16 novembro, 2009

Ameno.

Outro dia vislumbrei flores debaixo dos meus pés, um ar rarefeito que não tinha mil cheiros nem sufocava, e um tempo sem dor. Asfalto não era sinônimo de cidade, ou terra de campo, as coisas só eram. E eram boas. As pessoas não pareciam muito sensitivas, andavam como que anestesiadas, mas isso não é tão ruim, é? Diz se isso seria tão ruim. Se as reclamações independem da situação que se vive, então não há problema real nessa ausência de percepção do mundo. When you got nothing, you got nothing to lose.

Imagina só, todas as casas tinham cortininhas de renda na janela, e pessoas esperavam pessoas nelas. Não posso mentir, isso acontecia em todas as casas, todos os dias. Acontecia com a mesma naturalidade com que se come uma maçã, não era uma linda cena de filme, entende? Era comum e bom.

Eu abri os braços e toquei na água provavelmente gelada de uma fonte bem grande na praça central, tão gelada que os dedos mudavam de cor e as unhas perdiam um pouco a rigidez, mas já disse que não há muita coerência nesse lugar. Não arrepiava, não doía ou incomodava de qualquer forma, só se notava a temperatura da água pelas mãos visivelmente alteradas, e isso sem nenhum motivo aparente era incrivelmente lindo.

Lá a procrastinação tinha lugar, e que amplo lugar. Mas não havia sensação de culpa por ter decepcionado a própria alma com desculpas, tantas desculpas... Havia coisas a fazer e elas eram feitas com calma, simples como são. E se demorava todos entendiam, afinal todo mundo adia tudo, não é?

A paz dessa ilusão toda não encontrava espaço em mim, e comecei a pisotear as flores numa ciranda frenética.

Voltei pra cá. Sufoquei.