19 outubro, 2012

trocava fonemas pela beleza dos sons
e a censura não, não havia.
~
por que as mãos esfoladas se era raso?
por quais veredas não se desagua?
~
pleno banho e falava aos insetos de surpreender-me ainda com os horrores que em mim há, não sabidos. esfolam os sonhos como palha de aço. quisera-os, pós abrir dos olhos, diluídos.
e quisera pelo cabelo tivesse escorrido todo o desespero.
~
~
~
mas isto é palratório da enganação.
isto é para não sonhar.

15 outubro, 2012

Líquido

Não chove há oitenta dias,
e as canelas da poesia estão rachadas.

*

Quando a água veio, levou dos homens o torpor de capa amarela. Levou das vias respiratórias a moleza das três da tarde, o domingo incrustado nas paredes da garganta. Umedeceu os desejos poeirentos que secaram a pupila: ardia tanto que os homens pediram por uma insolação que legitimasse a perturbação das ideias, ou um frio cortante que travasse as juntas, justificando assim suas fracas vontades. A secura do ar lhes pesava como se houvessem despejado um caminhão inteiro de melancolia sobre os narizes agora sangrentos, sobre os peitos arfando sem ruído, mas com nítida expressão de desconsolo – as mãos se uniam a procurar umidade em alguns pontos do colo. Quando a água veio, os olhos de cada bueiro lacrimejaram em aquarela cor de terracota, que transbordou corrente para a sarjeta. 

*

Mas os homens se desacostumaram à vida em que o clima não era motivo para o mal-estar, a culpa pelos não feitos, a falta de amor. E passaram a manter tal existência seca, incerta de si. Liquidada.



Texto publicado na segunda edição da Revista Trevo, aqui (p.33).

05 outubro, 2012

a preocupação está para quilos.

pele boa no ventre reto, pela manhã;
chocolate de presente;
uma menina que, de perfil, me arrebata.

é ruim a necessidade de pequenos fatos que sustentem.