29 novembro, 2012

.despojamento

sonâmbula, arrancara a blusa deixando sob a manta uma miragem de pele crua. cotidiano e aborrecimento debaixo da cama subiram-lhe pelo colo como coisa volátil – um em cada bico, aquietando-se.


.película

gelada, caminhava no piso frio em pés de ave, tamanha a rarefação das vontades. os braços ondulavam paralelos ao corpo, e com mãos abertas, como se a vida fosse sugestão. eram então órfãs a exatidão, as grandes verdades, a utilidade de objetos, tudo envolto em uma irresponsabilidade doce porque o peito não arfava.


.consistência

trajada de dia, perdeu a maciez do tato, a temperatura amena... amarrotado existir azul. sem delicadeza de pena.
sem tronco nu.

22 novembro, 2012

Luzem cacos, tilintar

Em dupla junção dos lábios vislumbro tua alma de vidro: abajur de bola de gude
Explico porque Morfeu assume contorno de luz, o teu primeiro suspiro pesou longo no espaço-corpo de penumbra que ofereço. Houve ainda um facho a transpassar paredes geminadas em ruídos de louça, percebes? E a velha vizinha, louca, a trincar cada lance meu ao teu sono – que me canso, que padeço.

A pluma... sustenta globo de cor tão dúbia?
Foram limpas as mãos na derradeira jogada?

Tardio apagar das luzes haveria de nivelar as fundas trilhas do peito, mas antecipas um pesadelo meu refletido, e, responsável, triturei partículas cortantes; acordada.

19 novembro, 2012

eu lírico

concluí, olhos apertados:
dói é nos canais suspensos

o cão da casa (por exemplo)
junta as patas na cabeça
e geme
os quatorze anos que lhe entram pelo ouvido

um pacto dormente meu arquejar
porque, durante o sono,
o corpo não tem certezas. pudera:
horas de bruços e do peito, lembrei,
fiz corredeira

tais as olheiras

diabo de choro, sim, rosto disforme até
a reconhecer-se de minuto
só no que é profundo

no mais, depois dos olhos abertos
tanto quanto podiam num dégradé
de poros escurecidos,
lamenta-se

.o preço dos tomates-cereja
.a pintura da casa (uma cor tão feia! cor de gaitista sonolento em garoa
fria. calcule quão antiquada é essa imagem)
.as plantas que secam
.a carne tão fraca, os restos do pouco

e a minha falta de etiqueta:
oh, desculpe o não comparecimento!
nestes copos há menos que um dedo de coragem
e a má postura faz que me doam as costas
por dias inteiros

cotovelos na mesa, mirei o sol com lupa;
meus olhos sumiram
numa ardência de verbo lenta
e assim articulamos ambos:

de.ti um poema do dia
de mim
a ti


Poema publicado na Revista Mallarmargens.

13 novembro, 2012

E se minha alma tombou, por que permanece o esqueleto?

Que frágil o corpo diante das perturbações flutuantes.

Desde tão cedo o chão frio agride a sola e o ventre logo mais relaxa, se expandindo. O ventre é uma coisa que acorda lisa e reta como as folhas sem pecado. Só que nas entranhas o diabo.
Ontem eu me inclinava tanto olhando pros trilhos que um moço perguntou se passava mal. Assustei, neguei, agradeci. Eu podia ter contado que me sinto mal por vezes, mas que aquela mirada perigosa era só plano para fotografia. E a vida dele, faz passar mal alguma vez? Aquela face um pouco torta foi de um mal que o acometeu? E doeu?
Na mesa de almoço compartilhada uma desconhecida fala, ai, da sujeira do litoral sul, ai, as pessoas sujam tudo. As pessoas nunca somos nós. Tudo o que é vil transformado em entidade em uma garfada de carne suína boca adentro – fáceis assim os preâmbulos, o dia que corre, a chuva que corre nele, o fim. Dormir.

E que ternura as marcas de dormir na pele. Vão-se embora com a sutileza dos planos incertos, cada sulco raso se enchendo de tempo. Penso que tristezas deixem cortes profundos, nunca passíveis de curativo em curto prazo. Internos. A carne exterioriza; ela um mundo ali convulso.

 
[Título do post: Neruda]

01 novembro, 2012

dia a dia
é um calor que...
é um peso que me...

ai

de angústia
o dia-gnóstico
é-nó
é-duro
é-nódulo
moldura?
nó emoldurado
no teu seio

porque não entendo de curas,
com amor calo as amarguras
doo cuidado
e palavreio