07 Dezembro, 2011

Agonia nº 22

Para a planta dos pés sola de superfície dura, bom se calhar chão firme, mas estabilidade mesmo em fissuras. Circundando-os, tiras cor-de-terracota, dessas comunicações que se estabelecem sem autorização dos homens: lembram os olhos daquele e lembram o cabelo de uma ela. É cor de fruta que se deixa ficar em cestas de outras estações.

Quando iluminados pontos específicos por entre trilhos forrados de pedregulhos – sol às 16h30, novembro, procurando pérola em pedra; quando esse mesmo sol , por gentileza, coloca-se atrás da nuvem, mas ainda assim impera por lhe dar um contorno eletrificado; quando os sons da cidade chegam fracos e a vastidão de corpo e grama dá lugar à briga de pássaros com barriguinha amarela (como se em segundos, por conta disso, o mundo fosse acabar). Quando essas coisas todas se transfiguram em megafone e a cabeça assume o movimento de negação constante, tal qual o nado dos peixes de aquário, sobem do estômago uns precisares. Uns em desembrulho de poemas, conversas chorosas, cheiro de maçã grudado na pele e pesado cansaço.

Precisar dizer que não se pode tratar de pessoas relacionando-as a tangibilidade. Que causa uma certa angústia saber descrever os detalhes de um rosto, embora ele não apareça claro na mente, como em fotografia ou rascunho de tatuagem; que é esquisito olhar para as próprias mãos e vê-lo desenhado ali, de segurares mil, um cobrir do outro e um desamparo cá em mim. Lavar a alma e lavar-me ainda deixa marcas não minhas, são marcas fundas, mas sozinhas. Dizer que essa história de separação por linhas tênues só atenua abismos insubmissos mesmo à bailarina com o salto impecável, músculos obedientes e o pé apertado, dessa vez por tiras de cetim – a violência eufemizada.

Que melancia cortada em cubos para comer com garfo não é oferecimento que se faça. Um precisar mínimo é o chão coberto de caroços e a cara lavada de sumo.

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