02 agosto, 2007

Moradias

O cenário é rústico, mas jamais desagradável, muito pelo contrário: o vento bate através da cortina trazendo um cheiro leve, quase adocicado. Trata-se de uma casa antiga de madeira, grande e aconchegante.

Júlia se encontra na parte de baixo da casa que está um tanto quanto vazia. Ela sobe as escadas, apoiando-se no corrimão bem polido e cheio de curvas, como se todos os dons de decoração do construtor tivessem sido empregados apenas no corrimão, e os demais cômodos deixados de lado.
Lá em cima o quarto não se diferencia muito da parte de baixo, também vazia e silenciosa, exceto pelo detalhe que chamou a atenção da garota logo de início: uma casinha colocada no chão num dos cantos da parede (como se um dia tivesse feito parte de uma maquete). A casinha era aberta numa das laterais, deixando amostra os cômodos e móveis que pareciam ter sido construídos com muito zelo. Em cada um dos cômodos havia uma cestinha com pedras preciosas dentro, estas variavam em forma, cor e tamanho.
Julia estava ainda sentada no chão observando com interesse a casinha de bonecas quando houve um pequeno tremor e antes que pudesse entender como, descobriu-se dentro da casinha caminhando com esperança de encontrar em cada passo um encanto diferente. Numa das paredes da sala há um portal azul com um tipo de energia estranha, daqueles comuns que se encontra vez ou outra em filmes e desenhos. Ela podia ouvir vozes de pessoas conversando, talvez em outros cômodos da casota.
Depois de um bom tempo analisando o local ainda sem entender se sua imaginação era mesmo tão poderosa ou se coisas estranhas aconteciam com uma freqüência assustadora, decidiu voltar ao quarto pra pegar as pequenas pedras preciosas que tinha visto antes, mas ao olhar no fundo do corredor viu um homem alto, jovem, cabelos muito pretos e olhos que pareciam enxergar além do que lhe é exposto. O homem pedia às pessoas que saíssem dali rapidamente, e Júlia mesmo sem receber de maneira direta a ordem foi caminhando para a porta de saída. Durante o curto percurso ela notou que o homem a observava, e mais do que isso, que de alguma forma inexplicável ele sofria pela partida dela.
Já do lado de fora da casa, hesitou e ainda tocou a porta devagar, demonstrando talvez uma nova tentativa de entrar, de serem felizes ali. Havia angústia nos olhos do homem quando antes de fechar a porta com muito cuidado, no gesto mais carinhoso do mundo (evitando magoá-la) ele disse: Agora já é noite, e você deve sair daqui mesmo que isso pareça oportunidade desperdiçada. Amanhã o dia não vai lhe cobrar pedras preciosas e eu não tenho o direito de desfrutar mais uma vez da sua companhia. Fora do inconsciente tudo correria bem, mas estou preso e aqui dissolvem nossos planos. Não há mais nada a fazer. É tarde, Júlia.



Adaptação do sonho de uma amiga.