30 outubro, 2011

Retrato


eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro; nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Cecília Meireles

20 outubro, 2011

Coloquei meus olhos

em um menininho, no sol, na esquina, na frente da santa casa de misericórdia, na cadeira de rodas, no canto da calçada, na roupa bem lavadinha, nos braços com mãozinhas atrofiadas saindo das mangas, no cabelo sendo afagado pelo avô, e no tudo mais que é visível e guarda o tudo invisível existente nas vidas que rodeiam minha travessia pela faixa de pedestres na ida à bomboniere mais próxima.

Eu não sei, foram poucos segundos, mas o menininho colocou os dele só nos meus.

09 outubro, 2011

  • pele
se você colocar os braços para o alto e tentar formar um arco, não vai saber se as mãos estão alinhadas a menos que os dedos, por um segundo, se toquem. nesse vão de entre-membros não cabe móvel nenhum de melodia iludida, nem o que se detém em uma vida, muito menos ela inteira. três vidas só em versinhos enjoados. amor cabe, mas passa fazendo vento, feito bola que se perde; quando vem, é direto na barriga. última escolha da educação física e uma prévia de relacionamento por eliminação.

para o alto, também, além do toque de dedos que visa ao equilíbrio, além, os pequenos de bicos e penas. gritam alto os cretininhos, de cima do prédio de estudos de livros e Letras – prédio é uma coisa vã de sentido – gritam sentindo. e ainda mais forte se no alto das árvores; estas, aliadas do protesto não-me-prenda, estourando o concreto de calçada cansada. vocês não me cerquem de seu cinza, raça coberta de pele, seus filhos da puta.

de pena ou de casca de árvore, ora proteção macia e sutil – porque se você for afastando as camadas... –, ora aspereza, mas arranhar é bom. mais leveza ali na copa, elas também formam arcos desalinhados, e por isso bonitos. entre as folhas e o ar são caminhos, entre eles e a pele vários amorezinhos, mas e os caminhos mortos? encontre seu centro e as mãos estarão alinhadas. mas isso é piada? e os dedos tortos?

não há centro em tanto espaço e não há braço que limite caminho. aqui é igual ao alto. há que se apontar, mas por que fugir ao desalinho?