30 dezembro, 2011

you can leave me on the corner where you found me


é favor reparar também nesses barulhinhos de coração acompanhando.

26 dezembro, 2011

Há dias essa pitangueira já olha para baixo, cravada em terra que arqueja, tão pungente a insolação. Eu vou com ela à procura de frescor para o piso frio, enganadas ambas por gotículas remanescentes da atividade de um inútil regador. Culpados os raios que, ai, esturricam (as gotículas, eu, a planta verde, a planta rosa dos meus pés, nossas raízes).

Na casa escura em prenúncio do clamado desaguar a pele se junta ao tecido. Este, se debaixo do sol, marca o corpo - pelados metropolitanos coloridos somos. Me dispo sem alívio, atordoada e sem ênclise. 

E se eu juntasse retalhos de frescores passados e te fizesse uma roupoema?

A velocidade dos movimentos tem algo de gato gordo incomodado em cesta pequena, cesta de mercearia tocando mpb em esquina de bairro. Acrescenta-se ao quadro de languidez amarelada (sem moldura, papel puro de bordas corroidíssimas) o cérebro-maquinar prejudicado pelo clima. Em escaldante entorpecimento, sono é coisa fácil de se passar por maluca, e entre cochilos de tardes assim febris me pergunto se ainda há quem tenha nos olhos a cor das tempestades.

21 dezembro, 2011

Marta, Margarida, Raquel

Dr. Rodrigo, quando se viu só, olhou o mar pela janela. Vida difícil aquela dos marinheiros. Guma dizia que eles não deviam casar. Há sempre um dia em que a família fica na miséria, há sempre Martas, Margaridas, Raquéis, para passarem fome. D. Dulce esperava um milagre. Rodrigo quis voltar para os seus versos, mas o homem que agonizava era um protesto contra a poesia descritiva do mar. E pela primeira vez Rodrigo pensou em fazer um poema que falasse no sofrimento e na miséria da vida do cais.


Depois, a morte veio calma. Agora Traíra não ia mais no navio. Rodrigo tinha chamado Guma e Jacques. Traíra viu os três em torno ao leito. Não gemia mais. Estendeu a mão e não era ao médico e aos amigos que ele estava vendo. Via as três filhas em redor do seu leito, as três flihas que o despertavam porque a manhã ia alta (o sol invadia o quarto) e era preciso sair com a canoa. Estendeu a mão, sorriu carinhoso, (Rodrigo torcia as mãos), murmurou os nomes Marta, Margarida, Raquel, repetiu Raquel e embarcou na sua canoa.


Embarcou na sua canoa.

Jorge Amado - Mar morto

07 dezembro, 2011

Agonia nº 22

Para a planta dos pés sola de superfície dura, bom se calhar chão firme, mas estabilidade mesmo em fissuras. Circundando-os, tiras cor-de-terracota, dessas comunicações que se estabelecem sem autorização dos homens: lembram os olhos daquele e lembram o cabelo de uma ela. É cor de fruta que se deixa ficar em cestas de outras estações.

Quando iluminados pontos específicos por entre trilhos forrados de pedregulhos – sol às 16h30, novembro, procurando pérola em pedra; quando esse mesmo sol , por gentileza, coloca-se atrás da nuvem, mas ainda assim impera por lhe dar um contorno eletrificado; quando os sons da cidade chegam fracos e a vastidão de corpo e grama dá lugar à briga de pássaros com barriguinha amarela (como se em segundos, por conta disso, o mundo fosse acabar). Quando essas coisas todas se transfiguram em megafone e a cabeça assume o movimento de negação constante, tal qual o nado dos peixes de aquário, sobem do estômago uns precisares. Uns em desembrulho de poemas, conversas chorosas, cheiro de maçã grudado na pele e pesado cansaço.

Precisar dizer que não se pode tratar de pessoas relacionando-as a tangibilidade. Que causa uma certa angústia saber descrever os detalhes de um rosto, embora ele não apareça claro na mente, como em fotografia ou rascunho de tatuagem; que é esquisito olhar para as próprias mãos e vê-lo desenhado ali, de segurares mil, um cobrir do outro e um desamparo cá em mim. Lavar a alma e lavar-me ainda deixa marcas não minhas, são marcas fundas, mas sozinhas. Dizer que essa história de separação por linhas tênues só atenua abismos insubmissos mesmo à bailarina com o salto impecável, músculos obedientes e o pé apertado, dessa vez por tiras de cetim – a violência eufemizada.

Que melancia cortada em cubos para comer com garfo não é oferecimento que se faça. Um precisar mínimo é o chão coberto de caroços e a cara lavada de sumo.