13 agosto, 2009

Olhos secos como pedras, e duas mãos quebradas

A ligação termina. Ela larga o aparelho e vai logo tomar banho. Por sorte tinha conseguido estabelecer contato usando aquele celular imprestável e, de alguma forma, marcado o encontro. No último havia acontecido uma briga, é verdade, mas alguns acontecimentos de classificação indiscutivelmente “alfa” anulam os anteriores que há dois dias pareciam o sofrimento do universo. Enquanto esfrega no couro cabeludo um xampu verde, pensa em como é formada por fragmentos. Fragmentos das pessoas que a rodeiam, das coisas que decidiu gostar, das notícias que chegam por telefone e massacram o coração ou seja lá o que for que guarda nossas emoções.

Todas as pessoas se esforçam em ser profissionais completos, mães exemplares, em manter seus relacionamentos resolutamente impecáveis aos olhos dos outros. Mas são pessoas fragmentadas, como um velho quebra-cabeça incompleto. Formadas pelas músicas que ouvem, pelos autores incríveis e maravilhosos e geniais e endeusados que, curiosamente, enumeram em cinco páginas razões científicas para não acreditar em Deus, porque assim se sentem mais racionais. São formadas pela psicodelia que é jogar Super Mario World, onde um minidinossauro estica a língua e devora uma tartaruga voadora pra cuspir fogo depois, ou o Mário bate a cabeça em um tijolinho e ganha de lá um cogumelo que o faz crescer.

Ela, assim como todos os outros, no fim das contas mal contabilizadas, nunca conseguiu ser inteira. Nunca conseguiu conciliar responsabilidades e problemas. Ao contrário, foca toda a alma no ponto mais grave, que é pra satisfazer aquela sede humana pela dor. 

Veste-se de maneira desleixada em tons de cinza, passa o indicador, o médio e o anular pelos cabelos e sai. O dia está frio, o vento não perdoa as peles hidratadas com o melhor creme e muito menos aquelas limpas só com um sabonetinho medíocre de kit higiênico. A caminhada é longa, mas ela tem seu mp3 equipado estrategicamente com as músicas mais depressivas do mundo. Hoje sim. Ele aceitou marcar o encontro e então ela vai poder chorar sem limites, vai descarregar a angústia que carregou nesses três dias penosos dominados por um acontecimento ruim. Vai ter o famigerado ombro amigo.

Encontram-se numa praça vazia. Ela conta tudo com detalhes do ocorrido. Explica que quis sair um pouco de casa, onde seus familiares faziam exclamações alegres forjadas num esforço de provar que está tudo bem, que a tempestade já passou. Diz que não tinha para quem mais desabafar e então, nota que na verdade não tem como fazer isso. Lágrimas não são compartilhadas realmente, só mostradas numa ilusão de alívio. Não havia mais nada pra chorar. Era preciso garantir conforto por outros meios.

- Não solta a minha mão...


[Título: verso do poema Canção, de Cecília Meireles]