26 julho, 2012

apelo ao desapego

vez em quando tinha uns quês de sumir,
deixava o homem falar sozinho
e voltava a vida pro umbigo.

largava em qualquer braço o filho,
o andador da tia por comprar,
e perseguia algum amigo 
(essa mania também tinha).

descambava para conversa de bar,
soneca proibida à tarde,
ou, vez em quando, uma rapidinha.

24 julho, 2012

Todo cambia

O homem respira pesado na cozinha, as veias saltadas no braço forte mesmo sendo o corpo magro, a careta refletida no vidro da janela lavada da luz noturna. Não chora, embora sejam os tempos difíceis que às vezes latejam no peito e embora os sinais físicos sejam quase os mesmos. Corta algo, rapadura ou chocolate em grande barra – as heranças que deixa o tabaco ao ver-se abandonado –, com a força que empregaria nas máquinas, com a força não sabida contra coisas que parecem erradas, mas sobre as quais não tem muita certeza, não. Os poucos graus gelam o cômodo e embaçam a lâmina do talher que repousa ao lado do doce já em pedaços. Ele estaria de cueca, ainda assim, não fosse ter descoberto recentemente que até gosta de pijamas e cedido ao aconchego desse presente da mulher. Nos últimos dias os sons que produz não têm ido além dos ruídos quando em contato com objetos da casa e do arrastar dos chinelos (nunca com aquela repartição para o dedo maior); da garganta só leves pigarros e alguns monossílabos, quando necessário. Em outro espaço, um rádio-relógio velho com as horas estampadas em vermelho sussurra qualquer coisa sobre deus não abandonar seus filhos.

A moça organiza ingressos de cinema no quarto, em sua maioria duplos, porque rapazes não têm essas frescuras de colecionar e acabam esquecendo-os no bolso alheio. Rasga a cópia de cada um e lamenta que dos papéis não saia cheiro fresco e tão verde como de algumas folhas mais espessas quando privadas de sua inteireza, a vida ali brilhando interrompida. O calor das mantas sob a cama não se sobrepõe à gelidez do ar, que reage de modo incisivo contra as pontas dos dedos das mãos e dos pés. O corpo balança para espantar o frio, em descompasso, porém – há uma dor concentrada nas costas, carente de um daqueles equipamentos de exercício que estralam tudo, da lombar aos sonhos (silenciosos nos últimos dias). Ela estaria aquecida, fossem os elementos da astrologia condizentes com o que sua natureza suposta prega; sabe-se que são belas idiotices... Têm movimento e sonoridade, quando na boca dos homens, os signos de fogo.


Em algumas noites, seja pela visão turva de invisibilidades afetivas ou pelas nuvens de angústia coletiva, não é possível ver a Lua.


http://www.youtube.com/watch?v=g8VqIFSrFUU porque sim.

19 julho, 2012

Chão molhado, tênis velho e medo infundado dissolvem poesia, essa encheção de saco toda. Vem na cabeça um escorregão terrível, membros repousando tortos com som seco – cotovelo prum lado, mão virada pro outro –, nuca batendo no piso liso, POW!!!, tudo estourando, quebrada a manhã, eu morta antes de comer o bolinho de baunilha que comprei sem gostar porque não tinha de chocolate, a nota de 2 com uma mancha escrota à mostra no bolso, todo mundo chocado, _Estava assim com o guarda-chuva ali assim, um pouco atrapalhada, mas só, não viu a árvore, bateu a cara nos galhos, daí escorregou e morreu, pronto. _Foi muito de repente...

12 julho, 2012

E quase que eu me esqueci que o tempo não para nem vai esperar

Nem sempre o saldo mental é positivo (tratando de contabilidades) quando se volta para casa. Ficam cravadas na pele as piadas que o são só porque, caso fossem conversa séria, desesperariam, provocariam medo, choro... E você sabe como é inconveniente entristecer no rolê. Valeu o teu pique apenas para chover no meu piquenique.

Hoje a pequena mais importante da minha vida completa meio século de existência doce – tão tão que dá a impressão de que, no fim (que quero bem longe), ela provavelmente não vai virar pó de volta, mas caramelo.

Cedinho, enquanto mastigava o pão, aproveitei para ir remoendo bem as pequenas memórias de que tal e tal coisa não fazem qualquer sentido ou sequer aliviam a carga dos todos-os-ombros – lucidez súbita que vem em bocados nos muitos momentos de distração pelas ruas. Fico pensando se esses insightzinhos, quando forem numerosos daqui a anos, vão resultar em uma sabedoria com consistência de rinoceronte, ou se são fantasmas de matéria facilmente dissolúvel. É fato que enquanto atuais, assombram.

Não tinha lhe parabenizado ainda. Separei em dois blocos os primeiros minutos do acordar: a razão para mim e a emoção para ela. Claro que necessariamente nesta ordem. Então depois do primeiro processo fiquei ali por um minuto no pescoço dela; hoje quero comprar uma echarpe colorida daquelas bem bonitas para envolvê-lo, disse que te amo e que conta comigo tá.

Abracei, respirei, fui pro banheiro, respirei, desliguei a cabeça, chorei pelo eco do tom que ela diz "filha". O tempo está mais ameno, então não foi tão difícil ficar pelada para o banho hoje. Não te é assim custoso livrar o corpo da veste do dia anterior que carrega aquele suposto saldo, os cheiros e a temperatura do que possivelmente nem são erros, preste atenção. Tem a água do chuveiro. (Tem também que choveu no caminho para o trabalho.)

11 julho, 2012

assovia

acordei querendo tirar do seu bico
coisa que fosse vida,
que levasse em rasante
melodias pra tristeza sem fim.

escapasse das g|r|a|d|e|s do realejo
um sonzinho verde-ousado.

talvez...
um lema em tupiniquim?

ou coisa com jeito de
: provérbio de pasto
: sussurro de açude
: cantiga no bandolim.

porque verso (de repente) faz a manhã doce,
e se a prosa for pura,
é mais bonito ainda, passarim.