28 julho, 2009

De onde vem a calma.

Engraçado como tem coisas que pedem descrição. Ou vai ver que eu uso isso como desculpa, mesmo, para começar a escrever. Hoje na hora do almoço eu tinha uns trinta minutos livres e saí para andar um pouco, conhecer as ruas ao redor. Embora não tenha encontrado nada que me prendesse a atenção (nos comércios), foi bom sentir o cheiro da rua — ainda que a rua cheire sempre a uma cidade doida que não pára. Veja só onde é que eu fui tentar acalmar a minha cabeça.

Reparei que algumas árvores não se contentam com o espaço que lhes é dado, e com muita razão: cimento nunca foi chão adequado para árvore. Então elas fecham as mãos, aquelas raízes que parecem mãos forçando o obstáculo urbano e formando relevos pela calçada. Mostrando que não estão nem aí para a frente toda cheia de vidros e brilhos e rotina plástica dos prédios comerciais. Ainda bem. Ainda bem que pelo menos as árvores têm coragem de expressar esses gritos de insatisfação.

O dia é um daqueles que você pode andar só de camiseta ou com um casaco, que não vai se sentir incomodado por algum exagero climático. O céu, uniforme. De uma cor que não chega a ser cinza, mas que vai dormir ensaiando um azul tímido, tenho certeza. Já reparou como venta nesses dias e o chão fica cheio de minifolhinhas? O mais engraçado é elas não se contentarem em colorir o chão e decidirem se acomodar, então, no cabelo de algumas pessoas.

Às vezes eu me limito a olhar pela janela aqui do prédio, sem ir à rua. Hoje eu teria feito isso mais uma vez, já que não tinha o consolo de pensar que “pelo menos está um dia bonito de sol”. Mas sabe, é bem melhor descer e ver que o dia está lindo sim, porque afinal nossos olhos e nosso corpo podem captar tudo ao redor, e tudo é tanta coisa e tanta gente tentando viver, que se eu disser não haver nada interessante dentro de mim e fora daqui é quase blasfêmia.

O meu coração ficou leve, porque eu quis pensar em coisas que o fizessem ficar, e porque eu não pensei em todas as outras que “ainda vão dar certo” ou que “eu ainda tenho que terminar”. Eu não pensei em planos. Nem em ontens.

Eu queria te passar essa calma, ainda que ela provavelmente seja passageira. Queria te passar a força que tanto falam para eu te dar e que eu ainda não sei onde comprar. Queria te proporcionar um daqueles momentos em que a gente tem certeza do que é felicidade. Mas eu não sou suficiente.

Eu pensei então em dizer que te amo, te comprar umas flores e jogar umas minifolhas no seu cabelo.

09 julho, 2009

Querido Victor,

Como você está? Espero que bem. Recebi os cartões-postais que você me enviou; são de fato lugares muito bonitos. Mas confesso que estou preocupada por não receber cartas com notícias reais suas, e os cartões são de, no mínimo, um mês atrás. Desculpe se ultimamente ando rabugenta neste sentido, mas é que as pessoas colocam coisas na minha cabeça, dizem que você não está nem aí e que não volta. Eu não acredito nelas e sei que tudo deve estar muito corrido por aí, ou que você está meio sumido por motivos muito fortes. Bom, vamos esquecer isso, está bem?


Hoje lá no orfanato uma das crianças me perguntou coisas que não condizem com a idade dela. Mais tarde pensei que, na verdade, não condizem é com a minha, pois eu corei enquanto a garotinha desinibida esperava resposta. Preciso me atualizar. As matérias dominadas pelos pequenos aumentaram. Às vezes penso que lidaria melhor com eles se tivesse um filho. Quero dizer, no passado, é claro. Mas logo percebo que a experiência com os órfãos me acrescenta até mais do que teria com um filho apenas. Foi mesmo ótima essa ideia de assumir a direção do orfanato. Algumas crianças (as mais grandinhas) perguntam por você e sentem sua falta. Eu as distraio e aproveito para fazer o mesmo por mim.

Já reparou como cheiros lembram pessoas e coisas? Ontem eu e a Nilza fizemos um bolo de laranja e quando o forno foi aberto lembrei de cenas que não me ocorriam há muito: minha mãe vestindo suas luvinhas coloridas depois de tomar o chá da tarde com bolo... Ela tinha verdadeira mania por luvas. Lembrei também da vizinha moça que eu imitava quando pequena, toda educada e suave, andando sempre na ponta dos pés. Eram tardes com o mesmo cheiro de bolo me esperando no forno, enquanto eu me perdia nos detalhes. Ainda hoje é assim.

Bem, conforme combinamos, escrevi "o que sai do coração", como você diz.
Espero ansiosamente suas cartas.

Com carinho,
Branca.