02 março, 2010

Não fique na região das portas.

— Olha, o cenário é típico. Não, não. Sem flores no chão. Também não quero fitas coloridas.  É só um metrô, ok?


Ao fundo do vagão há um grupo de adolescentes com os pés estirados em cima dos bancos. Boa parte deles tem piercings: no nariz, boca, língua, orelha, sobrancelhas, dentes, pálpebras, olhos... Tão cheios de sua beleza e fôlego que não cabem neles próprios. Que transbordam. Sentem-se exatamente como deveriam se sentir, ainda que o mundo esteja explodindo sob seus olhos.

Todavia, esse grito de tanta juventude não atinge a todos. Há o trabalhador de unhas escuras e mãos acostumadas às máquinas e ao silêncio inspecionador delas. Ele olha para a frente segurando firme sua mochila. Neste mundo atual há de se proteger a todo custo nossos bens, ainda que de ameaças não visíveis! (Alguém precisa avisá-lo que o que nos é tirado não é exatamente aquilo que tocamos.)

Parecendo interromper o efeito estagnado dos passageiros, uma senhora negra faz crochê. As mãos dela são da mesma cor da linha que utiliza. A latente miopia e o balançar do veículo só me deixam acompanhar os movimentos pela palma de sua mão ágil enveredando a agulha pela peça. A disciplina do movimento robótico permitiria que ela estivesse vendada, ou que, melhor! Que aproveitasse para ver tudo o que sobrou de interessante ao seu redor. Mas não. Os olhos atrás das grossas lentes se mantêm fixos no trabalho, e eu penso que aquela toalhinha parece estar saindo da mão dela, que é uma cor inimitável...

O show termina e as cortinas não se fecham. Nós ficamos ali como uma velha piada de mau gosto, daquelas que deixam o clima pesado bem além do final. Mal contada.