30 setembro, 2013

chama jaborandi mas o cheiro é mato puro. ela chegou com uma nuvem cinza claro na cabeça, fina, delicada como não houvesse chuva nunca, e me fez tocá-la com a ponta do nariz. vê aqui o cheiro do meu cabelo.
um filete de sábado caseiro pode ter esperanças sutilíssimas.

ter os pés úmidos sem ter tocado cais. tê-los úmidos e espirrar espirrar mais. mas tocarão!
é esperar esperar.
havia um balão tocando o teto de ferros, sustentado no alto, mas de formas murchas. a língua e o descanso deformam se submetidos a grandes alturas, têm vertigem.

tão cedo os braços abertos não alcançam boa envergadura. é como dedilhar ainda a madrugada sem o gesto fatal que agarre a manhã. alongar ideias.
em cama dos outros, como dormir de corpo solto?

24 setembro, 2013

A saída

Havia no seu corpo uma saída.
Podia através dela ir até onde quisesse, de momento que a porta não ficasse a bater com um ruído que a maior parte das pessoas confundia com o bater do coração. Não consta que o sangue o perseguisse senão muito raramente e mesmo assim não para além da beira-mar.
Trazia há algum tempo na memória um espelho onde quem quer que se abeirasse dele podia contemplar-se. Pelo espelho era possível ver os poços através dos quais a pele desaparece, as ondas momentaneamente imóveis, as areias a assaltar-lhe o coração.



Luís Miguel Nava

18 setembro, 2013

fotografia

a cadela gorda com um pé de galinha na boca
às sete e vinte da manhã, desavergonhada. clique rápido

nesse disparo minhas mãos não foram
o plano árido das recusas. aquilo das coisas vastas
incomunicáveis

e quis achar graça como os loucos,
inconsequentes. foi o momento em que você abriu
seus quarenta e nove outonos 
no sorriso, lá de longe, claríssimos. e eu soube que acordamos muito bem

e as gentes souberam que em tal estação
o sol jamais castiga