28 dezembro, 2009

Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.


Machado de Assis

02 dezembro, 2009

A lagartixa.

A lagartixa ao sol ardente vive 
E fazendo verão o corpo espicha:
O clarão de teus olhos me dá vida,
Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

Amo-te como o vinho e como o sono, 
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.

Posso agora viver: para coroas 
Não preciso no prado colher flores;
Engrinaldo melhor a minha fronte
Nas rosas mais gentis de teus amores.

Vale todo um harém a minha bela, 
Em fazer-me ditoso ela capricha...
Vivo ao sol de seus olhos namorados,
Como ao sol de verão a lagartixa.

Álvares de Azevedo

A foto da largartixinha fofa de olhos dourados foi tirada por mim, quando ela resolveu ficar paradona curtindo um sol na minha escada. 

16 novembro, 2009

Ameno.

Outro dia vislumbrei flores debaixo dos meus pés, um ar rarefeito que não tinha mil cheiros nem sufocava, e um tempo sem dor. Asfalto não era sinônimo de cidade, ou terra de campo, as coisas só eram. E eram boas. As pessoas não pareciam muito sensitivas, andavam como que anestesiadas, mas isso não é tão ruim, é? Diz se isso seria tão ruim. Se as reclamações independem da situação que se vive, então não há problema real nessa ausência de percepção do mundo. When you got nothing, you got nothing to lose.

Imagina só, todas as casas tinham cortininhas de renda na janela, e pessoas esperavam pessoas nelas. Não posso mentir, isso acontecia em todas as casas, todos os dias. Acontecia com a mesma naturalidade com que se come uma maçã, não era uma linda cena de filme, entende? Era comum e bom.

Eu abri os braços e toquei na água provavelmente gelada de uma fonte bem grande na praça central, tão gelada que os dedos mudavam de cor e as unhas perdiam um pouco a rigidez, mas já disse que não há muita coerência nesse lugar. Não arrepiava, não doía ou incomodava de qualquer forma, só se notava a temperatura da água pelas mãos visivelmente alteradas, e isso sem nenhum motivo aparente era incrivelmente lindo.

Lá a procrastinação tinha lugar, e que amplo lugar. Mas não havia sensação de culpa por ter decepcionado a própria alma com desculpas, tantas desculpas... Havia coisas a fazer e elas eram feitas com calma, simples como são. E se demorava todos entendiam, afinal todo mundo adia tudo, não é?

A paz dessa ilusão toda não encontrava espaço em mim, e comecei a pisotear as flores numa ciranda frenética.

Voltei pra cá. Sufoquei.

30 setembro, 2009


Adão Iturrusgarai

19 setembro, 2009

Vaso perdido.

Abriu o envelope e leu o recado com aparente tranquilidade, apesar dos olhos que sempre trabalharam com a pressa de quem perde coisas só pelo piscar. A correspondência veio da França, era lá que seu único filho morava, segundo as últimas notícias. Agora não era mais, nada mais era realmente alguma coisa. Agora o pai tinha certeza de onde ele estaria e de que não sairia de lá.

Na loja de antiguidades do velho, o cachorro Tupi protegia de clientes inexistentes os objetos empoeirados. Lá fora o sol brilhava forte e invadia a única grande janela que havia no local. Uma luz claríssima aparecia com inocência absurda, como se o dia, afinal, não fosse uma coisa ruim. Então o velho achou que precisava se examinar no espelho por alguns minutos, ver se de fato ainda estava ali e entender o porquê, se seu filho quarenta e dois anos mais jovem já não estava.

O massacrante não era só a dor da falta. O massacrante era saber que, mesmo com esforços, a convivência entre os dois não era possível. Não há semelhanças entre um velho falido que se distrai com argila e um pouco de tinta e um jovem com roupas tão estranhas, olhos vermelhos de nunca se sabe exatamente o quê e brincos na cara.

Tupi já não se incomodava com o chute que levara do rapaz na última briga que pai e filho tiveram, quando tentavam mais uma vez conviver em paz. O que ficou, entretanto, foi um receio de se aproximar de pés humanos — mesmo de seu dono, que o socorreu prontamente com remédios caseiros após o golpe.

O homem subiu ao quarto que o filho ocupava vez em quando, depois de noitadas na rua e ausência de explicações. Decidiu abrir as cortinas e não resistir ao sol, que o atingiu imediatamente e, iluminando a mesa de cabeceira, fê-lo ver um de seus vasos que acreditava ter sumido há meses. Dentro do vaso havia fotos antigas do menino ainda bebê, do pai segurando suas mãos, da mãe. Havia bilhetes de escola feitos em datas comemorativas, amarelecidos pelo tempo.

Desceu as escadas, fez uma nova e grande placa para a loja, deu banho em seu cachorro e pegou o espanador, que era para tirar a poeira da vida.

15 setembro, 2009

Grandes coisas.

Num galpão pessoal recheado de tralhas, a gente se perde do que é realmente importante, quando sente que está tudo muito cheio. Quando a gente sabe que definitivamente, se está cheio. Trabalhos, tarefas, horários, conceitos, sentimentos que acha que sente e que na verdade são outras coisas, outras coisas inventadas porque um dia algum merdinha não importante sugeriu que aquilo de fato era. Tralhas.

O primeiro impulso é esvaziar todos os corredores, fazer aquela faxina e disponibilizar espaço suficiente para o que é bom, para o que vem de novo e que, aí sim, deve ser importante. Mas ser impulsivo nem sempre dá certo. Depois de conter essa fixação pela limpeza geral e impiedosa, o que invariavelmente acontece é uma observação detalhada de tudo o que tem dentro da gente. Aí sim. Aí sim você vê que o que gosta e valoriza de verdade, está junto com as tralhas. Não está num cantinho luminoso etiquetado com os pontos correspondentes que você fatura ao lhe dar os devidos crédito e atenção.

O que você gosta mesmo é aquela risada escandalosa e conhecida que vem do fundo do busão às 23h20, quando seu corpo não produz nada além de sono, fome e cansaço. É o desejo mais puro de um bom dia, vindo do dono da bomboniere em frente ao prédio, e as conversas divertidas que atrasam uns três ou cinco minutos o trabalho. São aqueles olhos que se vê semanalmente um tanto caidinhos na extremidade, e uns cílios que acompanham essa linha e dizem que nunca serão cílios de Emília.

Não chamo isso de “pequenas coisas”. Não acredito em pequenas coisas. O que é importante não é pequeno. Esse é só o adjetivo errado que aplicamos porque elas estão misturadas com tudo o que enche o saco, e que sempre parece muito maior do que é. O que enche a alma é mais discreto e se manifesta onde ninguém acha que tem algo de bom, justamente para que tenha.

13 agosto, 2009

Olhos secos como pedras, e duas mãos quebradas

A ligação termina. Ela larga o aparelho e vai logo tomar banho. Por sorte tinha conseguido estabelecer contato usando aquele celular imprestável e, de alguma forma, marcado o encontro. No último havia acontecido uma briga, é verdade, mas alguns acontecimentos de classificação indiscutivelmente “alfa” anulam os anteriores que há dois dias pareciam o sofrimento do universo. Enquanto esfrega no couro cabeludo um xampu verde, pensa em como é formada por fragmentos. Fragmentos das pessoas que a rodeiam, das coisas que decidiu gostar, das notícias que chegam por telefone e massacram o coração ou seja lá o que for que guarda nossas emoções.

Todas as pessoas se esforçam em ser profissionais completos, mães exemplares, em manter seus relacionamentos resolutamente impecáveis aos olhos dos outros. Mas são pessoas fragmentadas, como um velho quebra-cabeça incompleto. Formadas pelas músicas que ouvem, pelos autores incríveis e maravilhosos e geniais e endeusados que, curiosamente, enumeram em cinco páginas razões científicas para não acreditar em Deus, porque assim se sentem mais racionais. São formadas pela psicodelia que é jogar Super Mario World, onde um minidinossauro estica a língua e devora uma tartaruga voadora pra cuspir fogo depois, ou o Mário bate a cabeça em um tijolinho e ganha de lá um cogumelo que o faz crescer.

Ela, assim como todos os outros, no fim das contas mal contabilizadas, nunca conseguiu ser inteira. Nunca conseguiu conciliar responsabilidades e problemas. Ao contrário, foca toda a alma no ponto mais grave, que é pra satisfazer aquela sede humana pela dor. 

Veste-se de maneira desleixada em tons de cinza, passa o indicador, o médio e o anular pelos cabelos e sai. O dia está frio, o vento não perdoa as peles hidratadas com o melhor creme e muito menos aquelas limpas só com um sabonetinho medíocre de kit higiênico. A caminhada é longa, mas ela tem seu mp3 equipado estrategicamente com as músicas mais depressivas do mundo. Hoje sim. Ele aceitou marcar o encontro e então ela vai poder chorar sem limites, vai descarregar a angústia que carregou nesses três dias penosos dominados por um acontecimento ruim. Vai ter o famigerado ombro amigo.

Encontram-se numa praça vazia. Ela conta tudo com detalhes do ocorrido. Explica que quis sair um pouco de casa, onde seus familiares faziam exclamações alegres forjadas num esforço de provar que está tudo bem, que a tempestade já passou. Diz que não tinha para quem mais desabafar e então, nota que na verdade não tem como fazer isso. Lágrimas não são compartilhadas realmente, só mostradas numa ilusão de alívio. Não havia mais nada pra chorar. Era preciso garantir conforto por outros meios.

- Não solta a minha mão...


[Título: verso do poema Canção, de Cecília Meireles]

28 julho, 2009

De onde vem a calma.

Engraçado como tem coisas que pedem descrição. Ou vai ver que eu uso isso como desculpa, mesmo, para começar a escrever. Hoje na hora do almoço eu tinha uns trinta minutos livres e saí para andar um pouco, conhecer as ruas ao redor. Embora não tenha encontrado nada que me prendesse a atenção (nos comércios), foi bom sentir o cheiro da rua — ainda que a rua cheire sempre a uma cidade doida que não pára. Veja só onde é que eu fui tentar acalmar a minha cabeça.

Reparei que algumas árvores não se contentam com o espaço que lhes é dado, e com muita razão: cimento nunca foi chão adequado para árvore. Então elas fecham as mãos, aquelas raízes que parecem mãos forçando o obstáculo urbano e formando relevos pela calçada. Mostrando que não estão nem aí para a frente toda cheia de vidros e brilhos e rotina plástica dos prédios comerciais. Ainda bem. Ainda bem que pelo menos as árvores têm coragem de expressar esses gritos de insatisfação.

O dia é um daqueles que você pode andar só de camiseta ou com um casaco, que não vai se sentir incomodado por algum exagero climático. O céu, uniforme. De uma cor que não chega a ser cinza, mas que vai dormir ensaiando um azul tímido, tenho certeza. Já reparou como venta nesses dias e o chão fica cheio de minifolhinhas? O mais engraçado é elas não se contentarem em colorir o chão e decidirem se acomodar, então, no cabelo de algumas pessoas.

Às vezes eu me limito a olhar pela janela aqui do prédio, sem ir à rua. Hoje eu teria feito isso mais uma vez, já que não tinha o consolo de pensar que “pelo menos está um dia bonito de sol”. Mas sabe, é bem melhor descer e ver que o dia está lindo sim, porque afinal nossos olhos e nosso corpo podem captar tudo ao redor, e tudo é tanta coisa e tanta gente tentando viver, que se eu disser não haver nada interessante dentro de mim e fora daqui é quase blasfêmia.

O meu coração ficou leve, porque eu quis pensar em coisas que o fizessem ficar, e porque eu não pensei em todas as outras que “ainda vão dar certo” ou que “eu ainda tenho que terminar”. Eu não pensei em planos. Nem em ontens.

Eu queria te passar essa calma, ainda que ela provavelmente seja passageira. Queria te passar a força que tanto falam para eu te dar e que eu ainda não sei onde comprar. Queria te proporcionar um daqueles momentos em que a gente tem certeza do que é felicidade. Mas eu não sou suficiente.

Eu pensei então em dizer que te amo, te comprar umas flores e jogar umas minifolhas no seu cabelo.

09 julho, 2009

Querido Victor,

Como você está? Espero que bem. Recebi os cartões-postais que você me enviou; são de fato lugares muito bonitos. Mas confesso que estou preocupada por não receber cartas com notícias reais suas, e os cartões são de, no mínimo, um mês atrás. Desculpe se ultimamente ando rabugenta neste sentido, mas é que as pessoas colocam coisas na minha cabeça, dizem que você não está nem aí e que não volta. Eu não acredito nelas e sei que tudo deve estar muito corrido por aí, ou que você está meio sumido por motivos muito fortes. Bom, vamos esquecer isso, está bem?


Hoje lá no orfanato uma das crianças me perguntou coisas que não condizem com a idade dela. Mais tarde pensei que, na verdade, não condizem é com a minha, pois eu corei enquanto a garotinha desinibida esperava resposta. Preciso me atualizar. As matérias dominadas pelos pequenos aumentaram. Às vezes penso que lidaria melhor com eles se tivesse um filho. Quero dizer, no passado, é claro. Mas logo percebo que a experiência com os órfãos me acrescenta até mais do que teria com um filho apenas. Foi mesmo ótima essa ideia de assumir a direção do orfanato. Algumas crianças (as mais grandinhas) perguntam por você e sentem sua falta. Eu as distraio e aproveito para fazer o mesmo por mim.

Já reparou como cheiros lembram pessoas e coisas? Ontem eu e a Nilza fizemos um bolo de laranja e quando o forno foi aberto lembrei de cenas que não me ocorriam há muito: minha mãe vestindo suas luvinhas coloridas depois de tomar o chá da tarde com bolo... Ela tinha verdadeira mania por luvas. Lembrei também da vizinha moça que eu imitava quando pequena, toda educada e suave, andando sempre na ponta dos pés. Eram tardes com o mesmo cheiro de bolo me esperando no forno, enquanto eu me perdia nos detalhes. Ainda hoje é assim.

Bem, conforme combinamos, escrevi "o que sai do coração", como você diz.
Espero ansiosamente suas cartas.

Com carinho,
Branca.

20 junho, 2009

Querido Victor,

Hoje o dia está gelado, branco daquela brancura própria dos invernos rigorosos: aqueles que parecem o patrão nervoso soprando palavras ásperas e enchendo d’água nossos olhos. Apesar do clima, venci a preguiça e fui caminhar num parque recém inaugurado aqui perto de casa, tem um ótimo espaço pra caminhadas. Muitas pessoas correm lá também. Sabe, eu voltei cedo... Eu me senti meio ridícula perto daquela gente tão disposta, de pele viçosa, querendo desesperadamente viver. Estou com sardas no peito e um pouquinho no pescoço (digo sardas, mas acho que são manchas de velhice)... Ah, Victor, estou ficando velha, e sozinha esse processo parece ainda mais complicado.

Adotei um gatinho recentemente, seu nome é Nescau e ele, à sua maneira de gato, me faz companhia. Sabe, é estranho achar isso e te dizer também, mas às vezes ele parece mais inteligente que eu e até que qualquer ser humano. Nunca vi bicho com um olhar tão intenso, tão absorto, tão capaz de ver coisas que nós parecemos não ver. Eu nunca entendi essa estranheza no olhar dos gatos.

Olha só, até agora só te bombardeei com minhas idéias malucas. É que faltam assuntos sem você aqui. Bom, vou parar com os lamentos e fazer um chá pra me aquecer, que o Nescau está enrolado no meu cobertor. Volte logo e não se esqueça de me avisar a data e o horário; eu te encontro na estação.

Com carinho,
Branca.

14 abril, 2009

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa:
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser papa.

A flor baixa, se inculca por tulipa:
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo; porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Gregório de Matos

09 abril, 2009

Limites

Sento no chão e faço o que me resta, que é, como todas as outras pessoas que não fogem ao lugar-comum porque não conhecem imensidão maior, olhar para esse céu violentamente claro que não respeita nossos olhos. Meu cachorro velho e de orelhas feridas coloca sua cabeça pesada no meu colo e cheira minha mão, como se o meu carinho fosse o que realmente vale a pena nessa vida pulguenta.

Prefiro a fugacidade dessas coisas que não marcam hora nem exigem pagamentos ou enumeram razões de ser. As demais já estão tão cheias da própria existência e ocupam tanto a minha, que deixaram de importar efetivamente; os relacionamentos superintensos que exigem mais do que eu disponibilizo, os prazos que fingem determinar a minha competência e, principalmente, as minhas necessidades que ao olhar mais de perto nem foram expressas por mim.

Então a gente faz um desenho na canela com caneta bic ou faz bombons fadados ao fracasso já que o chocolate queimou e não derreteu totalmente ou, ainda, arrisca tocar uma música em algum instrumento velho que nem sabe manejar direito. E o pior é que, juntando os cacos de todos esses escapes, a gente nota que não saiu do lugar e que nem fugir bem fugiu, porque todas as outras coisas que limitam e inibem estão na sala ao lado, nos dando um tempinho cronometrado para gastar com ilusões doces.

27 março, 2009

O que fica são as pequenas declarações não feitas, o sutil jeito de me desvencilhar, a discrição e os limites em elogiar.
E essas coisinhas são, resumidamente, tudo o que acaba machucando.

16 março, 2009

— Eu queria propor-lhe uma troca de idéias...
— Deus me livre!

Mário Quintana

22 fevereiro, 2009

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial! Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que, daqui para diante, vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade