanto
que nisso não se reconhecem.
e se oferecem em acalento,
que aceito, processando todas as coisas
em que preciso acreditar.

à noite o que é ruim fica muito pior, amigo, e todos os cacos fincados no seu corpo sabem exatamente do que estou falando.

título: Fiona Apple

02 janeiro, 2013

não era homem,
mas espantalho

reconstruir;
dar forma a;
nascer para império
no espaço vasto
passarinho não se arrisca,
é respeito à forma de vida
nascida de mato morto

de se espantar a placidez
diante do apodrecer
dos frutos

pudera, é herança

a incoerência do homem
em criar
para espantar
um duplo seu

04 dezembro, 2012

Dei para pequenas atitudes durante o sono sem rastros de lembrança no dia real. Tirei a blusa, movi um objeto de seu lugar costumeiro...
Permissividades medíocres, penso. E adianta essa matéria impalpável de quem sou no sono se ela depende da carne desperta para lhe imprimir símbolos?
As ideias de astros_energias_situações oníricas são mesmo muito bonitas, mas um coração precisa de belezas com textura mais concentrada. Coloquei luzes pelo quarto a fim de evidenciar as formas.

Queria também fotografar pássaros, não os alcanço.

29 novembro, 2012

.despojamento

sonâmbula, arrancara a blusa deixando sob a manta uma miragem de pele crua. cotidiano e aborrecimento debaixo da cama subiram-lhe pelo colo como coisa volátil – um em cada bico, aquietando-se.


.película

gelada, caminhava no piso frio em pés de ave, tamanha a rarefação das vontades. os braços ondulavam paralelos ao corpo, e com mãos abertas, como se a vida fosse sugestão. eram então órfãs a exatidão, as grandes verdades, a utilidade de objetos, tudo envolto em uma irresponsabilidade doce porque o peito não arfava.


.consistência

trajada de dia, perdeu a maciez do tato, a temperatura amena... amarrotado existir azul. sem delicadeza de pena.
sem tronco nu.

22 novembro, 2012

Luzem cacos, tilintar

Em dupla junção dos lábios vislumbro tua alma de vidro: abajur de bola de gude
Explico porque Morfeu assume contorno de luz, o teu primeiro suspiro pesou longo no espaço-corpo de penumbra que ofereço. Houve ainda um facho a transpassar paredes geminadas em ruídos de louça, percebes? E a velha vizinha, louca, a trincar cada lance meu ao teu sono – que me canso, que padeço.

A pluma... sustenta globo de cor tão dúbia?
Foram limpas as mãos na derradeira jogada?

Tardio apagar das luzes haveria de nivelar as fundas trilhas do peito, mas antecipas um pesadelo meu refletido, e, responsável, triturei partículas cortantes; acordada.

19 novembro, 2012

eu lírico

concluí, olhos apertados:
dói é nos canais suspensos

o cão da casa (por exemplo)
junta as patas na cabeça
e geme
os quatorze anos que lhe entram pelo ouvido

um pacto dormente meu arquejar
porque, durante o sono,
o corpo não tem certezas. pudera:
horas de bruços e do peito, lembrei,
fiz corredeira

tais as olheiras

diabo de choro, sim, rosto disforme até
a reconhecer-se de minuto
só no que é profundo

no mais, depois dos olhos abertos
tanto quanto podiam num dégradé
de poros escurecidos,
lamenta-se

.o preço dos tomates-cereja
.a pintura da casa (uma cor tão feia! cor de gaitista sonolento em garoa
fria. calcule quão antiquada é essa imagem)
.as plantas que secam
.a carne tão fraca, os restos do pouco

e a minha falta de etiqueta:
oh, desculpe o não comparecimento!
nestes copos há menos que um dedo de coragem
e a má postura faz que me doam as costas
por dias inteiros

cotovelos na mesa, mirei o sol com lupa;
meus olhos sumiram
numa ardência de verbo lenta
e assim articulamos ambos:

de.ti um poema do dia
de mim
a ti


Poema publicado na Revista Mallarmargens.

13 novembro, 2012

E se minha alma tombou, por que permanece o esqueleto?

Que frágil o corpo diante das perturbações flutuantes.

Desde tão cedo o chão frio agride a sola e o ventre logo mais relaxa, se expandindo. O ventre é uma coisa que acorda lisa e reta como as folhas sem pecado. Só que nas entranhas o diabo.
Ontem eu me inclinava tanto olhando pros trilhos que um moço perguntou se passava mal. Assustei, neguei, agradeci. Eu podia ter contado que me sinto mal por vezes, mas que aquela mirada perigosa era só plano para fotografia. E a vida dele, faz passar mal alguma vez? Aquela face um pouco torta foi de um mal que o acometeu? E doeu?
Na mesa de almoço compartilhada uma desconhecida fala, ai, da sujeira do litoral sul, ai, as pessoas sujam tudo. As pessoas nunca somos nós. Tudo o que é vil transformado em entidade em uma garfada de carne suína boca adentro – fáceis assim os preâmbulos, o dia que corre, a chuva que corre nele, o fim. Dormir.

E que ternura as marcas de dormir na pele. Vão-se embora com a sutileza dos planos incertos, cada sulco raso se enchendo de tempo. Penso que tristezas deixem cortes profundos, nunca passíveis de curativo em curto prazo. Internos. A carne exterioriza; ela um mundo ali convulso.

 
Título do post: Neruda.