28 julho, 2013

poema número zero
ou
minhas sinceras desculpas

assim termina o primeiro poema do livro que escrevi entre janeiro e abril deste ano. que se chama marambaia. que será lançado na próxima semana em são paulo.

isso é o que parece, sim: um aviso, a precaução. a ousadia e a covardia vão à praia juntas, ouvi numa concha. daí que estou, por estes dias, me deliciando e amedrontando sobre esse alcance; não do meu nome, que de carinho é bem pequeno, mas do que sinto e achei por bem comunicar. ou do que sinto e, sem saber, está lá dito. é de um susto soluçante ver quanto de mim está ali.

eu li a mensagem do editor ainda em casa cedinho, se oferecendo para editar um livro meu, no dia que voltaria ao trabalho depois das férias de dezembro. eu tinha acabado de voltar da Prainha Branca e estava cheia de mar nos compartimentos das ideias. então fiquei espantada, então fiquei feliz e topei. que sim, que eu escreveria, nossa!, um livro. tinha 4 poemas sobre esse tema, feitos logo que retornei à casa, e pretendia criar mais alguns para compor uma série, um pdf, talvez, que eu disponibilizaria aqui no blog mesmo. era a única coisa inédita no momento. ampliei essa ideia inicial. "vocês vão ser livro agora, pronto."

o interesse do editor veio pelos escritos que eu havia publicado em revistas digitais e, provavelmente, compartilhado no facebook. no meio do ano passado, depois de ter escrito uma prosinha poética para uma oficina de poesia que estava frequentando e ter recebido opiniões positivas sobre ela, achei que podia passá-la adiante. enviei e no dia seguinte publicaram; quase morri de vergonha e alegria. recebi e-mails, recados bonitos. daí pra frente continuei produzindo e enviando para revistas digitais, aprendendo e me surpreendendo muito com o processo e os retornos.
por este blog conheci pessoas fundamentais aos meus dias. por este blog li e escrevi coisas que me salvaram o corpo, a alma, e, de novo, os dias. 

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botar do corpo pro mundo é impressionante.

fazer uma série de poemas para o livro foi, ô, uma aventura. que aqui o que eu fazia era uma prosinha poética, eram uns recortes de vida cantada, vida em que a gente bota (sabe-se lá de onde e quanto) lirismo, sem olhar os resultados desastrosos. que doçura! desastrosos. quebrei tudo. as minhas linhas, os meus versos, eles de mãos dadas, eu quebrada, nós juntos. são poemas.

houve um momento, então, em que pensei ter feito o último poema do livro. mas faltava um. o maior no sentido íntimo mais vertiginoso da palavra. é trecho dele o que abre este post. é ele que abre o livro. é por ele que finalmente todo o meu amor e desamor abri, nesse livro.

há uma divisão em rebentação vazante. cai-se para onde preferir a partir do dia primeiro; meus braços estão abertos daqui para adiante para amparar esse seu desastre.




da escrita/do processo, seus responsáveis:

Mariana, Tamiris, Graciela, Cleiton: que não soltam minha mão na ciranda, que mantêm girando o moinho. Mari W: o meu coração. Natame: que é encontro, coração, caminho e ___________. Regiane e Lidia: o obrigada, com carinho. Guilherme: kiwi. Eduardo: bruxo mais amoroso. Renato: pelas trocas. Felipe: porque apesar de me ler e suportar do mindinho aos cabelos finos por anos muitos, nesse processo todo ainda me abraçou e jamais me mandou pra casa do caralho.

17 julho, 2013

respirei eu fundo

julho está um diacho.
e ele só passou um pouco do meio, de modo que será preciso muito cu pra lidar com tudo.

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quinta passada houve um abalo de grandes proporções no meu sofá; que não foi sísmico, mas me deixou cismada e disse que o mundo é um lugar horrível e, mais baixinho, que o corpo da família é pra sempre convulso. engoli seco, não cuspi não, e até três dias depois meu próprio organismo, de vingança pelo nervoso, enlouqueceu. 
desse episódio não falo mais. só uma coisa: da hora que cheguei à sala de espera fria naquela madrugada terrível, até a saída, havia uma borboletinha prateada no chão.
acho que era de cabelo.

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por falar em corpo, descobri que minha dor nas costas não é porque sento em cima da perna esquerda; felicidade grande continuar sentando. era só a cadeira mal ajustada. fiquei de escrever isso no meu caderninho de notas, e outras coisas leves, mas a última coisa anotada lá foi que meu ciúme faz o sangue ser lava por alguns segundos.

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ando vomitando adjetivos negativos sobre mim nesses dias escalafobéticos. e sobre os dias.
gostava da minha imagem no mar, mesmo muito fraca (porque ela não importava na hora), e da brisa ali. saudade do mar. mergulhar paz e pedir que leve. contemplar minha própria imagem com limpeza de sentimento, pensar: que leve!...

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mas ESCREVI UM LIVRO. ele é todo em minúsculas: um livro. que está agora chorando no berço, prontinho pra se virar sozinho porque a mãe, a merda da mãezinha, está correndo de um lado a outro aprontando a casa pras visitas que ama mas que não chegam nunca nunca e se chegam não abraçam nem deixam recado.
penso que não deixarão.

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quão inocente é confiar a calma em um fim de semana corrido só porque será em outra cidade? quanto isso é um pedido de socorro ao alcance, estopim de dias bons? uma coisa: estou fazendo ser. vejam que inocente.
vou comprar um rolo de filme fotográfico pra esses dois dias.

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ontem num e-mail sobre músicas disseram "vc que gosta de coisas melancólicas"...

vim escrever porque notei de manhã no banheiro que estou em dia fértil.
não era pra isso aqui ficar triste.

05 julho, 2013

tentativa número ___

era a definitiva desistência: seria Maria agora e dali para adiante pelos anos. todos.

existindo, era algo, mas nisso comedida – os gestos curtos e rápidos, para não ofender o ar. e aparentava tão pouco que diziam ser parecida com sua filha, em vez do contrário. seria inconcebível que tivesse vindo antes, que pudesse mais. 
os anos assim uma cantiga que ninguém lembra como começa ao certo, só a melodia cantando murcha depois que se estendiam as roupas no varal. vez em quando aparecia em seu sonho uma boca imensa ofensivamente vermelha vociferando as frases ao contrário, com um sentido ruim, daquelas coisas que não se explicam em sonho.

mas agora que é a desistência e a Maria ainda é Maria e as cantigas se esgotaram, foram-se também as oportunidades e, vamos e convenhamos, de nada adianta lembrar o refrão (a oportunidade é um trevo de quatro folhas que antes de ser colhido o cachorro vem e come).