27 dezembro, 2010

Terras férteis

As flores não têm mesmo muita certeza de seu destino depois de serem arrancadas; nunca se sabe para que vaso vão, isso se forem colocadas em um. Há as que adormecem silenciosamente em cima da terra ou embaixo dela, nas mãos rijas e sem cor de um corpo inerte. Há as que são enroladas em um papel celofane ordinário que lhes esconde a graça de cada espinho, cada folha ou resto de terra. Lá no alto pairando, só as cabeças que procuram o ar, enquanto o corpo envolto nos papéis e plásticos sufoca. Esse ultraje é chamado de buquê – ou bouquet quando se quer, usando a forma francesa da palavra, eufemizar o ato fatal.

As pessoas não têm mesmo muita certeza de seu destino depois de nascerem, nunca se sabe a que família pertencerão, isso se de fato pertencerem a uma. Há as que convivem melhor longe de familiares ou perto fisicamente deles, mas com o coração distante. Há as que são privadas de um meio social satisfatório e nem sabem que outras pessoas podem fazer escolhas dentro dele. Nas ruas vagando, só o corpo cansado de quem ainda acredita ser preciso viver, enquanto a mente vai longe. Isso se chama abandono – ou miséria humana quando se quer, usando a forma crua da palavra, enfatizar o erro brutal.