16 abril, 2010

Nossos campos têm mais flores

"Nunca senti a vida monótona, nem mesmo quando frequentava a escolinha de freiras dirigida por Madre Mônica. Todas se vestiam igual, os chapelões engomados com a mesma proa dos veleiros, as almôndegas com o mesmo gosto dos quiabos. E que variedade! As poesias que a gente devia decorar para as festas também eram sempre as mesmas, versos que dizem que nosso céu tem mais estrelas, nossa vida, mais amores. E os campos. Não menciona nossas ruas, especialmente essa Rua Barão de Itapetininga (um brasileiro ilustre) onde roubaram minha carteira e meus documentos. Entro na fila infinita da papelada e a fila avança num silêncio tão conformado que chega a ser inquietante. Uma virtude raríssima se desenvolve no nosso povo afeito a esse tipo de mecanismo que faz parte do sistema, virtude modesta como uma flor miúda que ninguém plantou e à qual ninguém dá atenção: a paciência. Vejo as caras concentradas das pessoas que já vieram ontem e terão que voltar amanhã e penso que o paulistano é antes de tudo um forte. Mas cansa."

Lygia Fagundes Telles — A disciplina do amor