27 dezembro, 2008

Sujeito de posses

Heitor Lameni Ribeiro. Entrou pisando macio em sua sala forrada de um carpete verde escuro absolutamente discreto, como o verde de algumas plantas que têm o sumo retirado e lentamente escurecem de tristeza.

Antes de chegar em casa estava planejando fazer ligações, escrever novos discursos, inventar novos slogans, meios de convencer as pessoas de que seu mandato seria o melhor de todos os tempos. Afinal, tinha entrado na política, e pela porta frontal. Agora, já confortável em sua poltrona italiana, tudo o que sentia era o peso da responsabilidade que fora colocada sobre seus ombros. Pensou em sua esposa e filhos, que de agora em diante ficariam constantemente sozinhos em casa, já que a agenda do novo político da família não continha espaços em branco.

Os depoimentos às dezenas de equipes de reportagem após a apuração dos votos foram exaustivos. É certo que essa exaustão só se manifestava agora, pois no ato do discurso ele era só orgulho e exibicionismo. Agora, de olhos fechados deixava para trás as pequenas responsabilidades, classificava-as como dispensáveis no momento. Encarava o poder de mandar e abolir, de transformar vidas apenas com sua assinatura.

Levantou-se e ficou a dar voltas pela sala como um animal liberto do cativeiro, sem saber administrar tudo o que esteve reprimido por longos anos. Afrouxou a gravata, tirou o paletó e abriu a janela. Agora, o mundo era dele. E ele era o mundo.

31 agosto, 2008

"Dizem que existe um tipo de pássaro que não tem pernas. Ele nunca pára de voar. Quando se cansa, dorme no vento. Este pássaro só pousa uma vez na vida. Quando ele morre."

Dias selvagens, de Wong Kar-Wai

31 julho, 2008

Eu queria ser corajosa.

27 maio, 2008

Canta uma canção bonita falando da vida em ré maior
Canta uma canção daquela de filosofia, é mundo bem melhor
Canta uma canção que agüente essa paulada e a gente bate o pé no chão
Canta uma canção daquela, pula da janela, bate o pé no chão

Sem o compromisso estreito de falar perfeito, coerente ou não
Sem o verso estilizado, o verso emocionado, bate o pé no chão
Canto que não silencia, é onde principia a intuição
E nasce uma canção rimada da voz arrancada o nosso coração

Como sem licença, o sol rompe a barra da noite sem pedir perdão
Hoje quem não cantaria, grita a poesia e bate o pé no chão
Sem o compromisso estreito de falar perfeito, bate o pé no chão
Sem o verso estilizado, o verso emocionado, bate o pé no chão

Canta uma canção bonita falando da vida em ré maior
Canta uma canção daquela de filosofia, é mundo bem melhor
Canta uma canção que agüente essa paulada e a gente bate o pé no chão
E hoje quem não cantaria, grita a poesia e bate o pé no chão




Aquela música velha, que quando eu percebo tá passando pela minha cabeça. Passando até com o mesmo som ruim de fita cassete, o chiado ao fundo. 

08 maio, 2008

Aperto meus dedos na tentativa de protegê-los da manhã fria, fria mesmo com esse sol que me olha diretamente. Olha mas não aquece. Ele só ignora. Assiste e mesmo podendo fazer algo, por pura falta de motivo plausível não faz.
As pessoas passam geladas, todas elas. Com muita pressa pra falar bom dia a alguém. No máximo um levantar de sobrancelhas, quando muito. Jogam algum papel de bala no chão.
Os homens cospem. No trânsito da avenida movimentada, comunicam-se com buzinas alucinadas que se perdem em meio ao barulho dos caminhões que passam na outra via.
As mulheres se apressam em ligar suas mangueiras a torneiras que liberam toda a água existente no mundo, pra lavar a frente da casa empoeirada, é claro. Fazem isso enquanto, por cima do muro, comentam com a vizinha sobre a novela das oito.
O ônibus pára e um velho magro passa por mim correndo, ou tentando correr, o cobrador dando um empurrãozinho apressado manda subir logo e sentar ali na frente, ó. O velho senta e silencioso olha pro chão, pra rua e então olha pra mim. Mas eu não posso fazer nada. Eu estou gelada. Sentada aqui, com o sol.

17 abril, 2008

O que é isso?









Um quebra-cabeça
É todo saber
Um nunca me esqueça
Um ser ou não ser

Palavra cruzada
Um bem contra o mal
Tônica trocada
Um não ter final

Uma encruzilhada
Uma quase morte
Um monte de nada
Ou falta de sorte

Um sonho confuso
Tv desligada
Brinquedo sem uso
Memória apagada


Pato Fu