27 Dezembro, 2010

Terras férteis

As flores não têm mesmo muita certeza de seu destino depois de serem arrancadas; nunca se sabe para que vaso vão, isso se forem colocadas em um. Há as que adormecem silenciosamente em cima da terra ou embaixo dela, nas mãos rijas e sem cor de um corpo inerte. Há as que são enroladas em um papel celofane ordinário que lhes esconde a graça de cada espinho, cada folha ou resto de terra. Lá no alto pairando, só as cabeças que procuram o ar, enquanto o corpo envolto nos papéis e plásticos sufoca. Esse ultraje é chamado de buquê – ou bouquet quando se quer, usando a forma francesa da palavra, eufemizar o ato fatal.

As pessoas não têm mesmo muita certeza de seu destino depois de nascerem, nunca se sabe a que família pertencerão, isso se de fato pertencerem a uma. Há as que convivem melhor longe de familiares ou perto fisicamente deles, mas com o coração distante. Há as que são privadas de um meio social satisfatório e nem sabem que outras pessoas podem fazer escolhas dentro dele. Nas ruas vagando, só o corpo cansado de quem ainda acredita ser preciso viver, enquanto a mente vai longe. Isso se chama abandono – ou miséria humana quando se quer, usando a forma crua da palavra, enfatizar o erro brutal.

Um textinho sem vergonha de junho deste ano, (já) esquecido nos papéis. 

5 denúncias:

Sayuri disse...

Uau. É tudo o que consigo dizer ^^

Guilherme disse...

Consegue ser pior quando esquecidas dentro dos livros do que enfeitando os cemitérios... Quase como se olhasse pra nossa cara um dia e falasse "O tempo passou, amigo, eu murchei, vc tb"

Natame Diniz disse...

comparação entre homens e flores, que inusitado! gostei

Guilherme disse...

e novos posts.. onde estão?:B

Carina disse...

Lá no http://domingo-atarde.blogspot.com !

:D

Mas não abandonei aqui, também...
Logo menos posto alguma coisa. :)