Na primeira vez em que vi Fabiana, não pude reconhecer nela a perfeita imagem de inspiração que seria utilizada por mim muitas vezes nos meses seguintes. Aliás, nunca em público, mesmo depois, conseguia crer que aquela mulher era meu principal objeto de observação. Nos detalhes corporais atraentes minuciosamente descritos por Gilberto, quando da nossa apresentação em uma festa, nada havia que apontasse uma musa; pelo contrário, quando eu mesmo tateando comprovei os exageros de meu querido amigo bêbado, notei em Fabiana certo desequilíbrio de curvas e aspereza de pele que não me pareciam características negativas, senão encantadoras.
Pela manhã vinham as frescuras rotineiras que aprendi forçosamente – embora com prazer secreto – a suportar: se em duas horas após o despertar meu pijama ainda estivesse no corpo, com certeza eu era um desleixado e preguiçoso irremediável. A toalha molhada em cima da cama só poderia ser, no mínimo, uma afronta. Inacreditável. Gostava dos adjetivos “ável”, a Fabiana. Certo dia disse tantos deles para me convencer a usar um dos seus milhares de sabonetes de frutas e flores, que fez sem perceber um trava-línguas, fato para mim engraçado e, para ela, motivo de aborrecimento. A impaciência no amor crescendo, sua insatisfação crônica atingindo o ápice e causando dúvidas quanto à nossa ligação quase magnética.
Mas as tardes. Os fins de tarde amarelados, poeirentos da temporada sem chuvas. Os fins de tarde em São Paulo, no acampamento, nas avenidas, na praia, dentro do carro, no quintal. Tenho a impressão de que, mesmo em Júpiter, Fabiana ficaria do mesmo jeito taciturno e lânguido, se lá houvesse fins de tarde. Esse estado em que ela ficava é que me enchia o coração de uma vontade de materializá-lo, de torná-lo desvendável para que eu pudesse alcançar sua dor e beleza, esta última que eu sentia tão forte e que nunca meus materiais, o meu gesso ou a argila, puderam reproduzir. Esculturas de merda. Para um pretenso artista como eu, era um desafio angustiante, ou melhor, ável... Era um desafio inenarrável.
Cheguei a perguntar diversas vezes o que se passava, e obtinha como resposta um vago "estou olhando para mim".
Mais tarde entendi o fracasso das tentativas de reprodução... Aquilo não era meu. Era o interior da Fabiana, e isso era ela própria, só dela. Entendi também que justamente em seu silêncio encontrava meu motivo para continuar produzindo. Minhas representações eram uma cópia invejosa do que eu não sou; do que é lindo e intenso. Do que é inalcançável.
Tentativa de eu-lírico masculino. Meio que não funcionou, né? Achei gay. Mas vale como exercício. :D
2 denúncias:
Adoro eu-lírico masculino, mas sempre jogo fora meus textos assim. O único que achei aproveitável foi o Colorindo. Mas o seu ficou lindo, mesmo sendo gay! ahiehaiueh
é difícil... to penando aqui, com ideias na cabeça mas sem saber por onde começar
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