30 junho, 2012

26 junho, 2012

Letrada

Perco versos,
pois se te ponho neles:
possessiva.
 
Nomeio tuas partes
(a métrica clara, os meus toques irregulares)
e te conjugo.
 
Antes enveredava
a olhos fechados
por trilhas defectivas.
 
Dos meus verbos de ligação,
hoje a ti o escolhido:
permanecer.




Poema de amorzinho feito na oficina "Sob a pele clara das palavras". 

20 junho, 2012

lassidão~labilidade

o moço no metrô fez um muxoxo em resposta à outra que reclamava estridente
suas costas enormes.
mas o que senti mesmo com sua expressão foi um
ô moça, eu não te empurrei não, que a vida já tá demais dolorida.
~
seu tom chocho seria o mesmo que mora nos olhos do boliviano sumido
no cartaz do poste. tem uma cicatriz na cabeça, vestia roupa bege e uma boina.
NÃO FALA PORTUGUÊS.
~
eu que falo, depois de fitar a cara do sumido, tentava decifrar o outro papel, abaixo,
comido pela chuva.
Vaga par   moça, facil a  sso perto do m trô Santa Cecília
~
na angústia de um rumo, penso que deve ser acalentador
assim na chuva ter um quartinho com abajur e lâmpada de cor quente
na Santa Cecília.
sim, pois há dias em que não penso morar sob os seus cílios,
e quando sim, é porque faz sol bruto, reparo que são longos e por quase um centímetro
oferecem sombra.


Trecho publicado na Revista Um Conto.

14 junho, 2012

Calendário tem os pés gelados;
ajusta os óculos,
aquece o café,
alinha debaixo da cama os chinelos.
E tem bem atento no travesseiro o ruído dos cômodos
que despertam mimetizando o tempo dos homens.

Em soslaios de curiosidade vaga
registra a agitação das não mansardas;
nelas, pessoas que amam sem pudor
e recusam balas de camomila.
Há peitos escancarados às janelas
e toda sorte de ousadias
que não competem a Calendário.

Dorme lento,
e porque tranca nas pálpebras sua vida,
a estranha ordem das coisas o impede
de existir fora do tempo exato.

Ou de virar
fabulário.



Outro exercício da oficina "Sob a pele clara das palavras". O tema era o cotidiano. Fazer poema é tão difícil para mim que nem título consegui criar. Fica aqui a derrota confessa.

11 junho, 2012

Rasante em rima para bailarina



I. do incômodo

Na superfície de terra e de equilíbrio dúbio espero o trem. Um sopro forte me balança: lá vem.

(Arrumo o cabelo.)

As paredes do túnel correndo meus olhos lembram argila – e vasos os corpinhos ali, compactados em massas de rotina.

Nova lufada bruta, mas pela janela.

(Arrumo o cabelo.)


II. da imersão

Agora, ao deslizar no espaço, procuro eixo. Não reclamo da chuva, pago as contas do celular, penso no corpo perdido e fluido (é que tenho também planos de nadar). Pense: 

a pupila aguada

a carne de um azul fresco

a dança sem atrito

o estalido calmo de um beijo.



III. pairar

Céu em mira, me lanço. E desabo com o peso da cidade. Engasgada com a fumaça e por ela pendurada até o fundo da goela.

A goela que é rosa, rosa a fumaça e as fitas, os passos mal executados. Odeio a cor, mas há tons que tardam, e aqui um desespero de esperar.   

– Estenda as mãos encontre o centro alongue o tronco!
E se perco o ar?




Segundo exercício feito para a oficina "Sob a pele clara das palavras", com Raquel Naveira. Desta vez, o tema era o "eu", o autoconhecimento. Difícil. E ainda não sei se satisfatório.

Publicado também no Portal Cronópios.

07 junho, 2012

Videira

Chegando em casa depois do passeio bairrista – raro, reconheço –, penso que não importa o ponto em que eu esteja na rua silenciosa quadra acima, o fato de a bisavó ter morado na terceira travessa dela faz com que toda a região pertença a mim e aos meus. Da imagem da velhinha me vêm logo suas veias, em sua maioria verdes (às vezes também as roxinhas), sempre aparentes na mão inquieta pelo problema motor. Em pequena eu lhe dava um beijo apressado, recusava as incontáveis coisas que me oferecia para comer e confirmava meu nome; isso de Carinas, Carolinas e Camilas entre tantos outros nomes confundia sua cabeça branca, suave de amores familiares. Nós, os bisnetos, corríamos para o quintal onde havia uma pérgula carregada de uvas. A estrutura abrigava aventuras na floresta, danças malucas que nasciam do teto de folhas e tudo o mais que a pouca idade pode criar. Lembro que os frutinhos eram incrivelmente azedos, comíamos pelo prazer das caretas e éramos com isso felizes como pássaros em dias claros.

Se apuro os sentidos por um minuto, posso refazer esse início de anos 90. As lembranças têm cheiro fresco e uma cor verde luminosa: verde-veia, verde-uva.


Primeiro exercício feito para a oficina "Sob a pele clara das palavras", com Raquel Naveira. A proposta era escrever sobre alguma memória afetiva, fato ou lembrança marcante.