29 fevereiro, 2012

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.


Pablo Neruda

25 fevereiro, 2012

Ela era atriz no underground

O bom desses dias em horário de verão é que, às vezes, a vida parece retardar um pouquinho o passo para oferecer luz. São doces, pois mesmo às 18h é possível distinguir rostos sem a sensação tão forte de miopia – a visão turva em metrópole.

Notei cedo o cuidado excessivo com a bolsa. Ela disse que a gatinha preta iria também ao bar, porque precisava ser uma bichinha assim civilizada que reconhecesse em sua dona a sua casa, e não em cômodos quaisquer. Essa lucidez quanto à inconstância me faz piscar repetidas vezes os olhos (os da gatinha verde-vidrados, imensos). Saber-se viajante.

Quando ficamos reticentes por conta de algo já fazendo efeito no sangue e algo já amolecendo o coração, achei que a noite estava por fim chegando. Mas ainda por muitos minutos, entre risadas escandalosas e vozes comedidas para tratar de alguma tristezinha em tom de desabafo, pude ver o amarelo da esquina se confundindo com os fios rebeldes de cabelo dela. Sua cabeça loira também quase um astro, com populações inteiras de ações não planejadas e julgamentos livres de egoísmo. Luiza sob o sol.

Falei de Paranapiacaba, e da praia, e das horas me escapando por frestas, e da dança e da poesia e também das pessoas, da cidade. Falamos de seu novo estado pseudocivil. _Eu não sei, é complicado... são adaptações. _Pode ser uma semana ruim, né? Vai observando e deixando o tempo. _É, eu to tranquila, minha casa é uma gracinha, vamos lá depois. _Ela tá agitada. _Não se preocupa com ela, eu quero que ela passe por isso, né Macumba? E beija a gata. Penso na delicadeza e nos significados desse apego. _Encontrei ela num terreiro, por isso o nome.

Percorrido o curto caminho até a casa – a extensão da rua tem de ser suposta se são trôpegos os corpos, se a hora avança e as cabeças, por ausência de ordem contrária, vão à frente dos pés –, a gata se enrodilhou na minha blusa de lã. Eu não quis reparar muito no aparente alívio que a bichinha sentiu com a mudança de ambiente. Lá, um puff se distinguindo no chão cheio de roupas do cômodo sem móveis e, minutos depois, o pratinho de onde vinha cheiro bom. _ Cá, você tá mucho louca, isso é só queijo com orégano, linda. Uma bocarra com jeito infantil para rir de mim que não se vê em seres muitos.

Enchi seu espaço com as minhas dores e guardei as dela na minha bolsa marrom. Veja: a alça atravessando meu corpo e o peso sendo distribuído em círculo. Deixei-a na sala-quarto improvisada, por umas horas, acompanhada de umas coisas do meu coração; levei as suas também trancadas, mas exercendo pressão sobre meus ombros e o caminho de volta pra casa.

_Eu fico um pouco triste em te ver também assim.

_Quê?  – tento organizar a mente para entendê-la e descer as escadas escuras. A bem da verdade, distraio consciente mesmo a luz, que vem dela, um bocadinho. A bolsa balança colada ao meu quadril, firmo com as mãos: vou levar um pouco do que ouvi aqui, quero ajudá-la sim, quem sabe assim.

_ Verbalizar é tenso, né, Cá. Parece que as angústias ficam perto das mãos. E mesmo assim a gente não domina.

_Hum. É.

Se há laços fortes que envolvem as pessoas ainda que os encontros sejam raros não se sabe, mas treinando os olhos vê-se algo em cores, de boa extensão e curvas não simétricas (na imperfeição reside a beleza). Não entendo muito de tecidos, mas não há por que pensar, nesta vida, somente em alinhavos.


A vi há dias; pretendia ter escrito tudo naquela semana mesmo. Depois de enrolar tanto o texto, fica aqui o sumo, para que se leia em restinhos. Essa preguiça improdutiva deixa que as percepções me escapem sequencialmente. 

http://www.youtube.com/watch?v=g4Ng6sfmWEI que dá título à postagem.

11 fevereiro, 2012

Delphinium, por Karl Blossfeldt. Fotogravura de 1928.
: não teríamos frutos!
: nos geramos em nós.
: não teríamos frutos, mas nos geramos em nós: e floresce.
: mesmo que não nasça flor para cuidarmos. mesmo que, encravada em peles asfaltadas, ela nasça para dentro.
: em asfalto ou em pele, são superfícies, veja. passíveis de ferimento pelos nasceres. passíveis também da ação do vento (existência dos outros). e são flores todos.
: e se todos florescem, por que não viro terra? por que não deixo florescerem em mim? já disse que sou seca; como o sertão, rachada. mesmo que chova, não umedeço. às vezes, sou tempestade de areia.
: é terra; mas há também areia incrustada, como que carapaça. é esperar a ação da chuva, que haverá você de fazer? eu aqui sou terra que se oferece e fornece substrato. mas olho para baixo, percebo e me queixo e me queixo e me queixo.
: sendo terra, olhando para baixo só inferno.



dos diálogos poéticos que não se deve jogar fora. entre mim e ela-Graci, pelo facebook.
imagem daqui.