30 setembro, 2009


Adão Iturrusgarai

19 setembro, 2009

Vaso perdido.

Abriu o envelope e leu o recado com aparente tranquilidade, apesar dos olhos que sempre trabalharam com a pressa de quem perde coisas só pelo piscar. A correspondência veio da França, era lá que seu único filho morava, segundo as últimas notícias. Agora não era mais, nada mais era realmente alguma coisa. Agora o pai tinha certeza de onde ele estaria e de que não sairia de lá.

Na loja de antiguidades do velho, o cachorro Tupi protegia de clientes inexistentes os objetos empoeirados. Lá fora o sol brilhava forte e invadia a única grande janela que havia no local. Uma luz claríssima aparecia com inocência absurda, como se o dia, afinal, não fosse uma coisa ruim. Então o velho achou que precisava se examinar no espelho por alguns minutos, ver se de fato ainda estava ali e entender o porquê, se seu filho quarenta e dois anos mais jovem já não estava.

O massacrante não era só a dor da falta. O massacrante era saber que, mesmo com esforços, a convivência entre os dois não era possível. Não há semelhanças entre um velho falido que se distrai com argila e um pouco de tinta e um jovem com roupas tão estranhas, olhos vermelhos de nunca se sabe exatamente o quê e brincos na cara.

Tupi já não se incomodava com o chute que levara do rapaz na última briga que pai e filho tiveram, quando tentavam mais uma vez conviver em paz. O que ficou, entretanto, foi um receio de se aproximar de pés humanos — mesmo de seu dono, que o socorreu prontamente com remédios caseiros após o golpe.

O homem subiu ao quarto que o filho ocupava vez em quando, depois de noitadas na rua e ausência de explicações. Decidiu abrir as cortinas e não resistir ao sol, que o atingiu imediatamente e, iluminando a mesa de cabeceira, fê-lo ver um de seus vasos que acreditava ter sumido há meses. Dentro do vaso havia fotos antigas do menino ainda bebê, do pai segurando suas mãos, da mãe. Havia bilhetes de escola feitos em datas comemorativas, amarelecidos pelo tempo.

Desceu as escadas, fez uma nova e grande placa para a loja, deu banho em seu cachorro e pegou o espanador, que era para tirar a poeira da vida.

15 setembro, 2009

Grandes coisas.

Num galpão pessoal recheado de tralhas, a gente se perde do que é realmente importante, quando sente que está tudo muito cheio. Quando a gente sabe que definitivamente, se está cheio. Trabalhos, tarefas, horários, conceitos, sentimentos que acha que sente e que na verdade são outras coisas, outras coisas inventadas porque um dia algum merdinha não importante sugeriu que aquilo de fato era. Tralhas.

O primeiro impulso é esvaziar todos os corredores, fazer aquela faxina e disponibilizar espaço suficiente para o que é bom, para o que vem de novo e que, aí sim, deve ser importante. Mas ser impulsivo nem sempre dá certo. Depois de conter essa fixação pela limpeza geral e impiedosa, o que invariavelmente acontece é uma observação detalhada de tudo o que tem dentro da gente. Aí sim. Aí sim você vê que o que gosta e valoriza de verdade, está junto com as tralhas. Não está num cantinho luminoso etiquetado com os pontos correspondentes que você fatura ao lhe dar os devidos crédito e atenção.

O que você gosta mesmo é aquela risada escandalosa e conhecida que vem do fundo do busão às 23h20, quando seu corpo não produz nada além de sono, fome e cansaço. É o desejo mais puro de um bom dia, vindo do dono da bomboniere em frente ao prédio, e as conversas divertidas que atrasam uns três ou cinco minutos o trabalho. São aqueles olhos que se vê semanalmente um tanto caidinhos na extremidade, e uns cílios que acompanham essa linha e dizem que nunca serão cílios de Emília.

Não chamo isso de “pequenas coisas”. Não acredito em pequenas coisas. O que é importante não é pequeno. Esse é só o adjetivo errado que aplicamos porque elas estão misturadas com tudo o que enche o saco, e que sempre parece muito maior do que é. O que enche a alma é mais discreto e se manifesta onde ninguém acha que tem algo de bom, justamente para que tenha.