04 dezembro, 2012

Dei para pequenas atitudes durante o sono sem rastros de lembrança no dia real. Tirei a blusa, movi um objeto de seu lugar costumeiro...
Permissividades medíocres, penso. E adianta essa matéria impalpável de quem sou no sono se ela depende da carne desperta para lhe imprimir símbolos?
As ideias de astros_energias_situações oníricas são mesmo muito bonitas, mas um coração precisa de belezas com textura mais concentrada. Coloquei luzes pelo quarto a fim de evidenciar as formas.

Queria também fotografar pássaros, não os alcanço.

29 novembro, 2012

.despojamento

sonâmbula, arrancara a blusa deixando sob a manta uma miragem de pele crua. cotidiano e aborrecimento debaixo da cama subiram-lhe pelo colo como coisa volátil – um em cada bico, aquietando-se.


.película

gelada, caminhava no piso frio em pés de ave, tamanha a rarefação das vontades. os braços ondulavam paralelos ao corpo, e com mãos abertas, como se a vida fosse sugestão. eram então órfãs a exatidão, as grandes verdades, a utilidade de objetos, tudo envolto em uma irresponsabilidade doce porque o peito não arfava.


.consistência

trajada de dia, perdeu a maciez do tato, a temperatura amena... amarrotado existir azul. sem delicadeza de pena.
sem tronco nu.

22 novembro, 2012

Luzem cacos, tilintar

Em dupla junção dos lábios vislumbro tua alma de vidro: abajur de bola de gude
Explico porque Morfeu assume contorno de luz, o teu primeiro suspiro pesou longo no espaço-corpo de penumbra que ofereço. Houve ainda um facho a transpassar paredes geminadas em ruídos de louça, percebes? E a velha vizinha, louca, a trincar cada lance meu ao teu sono – que me canso, que padeço.

A pluma... sustenta globo de cor tão dúbia?
Foram limpas as mãos na derradeira jogada?

Tardio apagar das luzes haveria de nivelar as fundas trilhas do peito, mas antecipas um pesadelo meu refletido, e, responsável, triturei partículas cortantes; acordada.

19 novembro, 2012

eu lírico

concluí, olhos apertados:
dói é nos canais suspensos

o cão da casa (por exemplo)
junta as patas na cabeça
e geme
os quatorze anos que lhe entram pelo ouvido

um pacto dormente meu arquejar
porque, durante o sono,
o corpo não tem certezas. pudera:
horas de bruços e do peito, lembrei,
fiz corredeira

tais as olheiras

diabo de choro, sim, rosto disforme até
a reconhecer-se de minuto
só no que é profundo

no mais, depois dos olhos abertos
tanto quanto podiam num dégradé
de poros escurecidos,
lamenta-se

.o preço dos tomates-cereja
.a pintura da casa (uma cor tão feia! cor de gaitista sonolento em garoa
fria. calcule quão antiquada é essa imagem)
.as plantas que secam
.a carne tão fraca, os restos do pouco

e a minha falta de etiqueta:
oh, desculpe o não comparecimento!
nestes copos há menos que um dedo de coragem
e a má postura faz que me doam as costas
por dias inteiros

cotovelos na mesa, mirei o sol com lupa;
meus olhos sumiram
numa ardência de verbo lenta
e assim articulamos ambos:

de.ti um poema do dia
de mim
a ti


Poema publicado na Revista Mallarmargens.

13 novembro, 2012

E se minha alma tombou, por que permanece o esqueleto?

Que frágil o corpo diante das perturbações flutuantes.

Desde tão cedo o chão frio agride a sola e o ventre logo mais relaxa, se expandindo. O ventre é uma coisa que acorda lisa e reta como as folhas sem pecado. Só que nas entranhas o diabo.
Ontem eu me inclinava tanto olhando pros trilhos que um moço perguntou se passava mal. Assustei, neguei, agradeci. Eu podia ter contado que me sinto mal por vezes, mas que aquela mirada perigosa era só plano para fotografia. E a vida dele, faz passar mal alguma vez? Aquela face um pouco torta foi de um mal que o acometeu? E doeu?
Na mesa de almoço compartilhada uma desconhecida fala, ai, da sujeira do litoral sul, ai, as pessoas sujam tudo. As pessoas nunca somos nós. Tudo o que é vil transformado em entidade em uma garfada de carne suína boca adentro – fáceis assim os preâmbulos, o dia que corre, a chuva que corre nele, o fim. Dormir.

E que ternura as marcas de dormir na pele. Vão-se embora com a sutileza dos planos incertos, cada sulco raso se enchendo de tempo. Penso que tristezas deixem cortes profundos, nunca passíveis de curativo em curto prazo. Internos. A carne exterioriza; ela um mundo ali convulso.

 
[Título do post: Neruda]

01 novembro, 2012

dia a dia
é um calor que...
é um peso que me...

ai

de angústia
o dia-gnóstico
é-nó
é-duro
é-nódulo
moldura?
nó emoldurado
no teu seio

porque não entendo de curas,
com amor calo as amarguras
doo cuidado
e palavreio

19 outubro, 2012

trocava fonemas pela beleza dos sons
e a censura não, não havia.
~
por que as mãos esfoladas se era raso?
por quais veredas não se desagua?
~
pleno banho e falava aos insetos de surpreender-me ainda com os horrores que em mim há, não sabidos. esfolam os sonhos como palha de aço. quisera-os, pós abrir dos olhos, diluídos.
e quisera pelo cabelo tivesse escorrido todo o desespero.
~
~
~
mas isto é palratório da enganação.
isto é para não sonhar.

15 outubro, 2012

Líquido

Não chove há oitenta dias,
e as canelas da poesia estão rachadas.

*

Quando a água veio, levou dos homens o torpor de capa amarela. Levou das vias respiratórias a moleza das três da tarde, o domingo incrustado nas paredes da garganta. Umedeceu os desejos poeirentos que secaram a pupila: ardia tanto que os homens pediram por uma insolação que legitimasse a perturbação das ideias, ou um frio cortante que travasse as juntas, justificando assim suas fracas vontades. A secura do ar lhes pesava como se houvessem despejado um caminhão inteiro de melancolia sobre os narizes agora sangrentos, sobre os peitos arfando sem ruído, mas com nítida expressão de desconsolo – as mãos se uniam a procurar umidade em alguns pontos do colo. Quando a água veio, os olhos de cada bueiro lacrimejaram em aquarela cor de terracota, que transbordou corrente para a sarjeta. 

*

Mas os homens se desacostumaram à vida em que o clima não era motivo para o mal-estar, a culpa pelos não feitos, a falta de amor. E passaram a manter tal existência seca, incerta de si. Liquidada.



Texto publicado na segunda edição da Revista Trevo, aqui (p.33).

05 outubro, 2012

a preocupação está para quilos.

pele boa no ventre reto, pela manhã;
chocolate de presente;
uma menina que, de perfil, me arrebata.

é ruim a necessidade de pequenos fatos que sustentem.

26 setembro, 2012

Porque vejo que ainda não me ponho, pouco me considero e tanto dependo que jorram minúcias inúteis, falta a coragem para dizer de boca cheia

meu amor.

E uma vontade misturada com culpa pela não comunicação de coisas importantes, como o fato de ter entrado um passarinho pelo corredor enquanto eu trabalhava. Impressionante sua desorientação, o voo desesperado procurando rua. Como é que entrou? Como fez caminho tão humano, curvas de cômodos? Não terminavam os meus ais por ele, e fui atrás. Parou em uma estante, no alto; os olhos estariam arregalados se não fossem sempre aquelas continhas pretas de um se perder tão bonito e pungente. Portas abertas, falava coisas imbecis, “vai bichinho, olha ali a rua, o que foi?, neném, vai emborinha!”. Disseram que só entram assim em construções quando estão doentes. Fez ainda um rasante tonto, bateu com a cara em livros, e no batente, e foi ao chão. Dali correu naqueles saltos minúsculos por centímetros do tapete, e foi-se voando baixo.

Ficou-me o barulho das asas batendo no corpo, que batia nas paredes. E a esse símbolo me liguei, e tanto que não pude dele tratar, inexplicáveis os trajetos dos sentimentos desorientados. Não há motivo racional para a angústia da analogia com o pequeno ser de aspecto moreno e débil. Sem eixo ou asa com que cobrir a cara.

21 setembro, 2012

à mulherzinha vetaram o gosto por geleia
cuide quem sabe de gestos fluidos nessa arte de pães e biscoitos
era uma cena para dias claros e paladares com pupila, não papila

impossibilitadas suas mãos, ela por extensão
a dor do pulso aos nós em um latejo só
dolorido
o tremor descontrolado ficava sob cortinas brancas quando havia visitas

mesmo em pele morena tão saltadas eram as veias
que, pensando em consistências aquosas de café da manhã,
pela cor de cada segmento do antebraço seria ela, nesta ordem de sabores,

amora e limão maduro

20 setembro, 2012

No dia em que julgou seu rosto maduro suficientemente para as buscas (até maduro demais, sem lhe parecer belo), jogou-se no mundo. Pois que a chave pesou no bolso e as portas subitamente pareceram enferrujadas, embora as paredes tivessem atrativos em cor, e o ar fosse respirável em limites de amor. No dia em que julgou não precisar de chave, ainda que ferisse as mãos no romper das madeiras rudes, tirou as roupas, pariu um verso, criou um canto, e a chave jogou-se no mar.

12 setembro, 2012

Um caminho de palavras




Sem dizer o fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são  ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.


António Ramos Rosa

05 setembro, 2012

porque me é assustadora e inconcebível a ideia de a mente não ceder. ao cansaço da carne, ao estado etéreo; veja essa palavra: etéreo. do desligamento.

a insônia é teu desespero nas fuças por ser só.

palpitações, sim, maluquices ignoradas se colocadas à luz porque de repente não te é mais natural fechar os olhos e ir-se. (nesse mar, na preguiça que dá.) fico etérea. queria ter certeza de que há alguém que não se importaria, que não me xingaria secretamente se eu telefonasse para pedir que, por favor, deixe que eu leia para ti os poemas mais bonitos que conheço até que o sono chegue. fone pousado, seriam mentira a demora, as luzes do espírito atônitas – a necessidade de encarar no dia seguinte e engolir todo apelo.



pensei em macadâmias
como gostei de provar e a consistência engraçada da semente:
não dá pra saber
se quebra
ou desfaz

. . .

ficam vestígios de poesia
no céu da boca

depois de ler cereais assim
e a língua que . . . 


03 setembro, 2012

Por algumas marquinhas na pele havia a impressão de caminhos mortos, sem amigos que caminhassem por ali, uma falta de circulação expressiva. Afetiva.
Às vezes dava a impressão.

(Antes, vivo das observações sobre eles, suas manias suas lembranças – delas sou formada e por esse vitral dá para ver.)

*

Explicou que tinha uma tartaruga (que adora tomate tanto quanto eu) porque nascera com problemas respiratórios e os benefícios pela criação do bicho eram uma crença da família. Andava assobiando por uma mania de anos e assegurava que dessa pequena felicidade viveria, acrescentando-se a ela boa comida e um baseadinho quando calhasse, por favor. Determinou o fim da infância pela partida de um ascendente seu, e gravou essa ideia na minha cabeça como quem avisa ter aberto o semáforo. Lamentou a aceleração repentina nos gestos e a alergia nos dedos se alastrando (eu querendo dizer que a calma não deve ser muito difícil de segurar, mas sem certeza). _Perdi a digital, perdi. Não passo mais o papel assim, escapa, perco.

*

Tivesse todos acessíveis em carne, diria que ao dormir tarde demais outro dia (outra madrugada) tive perdão ao devorar um pão de milho, mas talvez nem fosse epifania aquilo; que estive febril sem certeza de procurar cura, pelo estado que não chega a ser agradável mas é curioso, o de entorpecimento do corpo doente; que pintar as unhas dos pés é de um ridículo divertido sim senhor; que quero também ouvir o que querem dizer; que teorias sobre a falta só vão bem para o cu de quem não vive de solidão-não tem saudade forte; que eles, todos (VOCÊ), vocês ocasionalmente se organizam na parte superior das costas, entre as escápulas. 

E escapam. Aproximo ambas e o barulho não vem, o estalo pelo atrito. Fica sem tanta força o eixo que me daria postura ereta.

22 agosto, 2012

Pra ver sinal não precisa binóculo

Hoje no coletivo havia um rapaz com uma pinta centralizada bem na pontinha do nariz. À sua frente, naquele aperto do transporte às oito da manhã, uma mulherzinha japonesa com uma pinta ao lado da extremidade esquerda da boca. Ambas as pintas notáveis e graciosas; nasceram para aqueles rostos.

(Hoje nasci para vestido florido e blusa com furos em formato de coração.)

.
.
.

Quis dizer ao rapaz: olha, você é lindo na sua juventude com jaqueta grossa e seus óculos escuros, é lindo seu cabelo bagunçado, juro.

Quis dizer à mulherzinha: olha, você é mesmo linda no seu chanel com fios lisos, lindos seu nariz pequetito e suas pálpebras sem risco.


As suas pintinhas deveriam se conhecer.

21 agosto, 2012

Novela

na gaveta há um cachecol não terminado
(verde, de tricô)
cinco anos de agulhas fincadas
talvez que perdi o ritmo
talvez emaranhei o amor

20 agosto, 2012

Espaços no mapa


Súbito penso que talvez devesse mudar de lugar. A luz entrando sempre pelas mesmas frestas, as paredes tão sem possibilidades, meus livros se multiplicando queridos, mas ali tão apertadinhos...
Olho os títulos. Dali para um verso já decorado (tantos!) martelar não leva nada: tu podes ir e ainda que se mova o trem TU NÃO TE MOVES DE TI. Voltando às questões práticas de não poesia – preciso mesmo parar –, corro para o chuveiro. Esse calor bruto dá moleza na gente, atrapalha as ideias.

Minutos depois o espelho está embaçado. Limpo tudo.
Já mais fresca, abro a janela procurando vento; puxo os cabelos para trás e prendo como se pode; passo as mãos pela cara e abro muito os olhos.
(Só enxergo mal de longe.) Vi bem o reflexo. Não me movo de mim.

Bafejo o espelho.


Texto de outra estação. Ainda cabível. Só não chegou o calor forte.

18 agosto, 2012

Fluxo-Floema, Hilda Hilst.

Na última página do livro da biblioteca.










15 agosto, 2012

Se o dia acordava silencioso, Lúcia sentava-se à mesa nas primeiras horas de claridade e ali explorava de modo sutil um humor amarelo-fosco.

Soprar, por exemplo, uma minúscula formiga que atravessa as margaridas da toalha, a fim de vê-la em desespero tamanho como se um insight de fuga... Como se em súbito movimento de mãozinhas à cabeça percebesse que na estrada há, céus!, muito, muito mais que percorrer, e o caminho é de assombrosos juncos, e sua condição algo infinitamente distante de criatura alada...

Terminando o chocolate, grudava os lábios no dorso da mão no mesmo minuto, misturando os sentidos do silêncio em travessia: o gosto restante na língua, o calor da mucosa.

14 agosto, 2012

se eu fosse artesã e pudesse criar

me botava besta
de babar por uma moça
de beleza tão boa,
mas cara tão boba.

cansei de besteira
e bati o pé:
– ou beijo ou bota!

bailou na minha braveza
não ficou de blablablá 
e me deu logo um botão.

09 agosto, 2012

banho em cachorro louco

li que este mês tem um dia do diabo.

você chegou em casa com uma sede inacreditável, ou com qualquer outra coisa passível de um adjetivo forteimportante que pula do tapetinho encardido da porta para os pés – adentrando a casa toda essa forçaimportância de urgência física –, e devorou uma pêra como se sumo fosse hóstia. ai, graças a deus compraram. lavou a cara do líquido adocicado, soçobrando um dia inteiro, submergindo afeto gasto, sibilando fúria quando minha lembrança escorria pelo queixo. nadar dá sede. aquela água clorada indigesta.

fico no fundo da piscina por poucos segundos. a cabeça aguada, pensamentos azuis. ali só há ausência de urgências. os sentidos se vão devagar. minha pele enruga até que o corpo feche a si mesmo. 

s u m o.

com isso dos calendários é pôr cautela nas coisas todas para evitar desgosto, correr do escuro, mergulhar na cama. (um beco de corpo para meter a cara medrosa resolveria muita ou pouca merda?)

quero achar meu maiô, tive um dia dos diabos.

05 agosto, 2012

pouso rápido para a(ca)lento

desconfiada sempre
de uma parte do teu corpo
que eu adoraria. 

por tua mão fria
não tinha acesso:
uns toques poucos
mas os sentidos todos.
não entendia...

eu ia sentido coração
pelo teu poema circulatório.
por fim descobri a esquina
do fim do pescoço
com o ombro...

na ciência deve ter nome
esse destino procurado
veia a veia.

para mim é o lugar 
em que o rosto encontra calor 
e se acalma
a cabeça cheia.

03 agosto, 2012

E bom dia.


"Porque um enorme fervor se aguça em mim, eu Tadeu, de joelhos te peço que OUVE, Rute, que me escutes: como se um rio grosso encharcasse os juncos e eles mergulhassem no espírito das águas, como se tudo, luta repouso dentro de mim se entranhasse, como se a pedra fosse minha própria alma viva, assim minha vida, olho espiralado olhando o mundo, volúpia de estar vivo, ouve Rute o que se passa quando os meus olhos se abrem na manhã (...)"


Trecho inicial do impressionante "Tu não te moves de ti", da Hilda Hilst. (Tenho comigo decorado.) Foto minha.

01 agosto, 2012

tenho 22 anos,

já vi pavão antes.

vi um pavão outro dia com um pescoço de um azul que eu nunca tinha visto, nunca mesmo. (tava de leque fechado mesmo, não tem nada a ver com aquele rabinho decorado.)

cintilavam umas nuances ali, e não fazia sol no dia nem a luz tava tão boa.
se a gente tivesse um pedaço de corpo cintilante assim, ninguém precisaria de olho.

26 julho, 2012

apelo ao desapego

vez em quando tinha uns quês de sumir,
deixava o homem falar sozinho
e voltava a vida pro umbigo.

largava em qualquer braço o filho,
o andador da tia por comprar,
e perseguia algum amigo 
(essa mania também tinha).

descambava para conversa de bar,
soneca proibida à tarde,
ou, vez em quando, uma rapidinha.

24 julho, 2012

Todo cambia

O homem respira pesado na cozinha, as veias saltadas no braço forte mesmo sendo o corpo magro, a careta refletida no vidro da janela lavada da luz noturna. Não chora, embora sejam os tempos difíceis que às vezes latejam no peito e embora os sinais físicos sejam quase os mesmos. Corta algo, rapadura ou chocolate em grande barra – as heranças que deixa o tabaco ao ver-se abandonado –, com a força que empregaria nas máquinas, com a força não sabida contra coisas que parecem erradas, mas sobre as quais não tem muita certeza, não. Os poucos graus gelam o cômodo e embaçam a lâmina do talher que repousa ao lado do doce já em pedaços. Ele estaria de cueca, ainda assim, não fosse ter descoberto recentemente que até gosta de pijamas e cedido ao aconchego desse presente da mulher. Nos últimos dias os sons que produz não têm ido além dos ruídos quando em contato com objetos da casa e do arrastar dos chinelos (nunca com aquela repartição para o dedo maior); da garganta só leves pigarros e alguns monossílabos, quando necessário. Em outro espaço, um rádio-relógio velho com as horas estampadas em vermelho sussurra qualquer coisa sobre deus não abandonar seus filhos.

A moça organiza ingressos de cinema no quarto, em sua maioria duplos, porque rapazes não têm essas frescuras de colecionar e acabam esquecendo-os no bolso alheio. Rasga a cópia de cada um e lamenta que dos papéis não saia cheiro fresco e tão verde como de algumas folhas mais espessas quando privadas de sua inteireza, a vida ali brilhando interrompida. O calor das mantas sob a cama não se sobrepõe à gelidez do ar, que reage de modo incisivo contra as pontas dos dedos das mãos e dos pés. O corpo balança para espantar o frio, em descompasso, porém – há uma dor concentrada nas costas, carente de um daqueles equipamentos de exercício que estralam tudo, da lombar aos sonhos (silenciosos nos últimos dias). Ela estaria aquecida, fossem os elementos da astrologia condizentes com o que sua natureza suposta prega; sabe-se que são belas idiotices... Têm movimento e sonoridade, quando na boca dos homens, os signos de fogo.


Em algumas noites, seja pela visão turva de invisibilidades afetivas ou pelas nuvens de angústia coletiva, não é possível ver a Lua.


http://www.youtube.com/watch?v=g8VqIFSrFUU porque sim.

19 julho, 2012

Chão molhado, tênis velho e medo infundado dissolvem poesia, essa encheção de saco toda. Vem na cabeça um escorregão terrível, membros repousando tortos com som seco – cotovelo prum lado, mão virada pro outro –, nuca batendo no piso liso, POW!!!, tudo estourando, quebrada a manhã, eu morta antes de comer o bolinho de baunilha que comprei sem gostar porque não tinha de chocolate, a nota de 2 com uma mancha escrota à mostra no bolso, todo mundo chocado, _Estava assim com o guarda-chuva ali assim, um pouco atrapalhada, mas só, não viu a árvore, bateu a cara nos galhos, daí escorregou e morreu, pronto. _Foi muito de repente...

12 julho, 2012

E quase que eu me esqueci que o tempo não para nem vai esperar

Nem sempre o saldo mental é positivo (tratando de contabilidades) quando se volta para casa. Ficam cravadas na pele as piadas que o são só porque, caso fossem conversa séria, desesperariam, provocariam medo, choro... E você sabe como é inconveniente entristecer no rolê. Valeu o teu pique apenas para chover no meu piquenique.

Hoje a pequena mais importante da minha vida completa meio século de existência doce – tão tão que dá a impressão de que, no fim (que quero bem longe), ela provavelmente não vai virar pó de volta, mas caramelo.

Cedinho, enquanto mastigava o pão, aproveitei para ir remoendo bem as pequenas memórias de que tal e tal coisa não fazem qualquer sentido ou sequer aliviam a carga dos todos-os-ombros – lucidez súbita que vem em bocados nos muitos momentos de distração pelas ruas. Fico pensando se esses insightzinhos, quando forem numerosos daqui a anos, vão resultar em uma sabedoria com consistência de rinoceronte, ou se são fantasmas de matéria facilmente dissolúvel. É fato que enquanto atuais, assombram.

Não tinha lhe parabenizado ainda. Separei em dois blocos os primeiros minutos do acordar: a razão para mim e a emoção para ela. Claro que necessariamente nesta ordem. Então depois do primeiro processo fiquei ali por um minuto no pescoço dela; hoje quero comprar uma echarpe colorida daquelas bem bonitas para envolvê-lo, disse que te amo e que conta comigo tá.

Abracei, respirei, fui pro banheiro, respirei, desliguei a cabeça, chorei pelo eco do tom que ela diz "filha". O tempo está mais ameno, então não foi tão difícil ficar pelada para o banho hoje. Não te é assim custoso livrar o corpo da veste do dia anterior que carrega aquele suposto saldo, os cheiros e a temperatura do que possivelmente nem são erros, preste atenção. Tem a água do chuveiro. (Tem também que choveu no caminho para o trabalho.)

11 julho, 2012

assovia

acordei querendo tirar do seu bico
coisa que fosse vida,
que levasse em rasante
melodias pra tristeza sem fim.

escapasse das g|r|a|d|e|s do realejo
um sonzinho verde-ousado.

talvez...
um lema em tupiniquim?

ou coisa com jeito de
: provérbio de pasto
: sussurro de açude
: cantiga no bandolim.

porque verso (de repente) faz a manhã doce,
e se a prosa for pura,
é mais bonito ainda, passarim.

30 junho, 2012

26 junho, 2012

Letrada

Perco versos,
pois se te ponho neles:
possessiva.
 
Nomeio tuas partes
(a métrica clara, os meus toques irregulares)
e te conjugo.
 
Antes enveredava
a olhos fechados
por trilhas defectivas.
 
Dos meus verbos de ligação,
hoje a ti o escolhido:
permanecer.




Poema de amorzinho feito na oficina "Sob a pele clara das palavras". 

20 junho, 2012

lassidão~labilidade

o moço no metrô fez um muxoxo em resposta à outra que reclamava estridente
suas costas enormes.
mas o que senti mesmo com sua expressão foi um
ô moça, eu não te empurrei não, que a vida já tá demais dolorida.
~
seu tom chocho seria o mesmo que mora nos olhos do boliviano sumido
no cartaz do poste. tem uma cicatriz na cabeça, vestia roupa bege e uma boina.
NÃO FALA PORTUGUÊS.
~
eu que falo, depois de fitar a cara do sumido, tentava decifrar o outro papel, abaixo,
comido pela chuva.
Vaga par   moça, facil a  sso perto do m trô Santa Cecília
~
na angústia de um rumo, penso que deve ser acalentador
assim na chuva ter um quartinho com abajur e lâmpada de cor quente
na Santa Cecília.
sim, pois há dias em que não penso morar sob os seus cílios,
e quando sim, é porque faz sol bruto, reparo que são longos e por quase um centímetro
oferecem sombra.


Trecho publicado na Revista Um Conto.

14 junho, 2012

Calendário tem os pés gelados;
ajusta os óculos,
aquece o café,
alinha debaixo da cama os chinelos.
E tem bem atento no travesseiro o ruído dos cômodos
que despertam mimetizando o tempo dos homens.

Em soslaios de curiosidade vaga
registra a agitação das não mansardas;
nelas, pessoas que amam sem pudor
e recusam balas de camomila.
Há peitos escancarados às janelas
e toda sorte de ousadias
que não competem a Calendário.

Dorme lento,
e porque tranca nas pálpebras sua vida,
a estranha ordem das coisas o impede
de existir fora do tempo exato.

Ou de virar
fabulário.



Outro exercício da oficina "Sob a pele clara das palavras". O tema era o cotidiano. Fazer poema é tão difícil para mim que nem título consegui criar. Fica aqui a derrota confessa.

11 junho, 2012

Rasante em rima para bailarina



I. do incômodo

Na superfície de terra e de equilíbrio dúbio espero o trem. Um sopro forte me balança: lá vem.

(Arrumo o cabelo.)

As paredes do túnel correndo meus olhos lembram argila – e vasos os corpinhos ali, compactados em massas de rotina.

Nova lufada bruta, mas pela janela.

(Arrumo o cabelo.)


II. da imersão

Agora, ao deslizar no espaço, procuro eixo. Não reclamo da chuva, pago as contas do celular, penso no corpo perdido e fluido (é que tenho também planos de nadar). Pense: 

a pupila aguada

a carne de um azul fresco

a dança sem atrito

o estalido calmo de um beijo.



III. pairar

Céu em mira, me lanço. E desabo com o peso da cidade. Engasgada com a fumaça e por ela pendurada até o fundo da goela.

A goela que é rosa, rosa a fumaça e as fitas, os passos mal executados. Odeio a cor, mas há tons que tardam, e aqui um desespero de esperar.   

– Estenda as mãos encontre o centro alongue o tronco!
E se perco o ar?




Segundo exercício feito para a oficina "Sob a pele clara das palavras", com Raquel Naveira. Desta vez, o tema era o "eu", o autoconhecimento. Difícil. E ainda não sei se satisfatório.

Publicado também no Portal Cronópios.

07 junho, 2012

Videira

Chegando em casa depois do passeio bairrista – raro, reconheço –, penso que não importa o ponto em que eu esteja na rua silenciosa quadra acima, o fato de a bisavó ter morado na terceira travessa dela faz com que toda a região pertença a mim e aos meus. Da imagem da velhinha me vêm logo suas veias, em sua maioria verdes (às vezes também as roxinhas), sempre aparentes na mão inquieta pelo problema motor. Em pequena eu lhe dava um beijo apressado, recusava as incontáveis coisas que me oferecia para comer e confirmava meu nome; isso de Carinas, Carolinas e Camilas entre tantos outros nomes confundia sua cabeça branca, suave de amores familiares. Nós, os bisnetos, corríamos para o quintal onde havia uma pérgula carregada de uvas. A estrutura abrigava aventuras na floresta, danças malucas que nasciam do teto de folhas e tudo o mais que a pouca idade pode criar. Lembro que os frutinhos eram incrivelmente azedos, comíamos pelo prazer das caretas e éramos com isso felizes como pássaros em dias claros.

Se apuro os sentidos por um minuto, posso refazer esse início de anos 90. As lembranças têm cheiro fresco e uma cor verde luminosa: verde-veia, verde-uva.


Primeiro exercício feito para a oficina "Sob a pele clara das palavras", com Raquel Naveira. A proposta era escrever sobre alguma memória afetiva, fato ou lembrança marcante.

28 maio, 2012

(de)nota

Ando numas de me surpreender, por exemplo, com a lindeza desse sol que tem feito e com a coragem que o cretino tem de fazer do céu tapete em sua recepção; o outro que se exploda em azul! De bisbilhotar em olhadelas para dentro essa alegriazinha que me vem ao vê-los ambos assim se oferecendo. Digamos que seja perigo tal amarelo-claro influenciando as ideias, porque eu acabo sentindo, mesmo feita de pequenez, que preciso sair e me ser em cor e expansão feito céu. Vem uns receios, pensei em tomar nota: receio, por exemplo, de estar tão por todo lado/em toda a gente e de repente virar cheiro. Ou topar distraída (por causa do tique de arrumação) com o teu nariz enfiado no meu cabelo.

25 maio, 2012

Rastelo

Foto por Bruno Badain

Irônico, pois, tratá-los como caminhos: os sulcos profundos, que abrigam entre sujeira da rua e lembrança vaga, desembocam em qualquer coisa que se refira a barragens passadas. Passado o rastelo, com força, por cima de sua cara – esta, com corpo e tudo, colocada para fora de alguma terra. Aparentando dela cobertos, inclusive, os pelos muitos de máscara em exaustão. É de notar: ao redor da boca há uma inclinação, possivelmente nem sorriso espontâneo mas resquício genético, desses carmas que às vezes se carrega, de divulgar a cara de um outro, mais antigo ainda, que no âmago das parecenças já previa nossos erros e derrotas sucessivas. Sucessão dá o braço à imaginação não só de antigamente até hoje, mas daqui para adiante, de modo que essa ferrugem pode residir, também, em juntas mais jovens... Por exemplo em um rebento seu, alheio talvez à violência gravada em vincos pela cara do pai, mas com olhos tão escuros e pequenos quanto os dele. E com a sorte (torçamos) de não ver cair em bocados pela vida as partículas de poeira dolorida acumulada no cenho.

22 maio, 2012


– Deolinda, informou-a ele, estou a tocar no fundo.
Ela abanou o rosto em bico de tartaruga bondosa:
– Nunca mais tem fim essa descida?
(...)
– Você encontra-se (observe-me bem) por felicidade sua e infelicidade minha defronte do maior espeleólogo da depressão: oito mil metros de profundidade oceânica da tristeza, negrume de águas gelatinosas sem vida salvo um ou outro repugnante monstro sublunar de antenas, e tudo isto sem batiscafo, sem escafandro, sem oxigênio, o que significa, obviamente, que agonizo.
– Por que é que não volta para casa?, perguntou a enfermeira que possuía o sentimento prático da existência e a certeza inabalável de que ainda que a linha reta não seja forçosamente o caminho mais curto entre dois pontos é pelo menos o aconselhável à deslabirintação dos espíritos tortuosos.
(...)
– Porque não sei, porque não posso, porque não quero, porque perdi a chave, declarou à enfermeira sabendo perfeitamente que mentia.
Eu minto e ela sabe que eu minto e que eu sei que ela sabe que eu minto e aceita isso sem zanga nem sarcasmo, verificou o médico. De longe em longe cabe-nos a sorte de topar com uma pessoa assim, que gosta de nós não apesar dos nossos defeitos mas com eles, num amor simultaneamente desapiedado e fraternal, pureza de cristal de rocha, aurora de maio, vermelho de Velásquez.

António Lobo AntunesMemória de elefante

11 maio, 2012

dos curativos

me jogo num giro
me agito, não ajeito
na hora da janta.

caí de joelho!
"ah, jura? sem jeito!"
te dou um conselho:
gelo joelho
gelo joelho
gelo joelho

06 maio, 2012

pedro não sabe
mas talvez no fundo espere alguma coisa
mais linda que o mundo, maior do que o mar

Praia do Curral - Ilhabela

03 maio, 2012

périplos #2

Talvez fosse descabido dizer-lhe que penso em andanças ao mirar, deitada, suas costas descobertas se edificando verticalmente (como um território claro de areias infinitas).
Percorreria descalça a distância entre os ombros, afundando meus pés em sua carne a fim de ver se, como massinha, ela cederia à discreta pressão. A nuca, no fim dos fios ondulados, seria miragem no meio da travessia: terras perigosas sobre as quais se tecem lendas. Escorregaria pela epiderme carregando a mochila já pesada de horas leves, conversas arbitrárias e acordos mudos de liberdade.
Talvez fosse descabido dizer-lhe que eu passaria dias, necessário fosse, a procurar um caminho que fizesse de mim criatura perdida em suas costas. Um caminho em que pudesse, quando cansadinha, repousar de corpo solto, envolvendo com ele, então curvado e pequenino, suas vértebras – uma a uma.


Publicado também na Revista Mallarmargens.


28 abril, 2012

*


diz’que cobrir os pés é devido:
evita-se pedra poeira percalço.



mas que se faz, se chão colorido
pede que dance o ser descalço?

16 abril, 2012

périplos

meu corpo um maquinário de ritmos, oriundos de mil cantos, para um ponto convergindo. um maquinário em processo, em peças que não se querem frouxas mas pouco esforço fazem para se fixar, ter lugar cativo; espaço hábil ao funcionamento da engrenagem e folga suficiente para dispensar manutenções.

meu corpo algo que estrala, estica em concordância às circunstâncias externas e com mesmo empenho se contrai quando do desamparo. desajustes são as cãibras, torções propositais sempre em busca de porcos encaixes e arrepios pelo frio, silêncio conjunto sombrio ou puro desespero de ser.

meu corpo uma planície de marcas: registro da ciranda interna que corre a sujeira do sangue, comprime no centro do peito o manda-chuva vermelho (uma pontinha mais à esquerda), lateja ali abaixo do umbigo em horas inoportunas e escorre até os pés em palavras.

pelas pernas me desce a cantiga.

meu corpo morada do funcionamento circular frenético. em ciranda não danço, pisoteio. 


Publicado também na Revista Mallarmargens.

29 março, 2012

XVIII.

As sombras ficam lá e a gente sai correndo, ora. Bonitas, sim, coloriram por muito tempo as paredes ao redor. 

Mas nos próximos metros também há sóis, outros... Luz, enfim, incidindo em imagem viva que dilata a pupila. No mais, se começar a incomodar, agora já é outono e aos poucos a paisagem vai clareandinho.

16 março, 2012

*

gato gordo dormitando em cesta;
pequena demais para comportá-lo, que é preguiçoso demais para não ceder a ela.

essa leseira/esse calor é muito isso, e a gente cede a uma porção de coisas (tristes ou feias):

à não solicitude nos corredores do metrô,
à concisão de respostas sem vontade,
aos sons comumente burros de tv à tarde,
à displicência de esquecer, sempre pelo mormaço que impede ação incisiva, coisas que não se deve por aí

, por exemplo afeto no afago aos teus cabelos.

essa leseira/esse calor é muito isso:
garota qualquer preguiçando na sexta.

04 março, 2012

domingo

pudim de leite condensado, cat power, chão do quarto e cartas de até 4 anos atrás.
alô, depressão.

29 fevereiro, 2012

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.


Pablo Neruda

25 fevereiro, 2012

Ela era atriz no underground

O bom desses dias em horário de verão é que, às vezes, a vida parece retardar um pouquinho o passo para oferecer luz. São doces, pois mesmo às 18h é possível distinguir rostos sem a sensação tão forte de miopia – a visão turva em metrópole.

Notei cedo o cuidado excessivo com a bolsa. Ela disse que a gatinha preta iria também ao bar, porque precisava ser uma bichinha assim civilizada que reconhecesse em sua dona a sua casa, e não em cômodos quaisquer. Essa lucidez quanto à inconstância me faz piscar repetidas vezes os olhos (os da gatinha verde-vidrados, imensos). Saber-se viajante.

Quando ficamos reticentes por conta de algo já fazendo efeito no sangue e algo já amolecendo o coração, achei que a noite estava por fim chegando. Mas ainda por muitos minutos, entre risadas escandalosas e vozes comedidas para tratar de alguma tristezinha em tom de desabafo, pude ver o amarelo da esquina se confundindo com os fios rebeldes de cabelo dela. Sua cabeça loira também quase um astro, com populações inteiras de ações não planejadas e julgamentos livres de egoísmo. Luiza sob o sol.

Falei de Paranapiacaba, e da praia, e das horas me escapando por frestas, e da dança e da poesia e também das pessoas, da cidade. Falamos de seu novo estado pseudocivil. _Eu não sei, é complicado... são adaptações. _Pode ser uma semana ruim, né? Vai observando e deixando o tempo. _É, eu to tranquila, minha casa é uma gracinha, vamos lá depois. _Ela tá agitada. _Não se preocupa com ela, eu quero que ela passe por isso, né Macumba? E beija a gata. Penso na delicadeza e nos significados desse apego. _Encontrei ela num terreiro, por isso o nome.

Percorrido o curto caminho até a casa – a extensão da rua tem de ser suposta se são trôpegos os corpos, se a hora avança e as cabeças, por ausência de ordem contrária, vão à frente dos pés –, a gata se enrodilhou na minha blusa de lã. Eu não quis reparar muito no aparente alívio que a bichinha sentiu com a mudança de ambiente. Lá, um puff se distinguindo no chão cheio de roupas do cômodo sem móveis e, minutos depois, o pratinho de onde vinha cheiro bom. _ Cá, você tá mucho louca, isso é só queijo com orégano, linda. Uma bocarra com jeito infantil para rir de mim que não se vê em seres muitos.

Enchi seu espaço com as minhas dores e guardei as dela na minha bolsa marrom. Veja: a alça atravessando meu corpo e o peso sendo distribuído em círculo. Deixei-a na sala-quarto improvisada, por umas horas, acompanhada de umas coisas do meu coração; levei as suas também trancadas, mas exercendo pressão sobre meus ombros e o caminho de volta pra casa.

_Eu fico um pouco triste em te ver também assim.

_Quê?  – tento organizar a mente para entendê-la e descer as escadas escuras. A bem da verdade, distraio consciente mesmo a luz, que vem dela, um bocadinho. A bolsa balança colada ao meu quadril, firmo com as mãos: vou levar um pouco do que ouvi aqui, quero ajudá-la sim, quem sabe assim.

_ Verbalizar é tenso, né, Cá. Parece que as angústias ficam perto das mãos. E mesmo assim a gente não domina.

_Hum. É.

Se há laços fortes que envolvem as pessoas ainda que os encontros sejam raros não se sabe, mas treinando os olhos vê-se algo em cores, de boa extensão e curvas não simétricas (na imperfeição reside a beleza). Não entendo muito de tecidos, mas não há por que pensar, nesta vida, somente em alinhavos.


A vi há dias; pretendia ter escrito tudo naquela semana mesmo. Depois de enrolar tanto o texto, fica aqui o sumo, para que se leia em restinhos. Essa preguiça improdutiva deixa que as percepções me escapem sequencialmente. 

http://www.youtube.com/watch?v=g4Ng6sfmWEI que dá título à postagem.