21 janeiro, 2010

Noz

Quatro vezes bateu na pedra, quatro vezes nada. Conseguira uma rachadura em algumas cascas, um encardido nas mãos e certa irritação.
— Não abre! Que fruta estúpida.
— Deixa de dizer besteira, noz não é fruta. Passa isso pra cá! — A mais velha recolheu a sacola da irmã com gestos de quem segura um bebê, a acomodou no regaço e foi sentar-se perto das roseiras.
— Você acha que a mãe aguenta, Ceci? Quer dizer... Essa doença estranha?
— Você é que devia se preparar para aguentar toda essa farsa descabida.
Clara desviou o olhar. Por que falava assim? Então não perdoara a mãe ainda? Um mal estar em juntar essas duas palavras na mesma frase, caramba... Perdão e mãe. Mas mãe é um ser tão sagrado! Pelo menos é o que a vó sempre fala, né.
— Escuta... Não embirra, Clarinha, não faz essa cara. Você é nova para entender o que ela fez com a gente, mas é capaz de perceber que isso não se faz com a família, não é? Isso de abandonar e voltar como se a gente não sentisse as coisas. Está me escutando? Limpa esse vestido, senta aí de novo, mania que você tem de ficar fazendo coisas enquanto a gente fala. Parece que ela quer trocar de papel e ser a coitadinha bêbada, é isso que parece. Ela é a mãe, presta atenção nisso, a gente não tem que ficar aguentando as farras dela.
— Ela não vai pra farra. Ela tá arrependida.
— É mesmo? Arrependimento não salva o mundo, Clara. Ações salvam. Você acredita no que quiser, eu fico esperando uma ação.
— Mas ela tá doente.
— Chega desse assunto, sim? Já basta de aborrecimentos. E para quê você quer tanta noz se não gosta? Com essas suas ideias eu já quebrei várias e mal percebi — Cecília disse e fez um muxoxo. Difícil perdoar. Tantas brigas! E como aquilo fazia mal, como fazia... As pessoas se afastando. Os laços familiares naturalmente frágeis rasgando. Rasgando.
— A mãe gosta.
— O quê?
— Ela gosta muito de nozes. — A pequena desistira de lutar contra o ressentimento da irmã. Esquecer o que é ruim, amar e só. "Amar e só", disse e entrou em casa limpando as mãos encardidas no vestido.
Cecília lá ficou até o entardecer. Quebrando nozes.