28 maio, 2012

(de)nota

Ando numas de me surpreender, por exemplo, com a lindeza desse sol que tem feito e com a coragem que o cretino tem de fazer do céu tapete em sua recepção; o outro que se exploda em azul! De bisbilhotar em olhadelas para dentro essa alegriazinha que me vem ao vê-los ambos assim se oferecendo. Digamos que seja perigo tal amarelo-claro influenciando as ideias, porque eu acabo sentindo, mesmo feita de pequenez, que preciso sair e me ser em cor e expansão feito céu. Vem uns receios, pensei em tomar nota: receio, por exemplo, de estar tão por todo lado/em toda a gente e de repente virar cheiro. Ou topar distraída (por causa do tique de arrumação) com o teu nariz enfiado no meu cabelo.

25 maio, 2012

Rastelo

Foto por Bruno Badain

Irônico, pois, tratá-los como caminhos: os sulcos profundos, que abrigam entre sujeira da rua e lembrança vaga, desembocam em qualquer coisa que se refira a barragens passadas. Passado o rastelo, com força, por cima de sua cara – esta, com corpo e tudo, colocada para fora de alguma terra. Aparentando dela cobertos, inclusive, os pelos muitos de máscara em exaustão. É de notar: ao redor da boca há uma inclinação, possivelmente nem sorriso espontâneo mas resquício genético, desses carmas que às vezes se carrega, de divulgar a cara de um outro, mais antigo ainda, que no âmago das parecenças já previa nossos erros e derrotas sucessivas. Sucessão dá o braço à imaginação não só de antigamente até hoje, mas daqui para adiante, de modo que essa ferrugem pode residir, também, em juntas mais jovens... Por exemplo em um rebento seu, alheio talvez à violência gravada em vincos pela cara do pai, mas com olhos tão escuros e pequenos quanto os dele. E com a sorte (torçamos) de não ver cair em bocados pela vida as partículas de poeira dolorida acumulada no cenho.

22 maio, 2012


– Deolinda, informou-a ele, estou a tocar no fundo.
Ela abanou o rosto em bico de tartaruga bondosa:
– Nunca mais tem fim essa descida?
(...)
– Você encontra-se (observe-me bem) por felicidade sua e infelicidade minha defronte do maior espeleólogo da depressão: oito mil metros de profundidade oceânica da tristeza, negrume de águas gelatinosas sem vida salvo um ou outro repugnante monstro sublunar de antenas, e tudo isto sem batiscafo, sem escafandro, sem oxigênio, o que significa, obviamente, que agonizo.
– Por que é que não volta para casa?, perguntou a enfermeira que possuía o sentimento prático da existência e a certeza inabalável de que ainda que a linha reta não seja forçosamente o caminho mais curto entre dois pontos é pelo menos o aconselhável à deslabirintação dos espíritos tortuosos.
(...)
– Porque não sei, porque não posso, porque não quero, porque perdi a chave, declarou à enfermeira sabendo perfeitamente que mentia.
Eu minto e ela sabe que eu minto e que eu sei que ela sabe que eu minto e aceita isso sem zanga nem sarcasmo, verificou o médico. De longe em longe cabe-nos a sorte de topar com uma pessoa assim, que gosta de nós não apesar dos nossos defeitos mas com eles, num amor simultaneamente desapiedado e fraternal, pureza de cristal de rocha, aurora de maio, vermelho de Velásquez.

António Lobo AntunesMemória de elefante

11 maio, 2012

dos curativos

me jogo num giro
me agito, não ajeito
na hora da janta.

caí de joelho!
"ah, jura? sem jeito!"
te dou um conselho:
gelo joelho
gelo joelho
gelo joelho

06 maio, 2012

pedro não sabe
mas talvez no fundo espere alguma coisa
mais linda que o mundo, maior do que o mar

Praia do Curral - Ilhabela

03 maio, 2012

périplos #2

Talvez fosse descabido dizer-lhe que penso em andanças ao mirar, deitada, suas costas descobertas se edificando verticalmente (como um território claro de areias infinitas).
Percorreria descalça a distância entre os ombros, afundando meus pés em sua carne a fim de ver se, como massinha, ela cederia à discreta pressão. A nuca, no fim dos fios ondulados, seria miragem no meio da travessia: terras perigosas sobre as quais se tecem lendas. Escorregaria pela epiderme carregando a mochila já pesada de horas leves, conversas arbitrárias e acordos mudos de liberdade.
Talvez fosse descabido dizer-lhe que eu passaria dias, necessário fosse, a procurar um caminho que fizesse de mim criatura perdida em suas costas. Um caminho em que pudesse, quando cansadinha, repousar de corpo solto, envolvendo com ele, então curvado e pequenino, suas vértebras – uma a uma.


Publicado também na Revista Mallarmargens.