31 janeiro, 2013

floreios bem servem ao campo

. caatinga

o tipo de vegetação, me perguntas quando a íris fica amarela de sanidades e pende para o solo.
afundei, digo.

penso ser pedra interrompendo placidez, lançada com duas mãos e um coração úmido, tamanha a pancada no vão dos musgos. escorrego em cada desejo flutuante e escapa às falanginhas o mato rasteiro nas margens para ajudar a travessia. se minha boca se enche em verde, admito lascas nos dentes; a tua alegria sai aos borbotões pelas frinchas da arcada, e sob controle (para que na poça formada caibam dois apenas, isto decidi).

mas baixo os olhos... é tão cristalina esta água! e a posse abranda. em corredeiras tudo se engole.

a pergunta foi por conta do bom dia fechado em espinheiros,
atinei.
tudo era seco, e sobre isso que faria eu?



. maritacas

desisti dos pêssegos
por medo aos ferimentos.
pesam muito à natureza as dores que os homens carregam em sacolas abafadas.

às outras frutas fiz buracos na casca,
e me movi branca pela polpa.
pela manhã descobri que cantava com coragem:
há no sumo quando desce a goela um quê de amor pelos que viajam.

este dia quis sumir-se sonoro-suculento nas montanhas antes que lhe viesse o podre pelos maus-tratos.
ou que maltratasse a si: o bico descendo forte no tórax, arrancando as penas desde o cálamo.



. esturricado

quisera ele, do focinho pontudo à coda,
um todo intacto.

(de corpo quis perto o teu,
para o lamento pelos que desconhecem estrada.)

éramos perigo em zigue-zague nas duas vias
do sonho imenso.

carimbaram-no em vermelho, pois, no fim de um raio de sol.
pudesse antes, pulularia: veja, cidadã, um gambá é isto!



. para não calejar

ao fim e ao cabo, eram-me fortes as marcas nos pés. mapas da calmaria impressa: ficou gravado teu equilíbrio nas pedras.

era o verde vasto, e era tanto, que a carne em contraluz pareceu esmaecer.
quando não éramos fato, e éramos pouco, fiquei com ideia de títeres: de cada membro sairiam galhos finos cujo controle da outra ponta a alegria desconhece e sobre ele não se aflige.

tanto ofereço para que escrevas... à minha sola e à palma chamo papiro.



Trabalho publicado na 6ª edição do caderno-revista de poesia "7faces", disponível aqui. Inspirado em uma viagem a São Bento do Sapucaí-SP, no último setembro.

22 janeiro, 2013

Every single night


os sonhos inconclusos retomo aos poucos,
sentidos vagalume - ponto de luz para colher ao acaso
e levar elucidação às mãos outras;
frágeis como as minhas, e tanto
que nisso não se reconhecem.
e se oferecem em acalento,
que aceito, processando todas as coisas
em que preciso acreditar.

à noite o que é ruim fica muito pior, amigo, e todos os cacos fincados no seu corpo sabem exatamente do que estou falando.

título: Fiona Apple

02 janeiro, 2013

não era homem,
mas espantalho

reconstruir;
dar forma a;
nascer para império
no espaço vasto
passarinho não se arrisca,
é respeito à forma de vida
nascida de mato morto

de se espantar a placidez
diante do apodrecer
dos frutos

pudera, é herança

a incoerência do homem
em criar
para espantar
um duplo seu