23 março, 2013

Maranha

Sol a pino, os respingos violentos de sempre e a ponta do dedo latejante; a grande lasca de unha ficou entre duas pedras rudes no trecho em que a maré avança. Anos mais tarde, experimentaria o mesmo minuto de contemplação lembrando, no contato com as barras do trem, que, embora os calos parecessem iguais, a palma nos tempos de mar trazia um desenho diferente. Tudo que é traço os supunha navios, desde que a cigana velha da praça central lhe disse mudarem as linhas da mão com o tempo. Ponta de galho no chão não faz caminho inesperado para formigas, pois não? Trajeto é coisa que enreda à noite e clareia na alvorada instigando destino novo. Pena que escorrega pelos dedos.

Parece mesmo um formigão, dizia agora a garota da mercearia enquanto lixava as unhas com um ruído insuportável, como diria toda vez que ele tocasse a cabeleira queimada pelo sol de antes, como disse na primeira vez em que esteve em sua cama, diante da surpresa pelo corpo bronzeado segundo ela tão contrastante com a claridade dos olhos. Tu é galego só no gene. Movia-se rápida pelo cômodo pequeno, de modo que sua chegada e saída eram notadas pelo palratório eterno, em agudos, que não exigia de todo a dedicação do interlocutor. Calava quando ele lhe dizia que nas conchas dá para ouvir som de aguaceiro, sim senhora. Encolhia-se atenta, transmudada em marisco. Na superfície da noite recém-chegada alguma melancolia salgava as horas – um estado metropolitano de existência não consentida e muda. Encolhia-se, ela, miúda.

Até seu primeiro mês de asfalto, os moradores do bairro lhe estranhavam os modos sem cuidado, o desinteresse em lidar com objetos de uso já decididamente corriqueiro e sobre os quais não se exige racionalização. Nas frases soltas ouvidas através de lençóis nos varais também, por vezes, chocava; como no dia em que disse à jovem vizinha, em pleno pátio e apontando uma namoradeira de gesso na janela defronte, para andar pelo mundo sem manha, levantando a saia onde fosse moita. Era de uma afronta sutil tal sobrevivência que se bastava justamente por sua naturalidade, pelo desprezo ao que foi incorporado à rotina em virtude de uma necessidade criada. Estruturas invisíveis do proceder. Toma tento, caiçara.

As semanas eram um emaranhado de pó, buzinas nervosas, cimento na lata e cartões de ponto. No fim da tarde era mais fácil encontrar matérias aquosas nos olhos dos homens. Os do chefe da obra (cara de tartaruga), pequenos, azuis, transportavam sempre para as miçangas vendidas à margem da praia, ligadas por cuidadosas mãos de artesãs para que a maresia fizesse volta em pescoço de madame. 

De maneira que a vida, assim profunda e menos nítida, lhe vinha por redes de arrasto quase nunca cheias. Preenchia os losangos de saudade no encharcar dos cabelos – a cabeça pendendo da janela em noites de chuva. Os fios, no entanto, impenetráveis. Detentores em cada nó de uma praia que a água não leva.

06 março, 2013


viu,
que manhãs claras me comovem demais.
 
vontade de não ser triste, talvez, e morrer sorrindo depois que o sol evidenciar toda a penugem, uma janela escancarada que não se preocupe com o adjetivo também destinado às pernas e estas aos paus; devolver tranquilo o ar reposto em vias desobstruídas de metrópole – partículas de nuvens de silêncio guardando nas juntas e cotovelos e joelhos algodoados um raio imenso que desabe bonito. vontade de perder o medo e adentrar claridades sem guarda-chuva.
 
 
clique falho na base
ali onde mais se vê, minicrisântemos que dei pra minha mãe numa véspera difícil. estavam assim vistosos antes, mas todas essas florzinhas secaram e caíram.
falta dizer de um porém importante que o vaso está cheio de botões hoje. cada um deles diz, de precoces: te acalma e espera.

contraponto, outro
a descoberta que costas-com-costas faz erguer. e outros exercícios cujas sementes jamais vimos antes, mas brotam das articulações e do âmago do âmago do âmago...