28 agosto, 2013

há um rio e há uma ponte.
de modo que a dor vem quando da curvatura da espinha na amurada, pela promessa de flora muito colorida lá, lá longe. os moradores antigos dizem duma coisa chamada calma, que existe em respingos, por hora; porque olha, é tão cedo. respirar traz dificuldade por vezes, embora naquela rua paralela com um nome que lembra amor. há um profundo rio, mas há uma ponte.

19 agosto, 2013

símbolo

anotei no caderno achando graça que a cabeça da mulher no metrô tinha o formato de um xaxim. e o moço do meu lado, cheiroso, usava a blusa do lado avesso; a etiqueta apontando para mim. ele todo um jeito de banho recente, café que aprendeu a fazer agora e distração, uma distração...


ir decorando outras observações voláteis até que o assunto mais importante da vida, dos cruciais, entre no ciclo de postergação:
– depois te conto. amanhã a gente se fala.

depois te conto como o sol ofuscou minha vista na curva;
depois te conto a cor da minha fraqueza;
te conto que meu amor tem o tamanho de uma cachalote
(e toda aquela questão líquida também).
mas depois, só depois a gente se fala.

sonhei que tocava clarinete; coisa que lembrei de repente olhando os cachos de uma moça linda que ouvia música. ela parecia bem. eu moraria num fio curvo, talvez. que escondesse maravilhas.

já a outra menina perto da porta, expressão plácida, tinha uma pedra azul no peito.
acho que era ágata.

08 agosto, 2013

pas de bourrée

– cinco, seis, sete, oito...


foi depois.
durante o arrepio agudo a respiração ficou suspensa. no depois é que fechei os olhos e relaxei para sentir o meu dentro. descamando.

tinha no ventre versos retorcidos e uma moleza de quando o dia era janela por onde entra friagem, folhas mínimas voando a grudar nas costas e a fazer da pele trajeto. quando voltei das beiras enlameadas desse teu caminho, os pés muito sujos e um nariz úmido de orvalho pela frieza de amores rasos, encontrei-o a sete centímetros do meu rosto, se muito, perguntando pelo dever e sem encostar em mim jamais, embora a proximidade física – o que é que foi? 

fonemas tão sonoros que parecia brincadeira.
– cólica.

armadilhas terríveis entre tuas sobrancelhas. 
– só cólica.
há um modo de desviar delas, mas ainda não executo o passo com perfeição. de modo que, quando levantei, de mim desceram quinze meses de toque, anos de sonho e três ou quatro ressentimentos. desisti de tentar decorar a cadência, aquietei os pés e tomei um comprimido.

foi num dia em que sonhei com desastres isto: tinha muitas pintas pela barriga e havia algo de muito errado com meu seio preferido, o direito.

06 agosto, 2013

sonho ruim é um pássaro sem cor que pousa nos fios em frente à minha janela e cada vez que olho intrigada está mais pesado.