21 novembro, 2013

quão grande é o espaço entre mim e o que não me revela o outro?

18 novembro, 2013

mãe comprou uma caixinha de gelatina vazia sem perceberem ela e a mocinha do caixa – eu ri. parece cotidiano carregarmos coisas vazias à casa para a percepção vir após. por falar em perceber, preciso muito d'umas lentes, fiz um poema com algo sobre olhos mas não tenho o poema porque as coisas não são minhas, nenhumas. as pessoas também não e ainda bem, é muito difícil porque apesar disso elas estão dentro de nós no profundo, mas ainda bem mesmo que não são.
levantei de um pulo por um sonho de ojeriza a um inseto, à barata. acordei já de pé aos gritos e pensei no cavalo, mas é o oposto: dorme em pé, deve despertar de sustos deitado, a sua forma grande e errônea do sono desordenado imagino esticada no chão. patas em movimento.
acho que desisti da calma escrita porque ela não existe na minha veia e não vai não parece que vai. então combinamos de nos visitar mas sem mentiras.




a poesia lembra uma bola que não se joga de volta e eu perdi a mão faz dias.

de toda forma, nunca fui boa nos esportes:
uma estrutura delgada que não comporta

então para ela não estou fechada, mas a vejo em minúcias
em miudinho de dia ainda me entrego, acho que sou fácil
abro pernas e portas

A tua roupa de dentro

Doíam seus olhos. Atrás, onde começam. São bolas, sim, mas têm um começo no espaço desconhecido. Muitas coisas começam assim imperceptíveis aos homens, com funções bem definidas e alinhavos limitadores por toda a superfície – às vezes desrespeitados e sabotados, é bem verdade. Nesse local ocorrem as dores. 180º (cento e oitenta graus) de uma consistência esquisita: lantejoulas imensas em cores, orbitando de lucidez pretensa, porque imagem não é tudo, não, senhor.

No sonho, cegava. Cegava para uma negação de tons intensos, cegava nos lençóis cinza-chumbo de cama estreita masculina, aquilo mesmo um casulo sem saídas por cima ou baixo. Ausência de asas e, apesar disso, impressão de uma vida muito tátil. Pulsante. Se vinte somavam as madeiras do estrado, vinte as marcas nas costas, profundas, cujos contornos se faziam vales para o passeio das mãos em desespero, cegas também elas das impressões imediatas.

Despertar pode ser verbo sem rumo entre o cílio e a digital.

Quando saiu à rua, viu primeiro com satisfação as raízes de uma árvore que, de tão vivas, estouravam a calçada. Olhou para a copa, contra o sol (para a cegueira real, a ilusão ótica do ar em brilhinhos sob o astro amarelo é coisa pouca); distinguiu as cores mesmo sendo inverno. Tivesse que reconhecer as flores pelo tato, estraçalharia todas, desde as maduras até os malditos botões.





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Em tempo, fiquei de dizer uma vontade recorrente: fincar agulhas na sua íris. Aquecer antes o aço, gravar meu nome na pálpebra com raiva, porque ela é esconderijo quando algo anoitece em você mesmo se é dia claro. Não sei se o algo é a alma. Às vezes é só a esperança, não?

Ou você anoitece pela dor concentrada na coluna e pronto, precisando daqueles emplastros nojentos por baixo da roupa – que isso de poesia me exagera nos símbolos, vá.


[o título é um verso de Manuel António Pina: "sei que sabes uma palavra indecente/e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse/a tua roupa de dentro".]