20 junho, 2009

Querido Victor,

Hoje o dia está gelado, branco daquela brancura própria dos invernos rigorosos: aqueles que parecem o patrão nervoso soprando palavras ásperas e enchendo d’água nossos olhos. Apesar do clima, venci a preguiça e fui caminhar num parque recém inaugurado aqui perto de casa, tem um ótimo espaço pra caminhadas. Muitas pessoas correm lá também. Sabe, eu voltei cedo... Eu me senti meio ridícula perto daquela gente tão disposta, de pele viçosa, querendo desesperadamente viver. Estou com sardas no peito e um pouquinho no pescoço (digo sardas, mas acho que são manchas de velhice)... Ah, Victor, estou ficando velha, e sozinha esse processo parece ainda mais complicado.

Adotei um gatinho recentemente, seu nome é Nescau e ele, à sua maneira de gato, me faz companhia. Sabe, é estranho achar isso e te dizer também, mas às vezes ele parece mais inteligente que eu e até que qualquer ser humano. Nunca vi bicho com um olhar tão intenso, tão absorto, tão capaz de ver coisas que nós parecemos não ver. Eu nunca entendi essa estranheza no olhar dos gatos.

Olha só, até agora só te bombardeei com minhas idéias malucas. É que faltam assuntos sem você aqui. Bom, vou parar com os lamentos e fazer um chá pra me aquecer, que o Nescau está enrolado no meu cobertor. Volte logo e não se esqueça de me avisar a data e o horário; eu te encontro na estação.

Com carinho,
Branca.