30 agosto, 2011

Oi, Henrique,

Faz tempo que eu tô pra te escrever sobre várias coisas cotidianas e tal. Por exemplo assim: tá pela terceira vez que eu acordo mais ou menos uma hora antes de o celular despertar, e minha cabeça fica a mil. Pensei numa coisa aqui... Será que é por que eu chego tão cansada ultimamente que durmo rápido, e aí minha mente tá cobrando aqueles minutos de lucidez nebulosa, mas horas depois? Sempre valorizei esse trecho do dia. Tem alguma coisa de mágico, parece.

Eu acho que já te falei daquele morador de rua que me deu o bom dia mais lindo de todos os tempos um dia. Ele parece sempre feliz, e me dá vontade de ficar feliz também. E não é por aquele papo de a gente que tem uma casa e comida e família enxergar o quanto deve sorrir por tais motivos e como é injusto nos aborrecermos por pouco. Não é isso. É alguma coisa que brilha nos olhos dele e que me atinge, sem bombardeio de porquês. Uma noite que eu tava andando vi ele sentado perto da estação juntando umas moedas, e o achei triste. Complicação perguntar pra um mendigo porque ele tá triste, né. Vai ver a noite influencia nisso. Tem gente que sente as coisas de um jeito diferente em cada parte do dia. Ele me chama de menina sol. Não entendo muito bem isso. É esquisito se a gente pensar na forma, porque logo eu que tenho físico de pernilongo (com uns ombros gigantescos); também não sou loira; vivo com o corpo gelado... Enfim, é esquisito se a gente pensar em todo o resto.

Você deve ter dado pelo menos uma risadinha agora... Ontem no trem um rapaz me entregou um papel com alguns versos e um endereço de blog embaixo, "se você se interessar...". Eu estava distraída ouvindo música e olhando como a tarde do meu caminho tem ficado amarela, então dei de cara com a enorme arcada dentária dele e, por isso, lembrei de você. O resto não parecia muito, que ele era meio aloirado, e eu parei de olhar um pouco, também, já que de loiro não gosto. Depois eu olhei de novo, porque ele era cabeludinho daquele jeito que é jóia enfiar a mão pelo cabelo e ver os anéis de fios se desfazendo. Desci do trem e resolvi que talvez me interessasse. Achei os poemas sombrios, publicados quase todos em uma só data. Mais tarde fiquei pensando porque ele entregou o papel só pra mim. Será que me achou triste? Eu estava mesmo com uma roupa meio cinza, mas a sapatilha era bem florida. Será que achou as flores também tristes?


Vai mandando as suas doidices, também. Eu quase nunca entendo, mas eu leio tudo. E não vou arrumar nada do que escrevi aqui. Nem tente devolver com correções.
Daqui a pouco carimbo um beijo aqui embaixo; tenho um batom novo com cheiro, até.

Agnes.


P.S.: Você viu que aprendi mais ou menos a usar ponto e vírgula?

20 agosto, 2011

Hoje pela manhã, na minha primeira visita do dia à cozinha da empresa, vi andando pelo telhado um gato supostamente branco. Fiz psss, psss! para chamar sua atenção, encostei na porta que dá para o pequeno quintal e comecei a tomar um café, olhando o bicho que esticou o pescoço em minha direção e fixou as garras na beira das telhas: o que é? Terminei o café e achei que ele estava se demorando na mesma posição, fitando meus olhos dispersos com os dele, muito azuis, como se qualquer outra cor de olhos fosse ofensiva. Aceitei o flerte desafiador, matutino e inesperado: você irá embora primeiro, meu querido.

Você costuma sempre fazer coisas às quais é impelida, mesmo sem a convicção de que gosta realmente delas? Sabe... como esse café tomado sem qualquer prazer ou atenção.

...

Ah, eu não devia ter feito essa pergunta; fui um pouco burro por não deduzir a resposta, mas é que só agora vi a quantidade de açúcar no fundo da xícara. Entendi. O truque é acrescentar vantagens imaginárias para que as coisas te pareçam, de fato, desejadas. Assim sua realização se torna mais aceitável. Bastante medíocre, mas lógico, admito.

Fui em direção à pia e enchi com água a xícara, para dissolver a espessa crosta de açúcar já seca no fundo. Saí da cozinha. Gato encardido.

07 agosto, 2011

"É um filme sobre orquídeas, sério!"

— Eu a amava. Era meu, aquele amor. Ele me pertencia. Nem ela tinha o direito de tirá-lo de mim. Posso amar quem eu quiser.

— Mas ela te achava patético.

— Isso era problema dela, não meu. Você é aquilo que ama, não quem ama você.


Adaptação, Spike Jonze, 2002.