17 dezembro, 2013

por exemplo


lembro rapidamente como me falta tempo quando não posso contar quantos pontos do tricô a gotinha da minha menstruação atingiu no tapete do banheiro.

08 dezembro, 2013

canção noturna para melodia nenhuma

dois dos muitos pontos de brilho no asfalto
distorcem sutilmente o reflexo da lua
(que tudo o que tem de nua,
pede chuva)

as noites de súbito úmidas
são um balé com corpos tortos
e eu não sei em que ponto do tronco
foco o guarda-chuva para o que não me revela
o outro

tudo o que nunca revelará

- diz'que pra atrair mirada
fixa-se um ponto na nuca
e, com um tempo,
a pessoa olha.

(mas não há tempos)

fugisse das pessoas ligeiro
corria a noite, solta
e fixava era o mar

21 novembro, 2013

quão grande é o espaço entre mim e o que não me revela o outro?

18 novembro, 2013

mãe comprou uma caixinha de gelatina vazia sem perceberem ela e a mocinha do caixa – eu ri. parece cotidiano carregarmos coisas vazias à casa para a percepção vir após. por falar em perceber, preciso muito d'umas lentes, fiz um poema com algo sobre olhos mas não tenho o poema porque as coisas não são minhas, nenhumas. as pessoas também não e ainda bem, é muito difícil porque apesar disso elas estão dentro de nós no profundo, mas ainda bem mesmo que não são.
levantei de um pulo por um sonho de ojeriza a um inseto, à barata. acordei já de pé aos gritos e pensei no cavalo, mas é o oposto: dorme em pé, deve despertar de sustos deitado, a sua forma grande e errônea do sono desordenado imagino esticada no chão. patas em movimento.
acho que desisti da calma escrita porque ela não existe na minha veia e não vai não parece que vai. então combinamos de nos visitar mas sem mentiras.




a poesia lembra uma bola que não se joga de volta e eu perdi a mão faz dias.

de toda forma, nunca fui boa nos esportes:
uma estrutura delgada que não comporta

então para ela não estou fechada, mas a vejo em minúcias
em miudinho de dia ainda me entrego, acho que sou fácil
abro pernas e portas

A tua roupa de dentro

Doíam seus olhos. Atrás, onde começam. São bolas, sim, mas têm um começo no espaço desconhecido. Muitas coisas começam assim imperceptíveis aos homens, com funções bem definidas e alinhavos limitadores por toda a superfície – às vezes desrespeitados e sabotados, é bem verdade. Nesse local ocorrem as dores. 180º (cento e oitenta graus) de uma consistência esquisita: lantejoulas imensas em cores, orbitando de lucidez pretensa, porque imagem não é tudo, não, senhor.

No sonho, cegava. Cegava para uma negação de tons intensos, cegava nos lençóis cinza-chumbo de cama estreita masculina, aquilo mesmo um casulo sem saídas por cima ou baixo. Ausência de asas e, apesar disso, impressão de uma vida muito tátil. Pulsante. Se vinte somavam as madeiras do estrado, vinte as marcas nas costas, profundas, cujos contornos se faziam vales para o passeio das mãos em desespero, cegas também elas das impressões imediatas.

Despertar pode ser verbo sem rumo entre o cílio e a digital.

Quando saiu à rua, viu primeiro com satisfação as raízes de uma árvore que, de tão vivas, estouravam a calçada. Olhou para a copa, contra o sol (para a cegueira real, a ilusão ótica do ar em brilhinhos sob o astro amarelo é coisa pouca); distinguiu as cores mesmo sendo inverno. Tivesse que reconhecer as flores pelo tato, estraçalharia todas, desde as maduras até os malditos botões.





.

Em tempo, fiquei de dizer uma vontade recorrente: fincar agulhas na sua íris. Aquecer antes o aço, gravar meu nome na pálpebra com raiva, porque ela é esconderijo quando algo anoitece em você mesmo se é dia claro. Não sei se o algo é a alma. Às vezes é só a esperança, não?

Ou você anoitece pela dor concentrada na coluna e pronto, precisando daqueles emplastros nojentos por baixo da roupa – que isso de poesia me exagera nos símbolos, vá.


[o título é um verso de Manuel António Pina: "sei que sabes uma palavra indecente/e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse/a tua roupa de dentro".]

26 outubro, 2013

vi que soluçava pequenas rajadas de vento



vi que soluçava pequenas rajadas
de vento
neste movimento se aviva a penugem:
corpo em fresta das janelas

solucei três dias a morte lenta
de uma ideia:
borbulhou incolor num copo
de rotina efervescente
a retina, no soluço, se perde
de vermelhidão
não é por causa do sal?
mas isto quando se lê, sei, lembra
sol quente

agarrei superstições e todas as belezas
do absurdo
o ar, porém, continua seu trajeto insano pelas entranhas
sacudindo ombros para uma dança de descaso
te juro que me importo tanto!

se noite, espasmo pior

cabeça para baixo e a perspectiva
de cura
clareza que mira o chão e a ironia, pura,
de assim inverter importâncias

meu soluço não passa
e o resto do pouco me diz
– por todos os oceanos do mundo
que só engulo praia


poema que encerra rebentação, a primeira parte do livro Marambaia.
vídeo gravado em Paraty, RJ.

09 outubro, 2013

não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa

"Ta um solzinho bom por aqui coloquei a roupa ate na laje cõm certeza vai dar praia pra voces ne filha"

Recebida: 13h45
Hoje
De: Mãe

30 setembro, 2013

chama jaborandi mas o cheiro é mato puro. ela chegou com uma nuvem cinza claro na cabeça, fina, delicada como não houvesse chuva nunca, e me fez tocá-la com a ponta do nariz. vê aqui o cheiro do meu cabelo.
um filete de sábado caseiro pode ter esperanças sutilíssimas.

ter os pés úmidos sem ter tocado cais. tê-los úmidos e espirrar espirrar mais. mas tocarão!
é esperar esperar.
havia um balão tocando o teto de ferros, sustentado no alto, mas de formas murchas. a língua e o descanso deformam se submetidos a grandes alturas, têm vertigem.

tão cedo os braços abertos não alcançam boa envergadura. é como dedilhar ainda a madrugada sem o gesto fatal que agarre a manhã. alongar ideias.
em cama dos outros, como dormir de corpo solto?

24 setembro, 2013

A saída

Havia no seu corpo uma saída.
Podia através dela ir até onde quisesse, de momento que a porta não ficasse a bater com um ruído que a maior parte das pessoas confundia com o bater do coração. Não consta que o sangue o perseguisse senão muito raramente e mesmo assim não para além da beira-mar.
Trazia há algum tempo na memória um espelho onde quem quer que se abeirasse dele podia contemplar-se. Pelo espelho era possível ver os poços através dos quais a pele desaparece, as ondas momentaneamente imóveis, as areias a assaltar-lhe o coração.



Luís Miguel Nava

18 setembro, 2013

fotografia

a cadela gorda com um pé de galinha na boca
às sete e vinte da manhã, desavergonhada. clique rápido

nesse disparo minhas mãos não foram
o plano árido das recusas. aquilo das coisas vastas
incomunicáveis

e quis achar graça como os loucos,
inconsequentes. foi o momento em que você abriu
seus quarenta e nove outonos 
no sorriso, lá de longe, claríssimos. e eu soube que acordamos muito bem

e as gentes souberam que em tal estação
o sol jamais castiga


28 agosto, 2013

há um rio e há uma ponte.
de modo que a dor vem quando da curvatura da espinha na amurada, pela promessa de flora muito colorida lá, lá longe. os moradores antigos dizem duma coisa chamada calma, que existe em respingos, por hora; porque olha, é tão cedo. respirar traz dificuldade por vezes, embora naquela rua paralela com um nome que lembra amor. há um profundo rio, mas há uma ponte.

19 agosto, 2013

símbolo

anotei no caderno achando graça que a cabeça da mulher no metrô tinha o formato de um xaxim. e o moço do meu lado, cheiroso, usava a blusa do lado avesso; a etiqueta apontando para mim. ele todo um jeito de banho recente, café que aprendeu a fazer agora e distração, uma distração...


ir decorando outras observações voláteis até que o assunto mais importante da vida, dos cruciais, entre no ciclo de postergação:
– depois te conto. amanhã a gente se fala.

depois te conto como o sol ofuscou minha vista na curva;
depois te conto a cor da minha fraqueza;
te conto que meu amor tem o tamanho de uma cachalote
(e toda aquela questão líquida também).
mas depois, só depois a gente se fala.

sonhei que tocava clarinete; coisa que lembrei de repente olhando os cachos de uma moça linda que ouvia música. ela parecia bem. eu moraria num fio curvo, talvez. que escondesse maravilhas.

já a outra menina perto da porta, expressão plácida, tinha uma pedra azul no peito.
acho que era ágata.

08 agosto, 2013

pas de bourrée

– cinco, seis, sete, oito...


foi depois.
durante o arrepio agudo a respiração ficou suspensa. no depois é que fechei os olhos e relaxei para sentir o meu dentro. descamando.

tinha no ventre versos retorcidos e uma moleza de quando o dia era janela por onde entra friagem, folhas mínimas voando a grudar nas costas e a fazer da pele trajeto. quando voltei das beiras enlameadas desse teu caminho, os pés muito sujos e um nariz úmido de orvalho pela frieza de amores rasos, encontrei-o a sete centímetros do meu rosto, se muito, perguntando pelo dever e sem encostar em mim jamais, embora a proximidade física – o que é que foi? 

fonemas tão sonoros que parecia brincadeira.
– cólica.

armadilhas terríveis entre tuas sobrancelhas. 
– só cólica.
há um modo de desviar delas, mas ainda não executo o passo com perfeição. de modo que, quando levantei, de mim desceram quinze meses de toque, anos de sonho e três ou quatro ressentimentos. desisti de tentar decorar a cadência, aquietei os pés e tomei um comprimido.

foi num dia em que sonhei com desastres isto: tinha muitas pintas pela barriga e havia algo de muito errado com meu seio preferido, o direito.

06 agosto, 2013

sonho ruim é um pássaro sem cor que pousa nos fios em frente à minha janela e cada vez que olho intrigada está mais pesado.

28 julho, 2013

poema número zero
ou
minhas sinceras desculpas

assim termina o primeiro poema do livro que escrevi entre janeiro e abril deste ano. que se chama marambaia. que será lançado na próxima semana em são paulo.

isso é o que parece, sim: um aviso, a precaução. a ousadia e a covardia vão à praia juntas, ouvi numa concha. daí que estou, por estes dias, me deliciando e amedrontando sobre esse alcance; não do meu nome, que de carinho é bem pequeno, mas do que sinto e achei por bem comunicar. ou do que sinto e, sem saber, está lá dito. é de um susto soluçante ver quanto de mim está ali.

eu li a mensagem do editor ainda em casa cedinho, se oferecendo para editar um livro meu, no dia que voltaria ao trabalho depois das férias de dezembro. eu tinha acabado de voltar da Prainha Branca e estava cheia de mar nos compartimentos das ideias. então fiquei espantada, então fiquei feliz e topei. que sim, que eu escreveria, nossa!, um livro. tinha 4 poemas sobre esse tema, feitos logo que retornei à casa, e pretendia criar mais alguns para compor uma série, um pdf, talvez, que eu disponibilizaria aqui no blog mesmo. era a única coisa inédita no momento. ampliei essa ideia inicial. "vocês vão ser livro agora, pronto."

o interesse do editor veio pelos escritos que eu havia publicado em revistas digitais e, provavelmente, compartilhado no facebook. no meio do ano passado, depois de ter escrito uma prosinha poética para uma oficina de poesia que estava frequentando e ter recebido opiniões positivas sobre ela, achei que podia passá-la adiante. enviei e no dia seguinte publicaram; quase morri de vergonha e alegria. recebi e-mails, recados bonitos. daí pra frente continuei produzindo e enviando para revistas digitais, aprendendo e me surpreendendo muito com o processo e os retornos.
por este blog conheci pessoas fundamentais aos meus dias. por este blog li e escrevi coisas que me salvaram o corpo, a alma, e, de novo, os dias. 

.

botar do corpo pro mundo é impressionante.

fazer uma série de poemas para o livro foi, ô, uma aventura. que aqui o que eu fazia era uma prosinha poética, eram uns recortes de vida cantada, vida em que a gente bota (sabe-se lá de onde e quanto) lirismo, sem olhar os resultados desastrosos. que doçura! desastrosos. quebrei tudo. as minhas linhas, os meus versos, eles de mãos dadas, eu quebrada, nós juntos. são poemas.

houve um momento, então, em que pensei ter feito o último poema do livro. mas faltava um. o maior no sentido íntimo mais vertiginoso da palavra. é trecho dele o que abre este post. é ele que abre o livro. é por ele que finalmente todo o meu amor e desamor abri, nesse livro.

há uma divisão em rebentação vazante. cai-se para onde preferir a partir do dia primeiro; meus braços estão abertos daqui para adiante para amparar esse seu desastre.




da escrita/do processo, seus responsáveis:

Mariana, Tamiris, Graciela, Cleiton: que não soltam minha mão na ciranda, que mantêm girando o moinho. Mari W: o meu coração. Natame: que é encontro, coração, caminho e ___________. Regiane e Lidia: o obrigada, com carinho. Guilherme: kiwi. Eduardo: bruxo mais amoroso. Renato: pelas trocas. Felipe: porque apesar de me ler e suportar do mindinho aos cabelos finos por anos muitos, nesse processo todo ainda me abraçou e jamais me mandou pra casa do caralho.

17 julho, 2013

respirei eu fundo

julho está um diacho.
e ele só passou um pouco do meio, de modo que será preciso muito cu pra lidar com tudo.

*

quinta passada houve um abalo de grandes proporções no meu sofá; que não foi sísmico, mas me deixou cismada e disse que o mundo é um lugar horrível e, mais baixinho, que o corpo da família é pra sempre convulso. engoli seco, não cuspi não, e até três dias depois meu próprio organismo, de vingança pelo nervoso, enlouqueceu. 
desse episódio não falo mais. só uma coisa: da hora que cheguei à sala de espera fria naquela madrugada terrível, até a saída, havia uma borboletinha prateada no chão.
acho que era de cabelo.

*

por falar em corpo, descobri que minha dor nas costas não é porque sento em cima da perna esquerda; felicidade grande continuar sentando. era só a cadeira mal ajustada. fiquei de escrever isso no meu caderninho de notas, e outras coisas leves, mas a última coisa anotada lá foi que meu ciúme faz o sangue ser lava por alguns segundos.

*

ando vomitando adjetivos negativos sobre mim nesses dias escalafobéticos. e sobre os dias.
gostava da minha imagem no mar, mesmo muito fraca (porque ela não importava na hora), e da brisa ali. saudade do mar. mergulhar paz e pedir que leve. contemplar minha própria imagem com limpeza de sentimento, pensar: que leve!...

*

mas ESCREVI UM LIVRO. ele é todo em minúsculas: um livro. que está agora chorando no berço, prontinho pra se virar sozinho porque a mãe, a merda da mãezinha, está correndo de um lado a outro aprontando a casa pras visitas que ama mas que não chegam nunca nunca e se chegam não abraçam nem deixam recado.
penso que não deixarão.

*

quão inocente é confiar a calma em um fim de semana corrido só porque será em outra cidade? quanto isso é um pedido de socorro ao alcance, estopim de dias bons? uma coisa: estou fazendo ser. vejam que inocente.
vou comprar um rolo de filme fotográfico pra esses dois dias.

*

ontem num e-mail sobre músicas disseram "vc que gosta de coisas melancólicas"...

vim escrever porque notei de manhã no banheiro que estou em dia fértil.
não era pra isso aqui ficar triste.

05 julho, 2013

tentativa número ___

era a definitiva desistência: seria Maria agora e dali para adiante pelos anos. todos.

existindo, era algo, mas nisso comedida – os gestos curtos e rápidos, para não ofender o ar. e aparentava tão pouco que diziam ser parecida com sua filha, em vez do contrário. seria inconcebível que tivesse vindo antes, que pudesse mais. 
os anos assim uma cantiga que ninguém lembra como começa ao certo, só a melodia cantando murcha depois que se estendiam as roupas no varal. vez em quando aparecia em seu sonho uma boca imensa ofensivamente vermelha vociferando as frases ao contrário, com um sentido ruim, daquelas coisas que não se explicam em sonho.

mas agora que é a desistência e a Maria ainda é Maria e as cantigas se esgotaram, foram-se também as oportunidades e, vamos e convenhamos, de nada adianta lembrar o refrão (a oportunidade é um trevo de quatro folhas que antes de ser colhido o cachorro vem e come).

23 junho, 2013

boa só a nudez primeira


do que se acha no meio dos cadernos; sem data, sem encadeamento, sem lembrança.
com borrões.

27 maio, 2013

não sonho mais. ou não me lembro, segundo o que dizem. dias antes era a profusão de imagens e as assimilações decorrentes, que eu gostava de criar; agora é o vazio que não chamo descanso. minha mãe, por sua vez, sonhou que seus cabelos voltavam a crescer fartamente de um dia para o outro. no que me locomovo pela cidade olho um pouco displicente as árvores que continuam floridas, e apesar de achar bom e bonito não entendo muito isso, a julgar pela estação em que estamos – pela vizinhança do trabalho novo elas também pipocam em cada esquina. das tentativas de lembrança onírica vou para o lamento porque não conseguirei escrevê-las, vou para as dores musculares pela bolsa que pesa (entre outras coisas que pesam), e vou para o movimento de certificar que o meu guarda-chuva lá está. o amor tem me dado trovoadas na cara como fossem pouco, lá do alto das suas nuvens de aparência tranquila. calcule o aguaceiro.

19 maio, 2013

obediência


i

permanecer sob a fresta de sol.
isso das costas coladas à parede fria
para que me atinja em cheio


ii

a manhã que começa
no quintal do silêncio mútuo
orvalhando em uma samambaia de folhas truncadas


iii

e já cai com a língua de fora:
mesmo clara, é cadela à procura
exposta, triste que só o diabo,
sussurrando samba
e de quatro


iv

quando nota, virou tarde;
e com uns ares
de estação errada
sobra-lhe, enquanto noite,
uma veia que lateja na cabeça
roxa
como fosse motivo


v

como fosse solução isso de mover-se
sob raios para buscar cura
para buscar ternura


vi

e levar ambas na concha das mãos, pontualmente
para que te atinjam em cheio

30 abril, 2013

o tempo é um mar aberto absurdo

em que ecoa o que me disseram há tempos
e desde então não soube responder, de amores: 
o que é que acaba, afinal?
houve uma suposição acerca da esperança, 
e tanto uma quanto a outra se afogaram no álcool 
e na falta de exigência de horas que sozinhas avançam.
algumas das folhas viçosas que pendem do telhado 
(sabe-se lá exatamente brotando de onde)
me davam alguma. esperança. estão amarelinhas agora 
e eu suponho que seja o outono, e eu supunha que a lua estaria diferente por esses dias.
eu andava numa estupidez de querer bem a lua se revirando no meu cabelo;
que é vago, muito falho e muito pouco.

.

sonhei que um urubu era um pássaro pequeno, gordinho e marrom que caía de seu ninho, depois de sentir-se mal revirando os olhos sem amparo. aí alguém dizia, olhando de longe, que o bico havia quebrado. ainda me acontece de acordar com sons da pancada seca na mente e achar minhas mãos muito vazias pela manhã.

22 abril, 2013

15 abril, 2013

é a lama, é a lama

quando passo daquela linha, continuo falando e achando que as coisas não me falam; alongo a perna para transpô-la, fininha, procuro não fazer barulho na aterrissagem, apago uma parte ínfima do tracejado com os pés inábeis e peço desculpas imediatamente. no que bebo as horas vou afundando e não é a ponta dos pés que oferece vislumbre, nem poderia, se já não dança por si. de modo que se a vista plena me fosse dada, gritaria, eu faria um escândalo, ah, que lindo é o meu amor! e me jogaria no mar estourando de felicidade. [...] mas eu dizia que, depois da linha, sou criação no que é dito também. e digo, digo, digo mas não sei. sei que nervosa sapateio em espaços pequenos, e que isso agora me vem mais vezes do que gostaria; na verdade nem gostaria, embora saiba das assimilações decorrentes e colha cada uma devagarinho no canto da cortina, na fruteira, nos olhos dos outros – quando se deixam. prevejo os enquadramentos nesses mesmos pontos e a luz matinal das cozinhas ainda me é uma coisa lindíssima, a cama um retrato calmo muito só e comovente, o corpo na cama etc.

23 março, 2013

Maranha

Sol a pino, os respingos violentos de sempre e a ponta do dedo latejante; a grande lasca de unha ficou entre duas pedras rudes no trecho em que a maré avança. Anos mais tarde, experimentaria o mesmo minuto de contemplação lembrando, no contato com as barras do trem, que, embora os calos parecessem iguais, a palma nos tempos de mar trazia um desenho diferente. Tudo que é traço os supunha navios, desde que a cigana velha da praça central lhe disse mudarem as linhas da mão com o tempo. Ponta de galho no chão não faz caminho inesperado para formigas, pois não? Trajeto é coisa que enreda à noite e clareia na alvorada instigando destino novo. Pena que escorrega pelos dedos.

Parece mesmo um formigão, dizia agora a garota da mercearia enquanto lixava as unhas com um ruído insuportável, como diria toda vez que ele tocasse a cabeleira queimada pelo sol de antes, como disse na primeira vez em que esteve em sua cama, diante da surpresa pelo corpo bronzeado segundo ela tão contrastante com a claridade dos olhos. Tu é galego só no gene. Movia-se rápida pelo cômodo pequeno, de modo que sua chegada e saída eram notadas pelo palratório eterno, em agudos, que não exigia de todo a dedicação do interlocutor. Calava quando ele lhe dizia que nas conchas dá para ouvir som de aguaceiro, sim senhora. Encolhia-se atenta, transmudada em marisco. Na superfície da noite recém-chegada alguma melancolia salgava as horas – um estado metropolitano de existência não consentida e muda. Encolhia-se, ela, miúda.

Até seu primeiro mês de asfalto, os moradores do bairro lhe estranhavam os modos sem cuidado, o desinteresse em lidar com objetos de uso já decididamente corriqueiro e sobre os quais não se exige racionalização. Nas frases soltas ouvidas através de lençóis nos varais também, por vezes, chocava; como no dia em que disse à jovem vizinha, em pleno pátio e apontando uma namoradeira de gesso na janela defronte, para andar pelo mundo sem manha, levantando a saia onde fosse moita. Era de uma afronta sutil tal sobrevivência que se bastava justamente por sua naturalidade, pelo desprezo ao que foi incorporado à rotina em virtude de uma necessidade criada. Estruturas invisíveis do proceder. Toma tento, caiçara.

As semanas eram um emaranhado de pó, buzinas nervosas, cimento na lata e cartões de ponto. No fim da tarde era mais fácil encontrar matérias aquosas nos olhos dos homens. Os do chefe da obra (cara de tartaruga), pequenos, azuis, transportavam sempre para as miçangas vendidas à margem da praia, ligadas por cuidadosas mãos de artesãs para que a maresia fizesse volta em pescoço de madame. 

De maneira que a vida, assim profunda e menos nítida, lhe vinha por redes de arrasto quase nunca cheias. Preenchia os losangos de saudade no encharcar dos cabelos – a cabeça pendendo da janela em noites de chuva. Os fios, no entanto, impenetráveis. Detentores em cada nó de uma praia que a água não leva.

06 março, 2013


viu,
que manhãs claras me comovem demais.
 
vontade de não ser triste, talvez, e morrer sorrindo depois que o sol evidenciar toda a penugem, uma janela escancarada que não se preocupe com o adjetivo também destinado às pernas e estas aos paus; devolver tranquilo o ar reposto em vias desobstruídas de metrópole – partículas de nuvens de silêncio guardando nas juntas e cotovelos e joelhos algodoados um raio imenso que desabe bonito. vontade de perder o medo e adentrar claridades sem guarda-chuva.
 
 
clique falho na base
ali onde mais se vê, minicrisântemos que dei pra minha mãe numa véspera difícil. estavam assim vistosos antes, mas todas essas florzinhas secaram e caíram.
falta dizer de um porém importante que o vaso está cheio de botões hoje. cada um deles diz, de precoces: te acalma e espera.

contraponto, outro
a descoberta que costas-com-costas faz erguer. e outros exercícios cujas sementes jamais vimos antes, mas brotam das articulações e do âmago do âmago do âmago...

27 fevereiro, 2013

fiéis

gritaria aborrecida na tv:
o moço fala de si, da placa que ostenta, de seus valores, de si.
queria que alguém entendesse quando digo que estou cansada.

– oi, boa noite. posso só passar pra tomar banho?
posso, por favor, não ser uma vencedora em cristojesus?
sim? graças.

penso ir dissolvendo conforme a espuma se forma.
achei a noite clara hoje, e pela tranquilidade dessa sentença
busco crer que alguém neste momento,
alguém neste mundo de meu deus (qual mesmo?)
se sente bem.

.

no meu celular dizem que a lua está linda. lindo é seu ombro nu, quero responder.
(lindo é minha mãe ter conseguido levantar o braço último domingo.)
mas deixo pra lá os céus e tudo além.
queria mesmo um silêncio profundo
e alguém
pra esfregar as minhas costas.

31 janeiro, 2013

floreios bem servem ao campo

. caatinga

o tipo de vegetação, me perguntas quando a íris fica amarela de sanidades e pende para o solo.
afundei, digo.

penso ser pedra interrompendo placidez, lançada com duas mãos e um coração úmido, tamanha a pancada no vão dos musgos. escorrego em cada desejo flutuante e escapa às falanginhas o mato rasteiro nas margens para ajudar a travessia. se minha boca se enche em verde, admito lascas nos dentes; a tua alegria sai aos borbotões pelas frinchas da arcada, e sob controle (para que na poça formada caibam dois apenas, isto decidi).

mas baixo os olhos... é tão cristalina esta água! e a posse abranda. em corredeiras tudo se engole.

a pergunta foi por conta do bom dia fechado em espinheiros,
atinei.
tudo era seco, e sobre isso que faria eu?



. maritacas

desisti dos pêssegos
por medo aos ferimentos.
pesam muito à natureza as dores que os homens carregam em sacolas abafadas.

às outras frutas fiz buracos na casca,
e me movi branca pela polpa.
pela manhã descobri que cantava com coragem:
há no sumo quando desce a goela um quê de amor pelos que viajam.

este dia quis sumir-se sonoro-suculento nas montanhas antes que lhe viesse o podre pelos maus-tratos.
ou que maltratasse a si: o bico descendo forte no tórax, arrancando as penas desde o cálamo.



. esturricado

quisera ele, do focinho pontudo à coda,
um todo intacto.

(de corpo quis perto o teu,
para o lamento pelos que desconhecem estrada.)

éramos perigo em zigue-zague nas duas vias
do sonho imenso.

carimbaram-no em vermelho, pois, no fim de um raio de sol.
pudesse antes, pulularia: veja, cidadã, um gambá é isto!



. para não calejar

ao fim e ao cabo, eram-me fortes as marcas nos pés. mapas da calmaria impressa: ficou gravado teu equilíbrio nas pedras.

era o verde vasto, e era tanto, que a carne em contraluz pareceu esmaecer.
quando não éramos fato, e éramos pouco, fiquei com ideia de títeres: de cada membro sairiam galhos finos cujo controle da outra ponta a alegria desconhece e sobre ele não se aflige.

tanto ofereço para que escrevas... à minha sola e à palma chamo papiro.



Trabalho publicado na 6ª edição do caderno-revista de poesia "7faces", disponível aqui. Inspirado em uma viagem a São Bento do Sapucaí-SP, no último setembro.

22 janeiro, 2013

Every single night


os sonhos inconclusos retomo aos poucos,
sentidos vagalume - ponto de luz para colher ao acaso
e levar elucidação às mãos outras;
frágeis como as minhas, e tanto
que nisso não se reconhecem.
e se oferecem em acalento,
que aceito, processando todas as coisas
em que preciso acreditar.

à noite o que é ruim fica muito pior, amigo, e todos os cacos fincados no seu corpo sabem exatamente do que estou falando.

título: Fiona Apple

02 janeiro, 2013

não era homem,
mas espantalho

reconstruir;
dar forma a;
nascer para império
no espaço vasto
passarinho não se arrisca,
é respeito à forma de vida
nascida de mato morto

de se espantar a placidez
diante do apodrecer
dos frutos

pudera, é herança

a incoerência do homem
em criar
para espantar
um duplo seu