19 setembro, 2011

  • visão
que há um véu voluntária e estrategicamente colocado, e ele é branco, de modo que não se fuja do entorpecimento, amenidade do esquecimento, momento velado. se o exterior se faz bonito já fica resolvido que não é tudo isso; o que é feio ganha um disfarce de pupila-película cheia de cautela. 

véu que é cuidado para não trazer mais coisas aqui pra dentro, de desordem já grande. os caminhos se colocam, as gentes se espalham por eles – eu me desloco, que ficar parada pesa e traz cobranças, consequente permanência, ilusão de segurança! traz perigo, ameaça o espírito, prego nos pés. (e os meus já estão por demais marcados.)

vislumbro os riscos de contato tanto e, no que vem do outro, não hesito no véu para barrar o encanto. 

veja você: é como olhar para os dois lados ao atravessar via de mão única.

15 setembro, 2011

Veja você;

  • vida
debaixo do meu nariz, sugadas duas em duas semanas.

uma que suponho desconhecida, que agora, agorinha enquanto tomo café com muito açúcar por não gostar de café, é aquela mancha terrível e enorme de sangue já esfregado no canto da avenida. talvez nosso caminho já tenha se cruzado. talvez mesmo antes de ter virado mancha de sangue na quinta-feira tenhamos nos visto na quarta. posso ter lhe dado uma cotovelada raivosa, ocasional, no metrô, na quarta. pode ser que a pessoa estivesse também em sua casa, projetando o dia seguinte – a quinta.

uma que é conhecida do tipo parente de colega... essa corrente que se estabelece em conversas várias, e com cujos integrantes criamos um vínculo sentimental de matéria não palpável. nem chegou a ter vida como temos vida – em que momento isso acontece? quem decide? (ela já tinha nome, amor correndo pelo cordão umbilical e umas roupinhas). foi parida, foi parida morta. um médico que aos nove meses de gestação resolve descobrir que "tem alguma coisa na cabeça do seu bebê, moça". o próximo passo é dizer que você vai expelir sua criança, parto normal.

um: quem era?
dois: quem seria?

12 setembro, 2011

Labor

Na primeira vez em que vi Fabiana, não pude reconhecer nela a perfeita imagem de inspiração que seria utilizada por mim muitas vezes nos meses seguintes. Aliás, nunca em público, mesmo depois, conseguia crer que aquela mulher era meu principal objeto de observação. Nos detalhes corporais atraentes minuciosamente descritos por Gilberto, quando da nossa apresentação em uma festa, nada havia que apontasse uma musa; pelo contrário, quando eu mesmo tateando comprovei os exageros de meu querido amigo bêbado, notei em Fabiana certo desequilíbrio de curvas e aspereza de pele que não me pareciam características negativas, senão encantadoras.

Pela manhã vinham as frescuras rotineiras que aprendi forçosamente – embora com prazer secreto – a suportar: se em duas horas após o despertar meu pijama ainda estivesse no corpo, com certeza eu era um desleixado e preguiçoso irremediável. A toalha molhada em cima da cama só poderia ser, no mínimo, uma afronta. Inacreditável. Gostava dos adjetivos “ável”, a Fabiana. Certo dia disse tantos deles para me convencer a usar um dos seus milhares de sabonetes de frutas e flores, que fez sem perceber um trava-línguas, fato para mim engraçado e, para ela, motivo de aborrecimento. A impaciência no amor crescendo, sua insatisfação crônica atingindo o ápice e causando dúvidas quanto à nossa ligação quase magnética.

Mas as tardes. Os fins de tarde amarelados, poeirentos da temporada sem chuvas. Os fins de tarde em São Paulo, no acampamento, nas avenidas, na praia, dentro do carro, no quintal. Tenho a impressão de que, mesmo em Júpiter, Fabiana ficaria do mesmo jeito taciturno e lânguido, se lá houvesse fins de tarde. Esse estado em que ela ficava é que me enchia o coração de uma vontade de materializá-lo, de torná-lo desvendável para que eu pudesse alcançar sua dor e beleza, esta última que eu sentia tão forte e que nunca meus materiais, o meu gesso ou a argila, puderam reproduzir. Esculturas de merda. Para um pretenso artista como eu, era um desafio angustiante, ou melhor, ável... Era um desafio inenarrável.

Cheguei a perguntar diversas vezes o que se passava, e obtinha como resposta um vago "estou olhando para mim".

Mais tarde entendi o fracasso das tentativas de reprodução... Aquilo não era meu. Era o interior da Fabiana, e isso era ela própria, só dela. Entendi também que justamente em seu silêncio encontrava meu motivo para continuar produzindo. Minhas representações eram uma cópia invejosa do que eu não sou; do que é lindo e intenso. Do que é inalcançável.


Tentativa de eu-lírico masculino. Ficou ruim.