27 dezembro, 2008

Sujeito de posses

Heitor Lameni Ribeiro. Entrou pisando macio em sua sala forrada de um carpete verde escuro absolutamente discreto, como o verde de algumas plantas que têm o sumo retirado e lentamente escurecem de tristeza.

Antes de chegar em casa estava planejando fazer ligações, escrever novos discursos, inventar novos slogans, meios de convencer as pessoas de que seu mandato seria o melhor de todos os tempos. Afinal, tinha entrado na política, e pela porta frontal. Agora, já confortável em sua poltrona italiana, tudo o que sentia era o peso da responsabilidade que fora colocada sobre seus ombros. Pensou em sua esposa e filhos, que de agora em diante ficariam constantemente sozinhos em casa, já que a agenda do novo político da família não continha espaços em branco.

Os depoimentos às dezenas de equipes de reportagem após a apuração dos votos foram exaustivos. É certo que essa exaustão só se manifestava agora, pois no ato do discurso ele era só orgulho e exibicionismo. Agora, de olhos fechados deixava para trás as pequenas responsabilidades, classificava-as como dispensáveis no momento. Encarava o poder de mandar e abolir, de transformar vidas apenas com sua assinatura.

Levantou-se e ficou a dar voltas pela sala como um animal liberto do cativeiro, sem saber administrar tudo o que esteve reprimido por longos anos. Afrouxou a gravata, tirou o paletó e abriu a janela. Agora, o mundo era dele. E ele era o mundo.