21 dezembro, 2014

poema geladeira

se desenhasse faria uma personagem toda dona
da vida dela, do nariz, das partes baixas e todas as outras
bem dona. para dizer livremente afetando qualquer orgulho
(e não com vergonha porque isso não é matéria de poeta que se respeite)
várias coisas estúpidas como
— jantei um pêssego e três danoninhos ontem

então penso como minha barriga tem feito barulhos horríveis
quando estou deitada com a barriga para cima

como se eu guardasse um bicho inconformado.

como se eu não guardasse um bicho inconformado,
reviro ainda os outros espaços frios à procura
de um alimento fresco, fácil, embora bastante dentro dos conformes

e, por fim, como não desenho naquele nem nos dias que se seguem
escrevo sobre entranhas e espaços frios ao lado de plantas sem dono

a pleno sol

01 dezembro, 2014

quanto me incomodam as unhas grandes ou descuidadas. infinitamente menos pela aparência do que por saber que estou sendo comida pelo tempo. com bordas brancas ao redor e peles levantadas prestes a deixar um vão doloroso de carne viva.

18 novembro, 2014

ando traindo sagitário

muitas coisas querem dizer os astros,
mas ouço pouco, pouco faço.
e olhando as outras vejo uma força
que não me vem. são essas mulheres.
seus grandes planos dependendo 
de somente este algo: de si.
sigo nas águas mantendo foco em
pérolas que, dizem, as ostras guardam
(tenho agonia de ostra).
eu guardo vontades, coragens pela metade
e certos arroubos que correm quase soltos.
precisava um que corresse 
disparado na areia, inteiro cavalo,
galope desvairado, cavalo que é bravo.
de se desconfiar quem mexa na tua crina
com toque pesado. tem ocorrido.
a aventura, ao menos, reside ainda
no desrespeito aos horários.
é só na brecha deles que penso,
levemente: ando traindo. traindo sagitário.

07 novembro, 2014

imagino o meu corpo, uma colina

de maneira que outubro é que abraçou desgosto.

todos lemos o poema do daniel faria aqui: as mulheres aspiram a casa (...). e as mulheres sufocam, meu bem, eu falei? de o ar ficar perdido nas não respostas e em todo movimento brusco dos abraços brutos, que eram para proteger e no meio do gesto perderam motivo. enfraqueceram. mas agora tenho uma flor colada ao braço pa_ra sem_pre. quanto dura a tinta das decisões? por quanto tempo fica no ar o perfume das margaridas?
muitas vezes tua bermuda é da cor da minha saia que é da cor de tudo o mais que fica da ponta do meu pé à linha-limite à sua frente. anteontem, no entanto, choveu, o céu ficou de um cinza parecido ao pássaro pesado que pousa na minha cabeça e não alcanço com os braços para espantar. não tenho me alongado. oioioi, que desculpa terrível! mas já levantei, já vou.

três dois um e alongue-se o verbo.


título da postagem: Herberto Helder.

04 novembro, 2014

sms

uma abelha bêbada pousou na minha barba. tirei ela e meu dedo ficou com cheiro de mel

03/04/2014
14h40

17 outubro, 2014

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, 
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam. 

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 
Transformam-se em escadas 
 
Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos 

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração. 


Daniel Faria

07 outubro, 2014

quintal


no quintal dos olhos há
folhas verdes suficientes
para que se diga
– acho que consigo fazer isso

a vontade, no entanto,
dura o exato tempo
de uma margarida em copo de vidro

branca. pétala olhando para baixo
a pétala dela olhando para baixo

e o abatimento traz motivos bastantes
para adoecer
ou amolecer no esquecimento
de algumas coisas pequenas

[em um cômodo espaçoso, cadeiras vazias
                          todos os meus convites
e ainda essa distância que tua mão cria]

26 agosto, 2014

não saberia nome para o movimento que realizo em torno de mim mesma.

uma cena no banho pensava em baleias. se eu visse uma ficaria transformada; 
se eu visse uma ficaria transtornada, mas isso eu já sou e já bastam as mesmas
perguntas. – como está? – triste, mas tudo bem. – e a sua família, essa força,
como tá? não tem força, tem uma insistência em continuar acordando e assim 
vai-se, mas bem que preferia a cama. no banho também tomei um choque, 
quando em contato com a ~ qual é o nome do objeto? girei aquilo e o choque 
veio porque como a carne ao redor dos dedos quando estou ansiosa e esfolo 
as cutículas, tudo carne viva. em alguns dias penso que algo em mim, mesmo 
que diminuto, precisa estar muito vivo.
seja, esfolada, a carne.

outra cena eu teria nascido inteligentíssima, muito bela, como quem vive apenas 
reagindo a um dom concedido. e por ter nascido inteligentíssima, muito bela, 
estudaria teorias de um corpo presente (com todos os órgãos), de existência 
tão notável que lhe chegaria menos o externo e as escápulas enrijeceriam 
corajosas a todo vento. não seria afeita às pequenas crueldades do trato, 
daninhas que habitam minha garganta e queimam. por alguns momentos sinto 
que algo em mim precisa atacar os afetos como um bicho solto.
seja, desnudado, o verbo.

alguém diria daqui a muitíssimos anos, "as pessoas antigamente realizavam 
movimentos em torno de si mesmas, embora não soubessem que podiam se dar 
ao luxo desse egocentrismo, a propósito vocês sabem o que é isso?" numa
terceira cena, ainda, entenderia que para iniciar meu movimento quero um eixo
bem delineado. 
e que por hora se chame transtornação.

17 agosto, 2014

pequeníssimo estudo do chão


microscópio

fosse da estrada ou poeira de sonho
grudava, ela, na pele do braço
nos pelos também eles bronzeados
a fazer a constelação de traçado novo.

de abraço aberto com diminutivo no trato
e o olhar amarelo desse sol
que estoura cabeças desavisadas
um menino aponta o caminho pelo cercado
pelas barraquinhas
o cais, o boteco, a orla
e a pedrinha
(a miudinha).


– você tá falando com sotaque.




marguerita

e se a força do que trago dentro tem a cor vermelha
uma coisa assim viva
daquele tom que não se aplica às paredes em que me encostam?
se o que ofereço se abre assim, na cor bruta vermelha
à disposição de outras carnes?

*isto foi enquanto jantávamos

talvez te pareça pecado miúdo...
um pecado recheado de manjericão e tomates

é claro que faço questão dos tomates.




um verso que não se queira piegas

vistas de cima
as luzes da cidade parecem uma outra coisa.
em quantos poemas já se falou delas?

ou

quantos deles podem te fazer sentir
um lume pequenino e ininterrupto
existindo no espaço-tempo das terras desconhecidas,
admirado se visto por certo ângulo?


*aqui se fala da noite. da consistência de nuvens que 
resistem à hora e vestem máscaras na lua. ou dos 
minutos exatos em que cabe uma música cantada bem 
baixinho enquanto o outro dorme.



acontece à tarde,


e como nas tardes é quente sempre
penso que as coisas antes de derretidas
fiquem mais evidentes.
solados duros, fivelas, grossas tiras
os poços profundos de que você me tira
em todas as danças e todos os passos
que causam dores, bolhas, cascos
e o ar um pouco preso perto da barriga.
o caso é que a poeira de encanto acompanha
em todos, todos os cantos por que vou andar
(e eu ando)
até que sob as solas se faça pele dura,
calango.




*

verde mar de cair pra trás
bandeirolas coloridas acima
ar morno de um lado a outro

isto posto,

vejo que esse chão será minha matéria bruta
sinto no tronco uma frase sobre caminhos

e o vento bota meu cabelo na rua.


porque o coração não resistiu a Recife, em viagem curtinha de junho deste ano, e se derramou no papel assim. 
daí que eu aproveitei as possibilidades que essa vida on-line dá e arrisquei, pela primeira vez, um PDF muito do singelo com a série toda lá, que você pode ver e até baixar clicando neste link, ó: http://issuu.com/carinacarvalho36/docs/pequenissimoestudochao.

28 julho, 2014

2 mil toques

doido e bonito foi escrever sobre escrever. 
a gente se diz umas verdades na cara e ao mesmo tempo sente a ternura desse caminho transformado pela escrita.


AQUI, ó.

15 julho, 2014

passadiço

fala num tom baixo e fino
que tem perdido a coragem da escrita
mas vem, toca a consciência a procurar
coisas vistas somente à contraluz
                                  o convite que nos fazem umas frutas verdes
                                  o que diz a chuva em um dia claro
                                  o calor que não se concentra nunca na sua nuca
                                  o que por vezes se encontra no corpo
                                  (umas dores, também uns caroços)
oriunda de um domingo no limite dos limites
lanço da ponta do verbo a boa sorte
para essas ânsias suas os sonhos seus

20 junho, 2014

quando se diz oceano

quando se diz oceano,
ficam do irresponsável suspensões no ar e o palato salga. para
muito além de icebergs, há também nas percepções uma pontinha
de existência fraca e burra.

quando é o mar sob as vistas,
olhe que frescores assume a carcaça: ah, o corpo encontrando as
águas! o peixinho cabeça-tronco-membros endireita a espinha e
jura ser aquela uma conexão visceral.

na praia é que morre o pensamento.
não sem antes soluçar, em arrepios e espasmos, o choque com a
vida costeira. pouca água para três goles de cura e mosquitos aos
bocados maltratando a mucosa.



prosa poética do livro Marambaia.
vídeo gravado em Olinda, PE.

17 maio, 2014

.
da cama mesmo, toco no chão o resto de maçã roída minutos atrás. fria. úmida. 
um sustento de carrretel para o sumo... e foi tão doce! fuji.


.

recolho os brincos azuis e redondos, para hoje não ter globos nas orelhas. é precaução de não saber onde andam pendurados os sonhos que não tenho tido.


.

fez frio na volta, de um vento que naturalmente não toca muitos neste dia da semana em que um laço fica suspenso nos ares sujeito à disponibilidade dos desejos. por vezes parece frágil, de modo que não se nota cor. é como o azul dos brincos ou alguma outra.


.

importam-me as crises. fazem que corte minhas unhas dos pés e todas as carnes que as circundem.
nisso, na cama mesmo, o sangue toca o lençol. quente. úmido.


.

é madrugada e a chaleira apita mais alto. o tom agudo diz pela cozinha que é na chama da cor que já sabemos que arde todo tipo de toque previsto.
diz que ali eu fervo, para buscar cura, minhas próprias doenças.

07 maio, 2014

autoestranha

sempre isso de falar baixinho
do tom forte das inseguranças
e do quanto alucina

(também porque a dor contrai:
vai do umbigo à primeira gotinha vermelha
no algodão branco da calcinha)

se o que perturba a cabeça não reverbera no tal e qual,
é preciso usar agudos de assombro, soluço, saco cheio
ou coisa que o valha. em uma boca que não cala, 
tagarela

.

no outro dia chora-se com os ombros balançando,
cara vermelha, o peito que infla de apelos
nem nisso há beleza, pois, nessa fraqueza

(também não pensava destaque de imagem por qualquer coisa;
meus seios são pequenos)

09 abril, 2014

— o livro tá amassado, que dó. será que já mandaram assim por ser de promoção?

— deixa ele em cima da tábua, filha. amanhã eu coloco um pano bem fininho em cima e passo ele com o ferro quente, vai desamassar.

04 abril, 2014

como o movimento cíclico de uma mandala sem luz

todo o problema reside nas finas peles de ponta solta que teimam em rodear minhas unhas

eu dizia ser necessário um espaço possível
um tempo de fala – aquilo dos verbos – verbalizar

- ouvir nisso algum eu
- por que descem os ombros
- quanto ainda se estende o corpo ao estímulo
- a quem se confia o sexo

ontem na janela do trem havia uma pequena mariposa branca
e quando pensei em tocá-la com os dedos (esmalte comido)
era hora de descer

a falta do tempo-cuidado se remedia com um alicate de corte rápido

02 março, 2014

17 fevereiro, 2014

agora que o calor se foi

querer ser frescor e só saber-se existindo
quando toca a pele do outro

hoje disseram que o céu fechou

a força desse verbo...
disseram que fechou
e o que vejo nos gestos de rua é uma porção de partículas
cotidianas e um pouco gastas de desejo

10 graus celsius menos, em palmas expostas no ar
mas de umas mãos bem abertas

09 fevereiro, 2014

18 janeiro, 2014

estamos chegando!


poema meu que integra a antologia-livro-festa "É que os Hussardos chegam hoje" (Editora Patuá) – lançamento dia 24 de janeiro em SP.

clica aqui pra saber mais.

e perde não!

10 janeiro, 2014

toda vez que as flores não voltam
suas cabeças para dentro do cômodo
em busca de luz, pego meus sapatos e compreendo

por quantas camadas de cimento ainda se pode ver a coragem?
quão longe vai o balanço da árvore mais alta até que a primeira folha a observe com cansaço?

perscruto a terra no que toca meu corpo
e não sem esforço diviso algum rosto
na parte de trás dos ciprestes que em meses férteis plantei


é dura a escrita quando lhe quebram as mãos.


se por muito tempo for janeiro,
vou apoiar as costas nas costas da calma
e construir uma poesia de paciência

sem que haja tempo para o incômodo
com as marcas que o jeans causa na minha virilha
nesses dias tão quentes

01 janeiro, 2014

não sei se acredito nas coisas tão grandes
de que é feito o grão de areia

mesmo se o silêncio for matéria tão fina
a escorrer por dedos desejosos de outros tantos

pinçar entre dedos o cílio do acaso
pra pedir sorte à maré do meu coração

há cerca de quatorze cores que recaem
sob o corpo de mulheres desavisadas

há um dia que não se acaba
apenas porque molhou-se o relógio

há névoa tudo o mais as chateações
os relances escrever poemas esquecê-los nos sonhos

a distância da casa; um sol que nos castiga
e o resto sempre névoa, é névoa e leva