26 setembro, 2012

Porque vejo que ainda não me ponho, pouco me considero e tanto dependo que jorram minúcias inúteis, falta a coragem para dizer de boca cheia

meu amor.

E uma vontade misturada com culpa pela não comunicação de coisas importantes, como o fato de ter entrado um passarinho pelo corredor enquanto eu trabalhava. Impressionante sua desorientação, o voo desesperado procurando rua. Como é que entrou? Como fez caminho tão humano, curvas de cômodos? Não terminavam os meus ais por ele, e fui atrás. Parou em uma estante, no alto; os olhos estariam arregalados se não fossem sempre aquelas continhas pretas de um se perder tão bonito e pungente. Portas abertas, falava coisas imbecis, “vai bichinho, olha ali a rua, o que foi?, neném, vai emborinha!”. Disseram que só entram assim em construções quando estão doentes. Fez ainda um rasante tonto, bateu com a cara em livros, e no batente, e foi ao chão. Dali correu naqueles saltos minúsculos por centímetros do tapete, e foi-se voando baixo.

Ficou-me o barulho das asas batendo no corpo, que batia nas paredes. E a esse símbolo me liguei, e tanto que não pude dele tratar, inexplicáveis os trajetos dos sentimentos desorientados. Não há motivo racional para a angústia da analogia com o pequeno ser de aspecto moreno e débil. Sem eixo ou asa com que cobrir a cara.

21 setembro, 2012

à mulherzinha vetaram o gosto por geleia
cuide quem sabe de gestos fluidos nessa arte de pães e biscoitos
era uma cena para dias claros e paladares com pupila, não papila

impossibilitadas suas mãos, ela por extensão
a dor do pulso aos nós em um latejo só
dolorido
o tremor descontrolado ficava sob cortinas brancas quando havia visitas

mesmo em pele morena tão saltadas eram as veias
que, pensando em consistências aquosas de café da manhã,
pela cor de cada segmento do antebraço seria ela, nesta ordem de sabores,

amora e limão maduro

20 setembro, 2012

No dia em que julgou seu rosto maduro suficientemente para as buscas (até maduro demais, sem lhe parecer belo), jogou-se no mundo. Pois que a chave pesou no bolso e as portas subitamente pareceram enferrujadas, embora as paredes tivessem atrativos em cor, e o ar fosse respirável em limites de amor. No dia em que julgou não precisar de chave, ainda que ferisse as mãos no romper das madeiras rudes, tirou as roupas, pariu um verso, criou um canto, e a chave jogou-se no mar.

12 setembro, 2012

Um caminho de palavras




Sem dizer o fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são  ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.


António Ramos Rosa

05 setembro, 2012

porque me é assustadora e inconcebível a ideia de a mente não ceder. ao cansaço da carne, ao estado etéreo; veja essa palavra: etéreo. do desligamento.

a insônia é teu desespero nas fuças por ser só.

palpitações, sim, maluquices ignoradas se colocadas à luz porque de repente não te é mais natural fechar os olhos e ir-se. (nesse mar, na preguiça que dá.) fico etérea. queria ter certeza de que há alguém que não se importaria, que não me xingaria secretamente se eu telefonasse para pedir que, por favor, deixe que eu leia para ti os poemas mais bonitos que conheço até que o sono chegue. fone pousado, seriam mentira a demora, as luzes do espírito atônitas – a necessidade de encarar no dia seguinte e engolir todo apelo.



pensei em macadâmias
como gostei de provar e a consistência engraçada da semente:
não dá pra saber
se quebra
ou desfaz

. . .

ficam vestígios de poesia
no céu da boca

depois de ler cereais assim
e a língua que . . . 


03 setembro, 2012

Por algumas marquinhas na pele havia a impressão de caminhos mortos, sem amigos que caminhassem por ali, uma falta de circulação expressiva. Afetiva.
Às vezes dava a impressão.

(Antes, vivo das observações sobre eles, suas manias suas lembranças – delas sou formada e por esse vitral dá para ver.)

*

Explicou que tinha uma tartaruga (que adora tomate tanto quanto eu) porque nascera com problemas respiratórios e os benefícios pela criação do bicho eram uma crença da família. Andava assobiando por uma mania de anos e assegurava que dessa pequena felicidade viveria, acrescentando-se a ela boa comida e um baseadinho quando calhasse, por favor. Determinou o fim da infância pela partida de um ascendente seu, e gravou essa ideia na minha cabeça como quem avisa ter aberto o semáforo. Lamentou a aceleração repentina nos gestos e a alergia nos dedos se alastrando (eu querendo dizer que a calma não deve ser muito difícil de segurar, mas sem certeza). _Perdi a digital, perdi. Não passo mais o papel assim, escapa, perco.

*

Tivesse todos acessíveis em carne, diria que ao dormir tarde demais outro dia (outra madrugada) tive perdão ao devorar um pão de milho, mas talvez nem fosse epifania aquilo; que estive febril sem certeza de procurar cura, pelo estado que não chega a ser agradável mas é curioso, o de entorpecimento do corpo doente; que pintar as unhas dos pés é de um ridículo divertido sim senhor; que quero também ouvir o que querem dizer; que teorias sobre a falta só vão bem para o cu de quem não vive de solidão-não tem saudade forte; que eles, todos (VOCÊ), vocês ocasionalmente se organizam na parte superior das costas, entre as escápulas. 

E escapam. Aproximo ambas e o barulho não vem, o estalo pelo atrito. Fica sem tanta força o eixo que me daria postura ereta.