22 agosto, 2012

Pra ver sinal não precisa binóculo

Hoje no coletivo havia um rapaz com uma pinta centralizada bem na pontinha do nariz. À sua frente, naquele aperto do transporte às oito da manhã, uma mulherzinha japonesa com uma pinta ao lado da extremidade esquerda da boca. Ambas as pintas notáveis e graciosas; nasceram para aqueles rostos.

(Hoje nasci para vestido florido e blusa com furos em formato de coração.)

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Quis dizer ao rapaz: olha, você é lindo na sua juventude com jaqueta grossa e seus óculos escuros, é lindo seu cabelo bagunçado, juro.

Quis dizer à mulherzinha: olha, você é mesmo linda no seu chanel com fios lisos, lindos seu nariz pequetito e suas pálpebras sem risco.


As suas pintinhas deveriam se conhecer.

21 agosto, 2012

Novela

na gaveta há um cachecol não terminado
(verde, de tricô)
cinco anos de agulhas fincadas
talvez que perdi o ritmo
talvez emaranhei o amor

20 agosto, 2012

Espaços no mapa


Súbito penso que talvez devesse mudar de lugar. A luz entrando sempre pelas mesmas frestas, as paredes tão sem possibilidades, meus livros se multiplicando queridos, mas ali tão apertadinhos...
Olho os títulos. Dali para um verso já decorado (tantos!) martelar não leva nada: tu podes ir e ainda que se mova o trem TU NÃO TE MOVES DE TI. Voltando às questões práticas de não poesia – preciso mesmo parar –, corro para o chuveiro. Esse calor bruto dá moleza na gente, atrapalha as ideias.

Minutos depois o espelho está embaçado. Limpo tudo.
Já mais fresca, abro a janela procurando vento; puxo os cabelos para trás e prendo como se pode; passo as mãos pela cara e abro muito os olhos.
(Só enxergo mal de longe.) Vi bem o reflexo. Não me movo de mim.

Bafejo o espelho.


Texto de outra estação. Ainda cabível. Só não chegou o calor forte.

18 agosto, 2012

Fluxo-Floema, Hilda Hilst.

Na última página do livro da biblioteca.










15 agosto, 2012

Se o dia acordava silencioso, Lúcia sentava-se à mesa nas primeiras horas de claridade e ali explorava de modo sutil um humor amarelo-fosco.

Soprar, por exemplo, uma minúscula formiga que atravessa as margaridas da toalha, a fim de vê-la em desespero tamanho como se um insight de fuga... Como se em súbito movimento de mãozinhas à cabeça percebesse que na estrada há, céus!, muito, muito mais que percorrer, e o caminho é de assombrosos juncos, e sua condição algo infinitamente distante de criatura alada...

Terminando o chocolate, grudava os lábios no dorso da mão no mesmo minuto, misturando os sentidos do silêncio em travessia: o gosto restante na língua, o calor da mucosa.

14 agosto, 2012

se eu fosse artesã e pudesse criar

me botava besta
de babar por uma moça
de beleza tão boa,
mas cara tão boba.

cansei de besteira
e bati o pé:
– ou beijo ou bota!

bailou na minha braveza
não ficou de blablablá 
e me deu logo um botão.

09 agosto, 2012

banho em cachorro louco

li que este mês tem um dia do diabo.

você chegou em casa com uma sede inacreditável, ou com qualquer outra coisa passível de um adjetivo forteimportante que pula do tapetinho encardido da porta para os pés – adentrando a casa toda essa forçaimportância de urgência física –, e devorou uma pêra como se sumo fosse hóstia. ai, graças a deus compraram. lavou a cara do líquido adocicado, soçobrando um dia inteiro, submergindo afeto gasto, sibilando fúria quando minha lembrança escorria pelo queixo. nadar dá sede. aquela água clorada indigesta.

fico no fundo da piscina por poucos segundos. a cabeça aguada, pensamentos azuis. ali só há ausência de urgências. os sentidos se vão devagar. minha pele enruga até que o corpo feche a si mesmo. 

s u m o.

com isso dos calendários é pôr cautela nas coisas todas para evitar desgosto, correr do escuro, mergulhar na cama. (um beco de corpo para meter a cara medrosa resolveria muita ou pouca merda?)

quero achar meu maiô, tive um dia dos diabos.

05 agosto, 2012

pouso rápido para a(ca)lento

desconfiada sempre
de uma parte do teu corpo
que eu adoraria. 

por tua mão fria
não tinha acesso:
uns toques poucos
mas os sentidos todos.
não entendia...

eu ia sentido coração
pelo teu poema circulatório.
por fim descobri a esquina
do fim do pescoço
com o ombro...

na ciência deve ter nome
esse destino procurado
veia a veia.

para mim é o lugar 
em que o rosto encontra calor 
e se acalma
a cabeça cheia.

03 agosto, 2012

E bom dia.


"Porque um enorme fervor se aguça em mim, eu Tadeu, de joelhos te peço que OUVE, Rute, que me escutes: como se um rio grosso encharcasse os juncos e eles mergulhassem no espírito das águas, como se tudo, luta repouso dentro de mim se entranhasse, como se a pedra fosse minha própria alma viva, assim minha vida, olho espiralado olhando o mundo, volúpia de estar vivo, ouve Rute o que se passa quando os meus olhos se abrem na manhã (...)"


Trecho inicial do impressionante "Tu não te moves de ti", da Hilda Hilst. (Tenho comigo decorado.) Foto minha.

01 agosto, 2012

tenho 22 anos,

já vi pavão antes.

vi um pavão outro dia com um pescoço de um azul que eu nunca tinha visto, nunca mesmo. (tava de leque fechado mesmo, não tem nada a ver com aquele rabinho decorado.)

cintilavam umas nuances ali, e não fazia sol no dia nem a luz tava tão boa.
se a gente tivesse um pedaço de corpo cintilante assim, ninguém precisaria de olho.