14 abril, 2009

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa:
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser papa.

A flor baixa, se inculca por tulipa:
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo; porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Gregório de Matos

09 abril, 2009

Limites

Sento no chão e faço o que me resta, que é, como todas as outras pessoas que não fogem ao lugar-comum porque não conhecem imensidão maior, olhar para esse céu violentamente claro que não respeita nossos olhos. Meu cachorro velho e de orelhas feridas coloca sua cabeça pesada no meu colo e cheira minha mão, como se o meu carinho fosse o que realmente vale a pena nessa vida pulguenta.

Prefiro a fugacidade dessas coisas que não marcam hora nem exigem pagamentos ou enumeram razões de ser. As demais já estão tão cheias da própria existência e ocupam tanto a minha, que deixaram de importar efetivamente; os relacionamentos superintensos que exigem mais do que eu disponibilizo, os prazos que fingem determinar a minha competência e, principalmente, as minhas necessidades que ao olhar mais de perto nem foram expressas por mim.

Então a gente faz um desenho na canela com caneta bic ou faz bombons fadados ao fracasso já que o chocolate queimou e não derreteu totalmente ou, ainda, arrisca tocar uma música em algum instrumento velho que nem sabe manejar direito. E o pior é que, juntando os cacos de todos esses escapes, a gente nota que não saiu do lugar e que nem fugir bem fugiu, porque todas as outras coisas que limitam e inibem estão na sala ao lado, nos dando um tempinho cronometrado para gastar com ilusões doces.