27 dezembro, 2010

Terras férteis

As flores não têm mesmo muita certeza de seu destino depois de serem arrancadas; nunca se sabe para que vaso vão, isso se forem colocadas em um. Há as que adormecem silenciosamente em cima da terra ou embaixo dela, nas mãos rijas e sem cor de um corpo inerte. Há as que são enroladas em um papel celofane ordinário que lhes esconde a graça de cada espinho, cada folha ou resto de terra. Lá no alto pairando, só as cabeças que procuram o ar, enquanto o corpo envolto nos papéis e plásticos sufoca. Esse ultraje é chamado de buquê – ou bouquet quando se quer, usando a forma francesa da palavra, eufemizar o ato fatal.

As pessoas não têm mesmo muita certeza de seu destino depois de nascerem, nunca se sabe a que família pertencerão, isso se de fato pertencerem a uma. Há as que convivem melhor longe de familiares ou perto fisicamente deles, mas com o coração distante. Há as que são privadas de um meio social satisfatório e nem sabem que outras pessoas podem fazer escolhas dentro dele. Nas ruas vagando, só o corpo cansado de quem ainda acredita ser preciso viver, enquanto a mente vai longe. Isso se chama abandono – ou miséria humana quando se quer, usando a forma crua da palavra, enfatizar o erro brutal.

20 novembro, 2010

Memorial do Convento, de José Saramago.


A Passarola.
Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. 
Era uma vez a gente que construiu esse convento. 
Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. 
Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. 
Era uma vez.

18 outubro, 2010

distraindo a verdade, enganando o coração.

Engraçado o que falta de comunicação e expressividade fazem. Você enxerga um problema, sofre por ele e resolve tirá-lo a limpo com a pessoa envolvida, a fim de definir quais providências serão tomadas.

Então você lança a bola, dessa vez exigindo retorno. E você consegue. Ela volta. Mas volta cinco vezes mais pesada. E com o desenrolar do jogo, com as justificativas e razões e mágoas sendo expostas, o problema inicial some; torna-se egoísta e medíocre e dá lugar a um outro de proporções preocupantes. Essa é a raiz.

Passa pela cabeça toda aquela história de por que não soube de tudo antes, por que ramificaçõezinhas do problema não denunciaram o gigante a que serviam. Ou simplesmente porque a pessoa que o carregava não se dispôs a expressar sua existência. E ocorre também a ciência de que tudo já era sabido, sim, mas mascarado e remediado a cada dor pungente. Dor de uma existência invisível.

01 outubro, 2010

desconcerto.

9h10 da manhã, passageiros com sono, o céu cinza-claro pelas janelas do metrô.
Eu atrasada, pensando no que fazer sobre mil assuntos diferentes, olhando pro chão.
Ele com blusa de lã, cabelos brancos, pele enrugada cheia de veiazinhas azuis e olhos úmidos...
E assobiando afinado, de um jeito tão triste e lindo que me deu vontade de chorar.

28 julho, 2010

18 de março

"Ele estava com um livro na mão mas não lia, olhava em frente, quieto. Perguntei o que ele estava olhando. "Estou olhando aqui dentro de mim mesmo" - ele respondeu. E o que você está vendo é bonito? - eu quis saber e seus grandes olhos esverdeados estavam úmidos e neles, como num espelho, vi refletido o seu interior. Fui saindo na ponta dos pés."

Lygia Fagundes Telles - A disciplina do amor

16 abril, 2010

Nossos campos têm mais flores

"Nunca senti a vida monótona, nem mesmo quando frequentava a escolinha de freiras dirigida por Madre Mônica. Todas se vestiam igual, os chapelões engomados com a mesma proa dos veleiros, as almôndegas com o mesmo gosto dos quiabos. E que variedade! As poesias que a gente devia decorar para as festas também eram sempre as mesmas, versos que dizem que nosso céu tem mais estrelas, nossa vida, mais amores. E os campos. Não menciona nossas ruas, especialmente essa Rua Barão de Itapetininga (um brasileiro ilustre) onde roubaram minha carteira e meus documentos. Entro na fila infinita da papelada e a fila avança num silêncio tão conformado que chega a ser inquietante. Uma virtude raríssima se desenvolve no nosso povo afeito a esse tipo de mecanismo que faz parte do sistema, virtude modesta como uma flor miúda que ninguém plantou e à qual ninguém dá atenção: a paciência. Vejo as caras concentradas das pessoas que já vieram ontem e terão que voltar amanhã e penso que o paulistano é antes de tudo um forte. Mas cansa."

Lygia Fagundes Telles — A disciplina do amor 

02 março, 2010

Não fique na região das portas.

— Olha, o cenário é típico. Não, não. Sem flores no chão. Também não quero fitas coloridas.  É só um metrô, ok?


Ao fundo do vagão há um grupo de adolescentes com os pés estirados em cima dos bancos. Boa parte deles tem piercings: no nariz, boca, língua, orelha, sobrancelhas, dentes, pálpebras, olhos... Tão cheios de sua beleza e fôlego que não cabem neles próprios. Que transbordam. Sentem-se exatamente como deveriam se sentir, ainda que o mundo esteja explodindo sob seus olhos.

Todavia, esse grito de tanta juventude não atinge a todos. Há o trabalhador de unhas escuras e mãos acostumadas às máquinas e ao silêncio inspecionador delas. Ele olha para a frente segurando firme sua mochila. Neste mundo atual há de se proteger a todo custo nossos bens, ainda que de ameaças não visíveis! (Alguém precisa avisá-lo que o que nos é tirado não é exatamente aquilo que tocamos.)

Parecendo interromper o efeito estagnado dos passageiros, uma senhora negra faz crochê. As mãos dela são da mesma cor da linha que utiliza. A latente miopia e o balançar do veículo só me deixam acompanhar os movimentos pela palma de sua mão ágil enveredando a agulha pela peça. A disciplina do movimento robótico permitiria que ela estivesse vendada, ou que, melhor! Que aproveitasse para ver tudo o que sobrou de interessante ao seu redor. Mas não. Os olhos atrás das grossas lentes se mantêm fixos no trabalho, e eu penso que aquela toalhinha parece estar saindo da mão dela, que é uma cor inimitável...

O show termina e as cortinas não se fecham. Nós ficamos ali como uma velha piada de mau gosto, daquelas que deixam o clima pesado bem além do final. Mal contada.

21 janeiro, 2010

Noz

Quatro vezes bateu na pedra, quatro vezes nada. Conseguira uma rachadura em algumas cascas, um encardido nas mãos e certa irritação.
— Não abre! Que fruta estúpida.
— Deixa de dizer besteira, noz não é fruta. Passa isso pra cá! — A mais velha recolheu a sacola da irmã com gestos de quem segura um bebê, a acomodou no regaço e foi sentar-se perto das roseiras.
— Você acha que a mãe aguenta, Ceci? Quer dizer... Essa doença estranha?
— Você é que devia se preparar para aguentar toda essa farsa descabida.
Clara desviou o olhar. Por que falava assim? Então não perdoara a mãe ainda? Um mal estar em juntar essas duas palavras na mesma frase, caramba... Perdão e mãe. Mas mãe é um ser tão sagrado! Pelo menos é o que a vó sempre fala, né.
— Escuta... Não embirra, Clarinha, não faz essa cara. Você é nova para entender o que ela fez com a gente, mas é capaz de perceber que isso não se faz com a família, não é? Isso de abandonar e voltar como se a gente não sentisse as coisas. Está me escutando? Limpa esse vestido, senta aí de novo, mania que você tem de ficar fazendo coisas enquanto a gente fala. Parece que ela quer trocar de papel e ser a coitadinha bêbada, é isso que parece. Ela é a mãe, presta atenção nisso, a gente não tem que ficar aguentando as farras dela.
— Ela não vai pra farra. Ela tá arrependida.
— É mesmo? Arrependimento não salva o mundo, Clara. Ações salvam. Você acredita no que quiser, eu fico esperando uma ação.
— Mas ela tá doente.
— Chega desse assunto, sim? Já basta de aborrecimentos. E para quê você quer tanta noz se não gosta? Com essas suas ideias eu já quebrei várias e mal percebi — Cecília disse e fez um muxoxo. Difícil perdoar. Tantas brigas! E como aquilo fazia mal, como fazia... As pessoas se afastando. Os laços familiares naturalmente frágeis rasgando. Rasgando.
— A mãe gosta.
— O quê?
— Ela gosta muito de nozes. — A pequena desistira de lutar contra o ressentimento da irmã. Esquecer o que é ruim, amar e só. "Amar e só", disse e entrou em casa limpando as mãos encardidas no vestido.
Cecília lá ficou até o entardecer. Quebrando nozes.