12 outubro, 2007

O jardineiro

Só colhia as rosas ao anoitecer porque durante o sono elas não sentiam o aço frio da tesoura. Uma noite ele sonhou que cortava as hastes de manhã, em pleno sol, as rosas despertas e gritando e sangrando na altura do corte das cabeças decepadas. Quando ele acordou, viu que estava com as mãos sujas de sangue.

Lygia Fagundes Telles



Pra não falar dos sonhos estranhos que eu tenho tido...

04 setembro, 2007

Tranco a porta e fecho as cortinas, quero o escuro. Mesmo conhecendo cada canto deste quarto, com as luzes acesas há o perigo da distração, o olhar dispersivo que ainda procura novos encantos nos velhos móveis, nas velhas fotos.
Mania de separar esses minutos (que depois se transformam em horas) para pensar se tudo está certo... O frustrante é chegar às mesmas conclusões sempre e no final esquecer tudo pronunciando um sonoro e sentido “besteira!”.
Depois da inútil análise, minha cabeça vagueia por quaisquer outros pensamentos que se dissolvem rapidamente, passam com pressa, deixam seu recado e vão embora desperdiçando esforços, já que quase nunca sobram vestígios. Devagar me levam a alguma música que espanta o silêncio até o sono chegar, mas só o silêncio, que a dor não se deixa espantar assim tão fácil...a dor fica, ela sempre fica.

02 agosto, 2007

Moradias

O cenário é rústico, mas jamais desagradável, muito pelo contrário: o vento bate através da cortina trazendo um cheiro leve, quase adocicado. Trata-se de uma casa antiga de madeira, grande e aconchegante.

Júlia se encontra na parte de baixo da casa que está um tanto quanto vazia. Ela sobe as escadas, apoiando-se no corrimão bem polido e cheio de curvas, como se todos os dons de decoração do construtor tivessem sido empregados apenas no corrimão, e os demais cômodos deixados de lado.
Lá em cima o quarto não se diferencia muito da parte de baixo, também vazia e silenciosa, exceto pelo detalhe que chamou a atenção da garota logo de início: uma casinha colocada no chão num dos cantos da parede (como se um dia tivesse feito parte de uma maquete). A casinha era aberta numa das laterais, deixando amostra os cômodos e móveis que pareciam ter sido construídos com muito zelo. Em cada um dos cômodos havia uma cestinha com pedras preciosas dentro, estas variavam em forma, cor e tamanho.
Julia estava ainda sentada no chão observando com interesse a casinha de bonecas quando houve um pequeno tremor e antes que pudesse entender como, descobriu-se dentro da casinha caminhando com esperança de encontrar em cada passo um encanto diferente. Numa das paredes da sala há um portal azul com um tipo de energia estranha, daqueles comuns que se encontra vez ou outra em filmes e desenhos. Ela podia ouvir vozes de pessoas conversando, talvez em outros cômodos da casota.
Depois de um bom tempo analisando o local ainda sem entender se sua imaginação era mesmo tão poderosa ou se coisas estranhas aconteciam com uma freqüência assustadora, decidiu voltar ao quarto pra pegar as pequenas pedras preciosas que tinha visto antes, mas ao olhar no fundo do corredor viu um homem alto, jovem, cabelos muito pretos e olhos que pareciam enxergar além do que lhe é exposto. O homem pedia às pessoas que saíssem dali rapidamente, e Júlia mesmo sem receber de maneira direta a ordem foi caminhando para a porta de saída. Durante o curto percurso ela notou que o homem a observava, e mais do que isso, que de alguma forma inexplicável ele sofria pela partida dela.
Já do lado de fora da casa, hesitou e ainda tocou a porta devagar, demonstrando talvez uma nova tentativa de entrar, de serem felizes ali. Havia angústia nos olhos do homem quando antes de fechar a porta com muito cuidado, no gesto mais carinhoso do mundo (evitando magoá-la) ele disse: Agora já é noite, e você deve sair daqui mesmo que isso pareça oportunidade desperdiçada. Amanhã o dia não vai lhe cobrar pedras preciosas e eu não tenho o direito de desfrutar mais uma vez da sua companhia. Fora do inconsciente tudo correria bem, mas estou preso e aqui dissolvem nossos planos. Não há mais nada a fazer. É tarde, Júlia.



Adaptação do sonho de uma amiga.

08 abril, 2007

"...mas agora dá licença? Eu queria ficar assim quietinha com a minha garrafa, ô! delícia beber sem testemunhas, algodoada no chão feito o astronauta no espaço, a nave desligada, tudo desligado. Invisível. O que já é uma proeza num planeta habitado por gente visível demais, gente tão solicitante, olha meu cabelo! olha o meu sapato! olha aqui o meu rabo! E pode acontecer que às vezes a gente não tem vontade de ver rabo nenhum.”

Lygia Fagundes Telles

07 abril, 2007


Ana Margarida Benedita de Jesus é uma moça estranha. Tem longas tranças atadas com fita vermelha e roupas que não correspondem a sua época (muito menos a moda do momento). Todas as pessoas olham pra ela na rua, porque apesar do tipo estranho, tem um rosto muito bonito.
Ana Margarida vai à missa todos os domingos mas se martiriza de vez em quando porque sabe bem que não é tão santa assim. Na verdade não é nem um pouco santa.
Ana Margarida é meio desorganizada e preguiçosa. Não gosta de conversar nem de brincar com a priminha de 7 meses de idade. A porcaria da criança só sabe babar e cagar mole.
Nessa páscoa Ana Margarida roubou alguns bombons da loja onde trabalha, na hora que o chefe saiu. O chocolate era ruim e aguado, pensou que não tinha valido a pena e se arrependeu do que fizera.
Ana Margarida Benedita de Jesus anda meio insatisfeita com sua pessoa.

03 janeiro, 2007

“Certa vez, havia um baile num lugarejo da roça. Dançava-se e cantava-se, quando entra um moço muito bonito e pede licença para cantar. Toma a viola e canta. Encantou. Todas as moças ficaram pelo beicinho e ele continuou durante muito tempo triunfando. Eis senão quando uma criança se abaixa e diz: ‘Mamãe, esse moço tem pé de pato’. Houve um cheiro de enxofre e o moço desapareceu. Era o diabo.”

Lima Barreto