26 agosto, 2014

não saberia nome para o movimento que realizo em torno de mim mesma.

uma cena no banho pensava em baleias. se eu visse uma ficaria transformada; 
se eu visse uma ficaria transtornada, mas isso eu já sou e já bastam as mesmas
perguntas. – como está? – triste, mas tudo bem. – e a sua família, essa força,
como tá? não tem força, tem uma insistência em continuar acordando e assim 
vai-se, mas bem que preferia a cama. no banho também tomei um choque, 
quando em contato com a ~ qual é o nome do objeto? girei aquilo e o choque 
veio porque como a carne ao redor dos dedos quando estou ansiosa e esfolo 
as cutículas, tudo carne viva. em alguns dias penso que algo em mim, mesmo 
que diminuto, precisa estar muito vivo.
seja, esfolada, a carne.

outra cena eu teria nascido inteligentíssima, muito bela, como quem vive apenas 
reagindo a um dom concedido. e por ter nascido inteligentíssima, muito bela, 
estudaria teorias de um corpo presente (com todos os órgãos), de existência 
tão notável que lhe chegaria menos o externo e as escápulas enrijeceriam 
corajosas a todo vento. não seria afeita às pequenas crueldades do trato, 
daninhas que habitam minha garganta e queimam. por alguns momentos sinto 
que algo em mim precisa atacar os afetos como um bicho solto.
seja, desnudado, o verbo.

alguém diria daqui a muitíssimos anos, "as pessoas antigamente realizavam 
movimentos em torno de si mesmas, embora não soubessem que podiam se dar 
ao luxo desse egocentrismo, a propósito vocês sabem o que é isso?" numa
terceira cena, ainda, entenderia que para iniciar meu movimento quero um eixo
bem delineado. 
e que por hora se chame transtornação.

17 agosto, 2014

pequeníssimo estudo do chão


microscópio

fosse da estrada ou poeira de sonho
grudava, ela, na pele do braço
nos pelos também eles bronzeados
a fazer a constelação de traçado novo.

de abraço aberto com diminutivo no trato
e o olhar amarelo desse sol
que estoura cabeças desavisadas
um menino aponta o caminho pelo cercado
pelas barraquinhas
o cais, o boteco, a orla
e a pedrinha
(a miudinha).


– você tá falando com sotaque.




marguerita

e se a força do que trago dentro tem a cor vermelha
uma coisa assim viva
daquele tom que não se aplica às paredes em que me encostam?
se o que ofereço se abre assim, na cor bruta vermelha
à disposição de outras carnes?

*isto foi enquanto jantávamos

talvez te pareça pecado miúdo...
um pecado recheado de manjericão e tomates

é claro que faço questão dos tomates.




um verso que não se queira piegas

vistas de cima
as luzes da cidade parecem uma outra coisa.
em quantos poemas já se falou delas?

ou

quantos deles podem te fazer sentir
um lume pequenino e ininterrupto
existindo no espaço-tempo das terras desconhecidas,
admirado se visto por certo ângulo?


*aqui se fala da noite. da consistência de nuvens que 
resistem à hora e vestem máscaras na lua. ou dos 
minutos exatos em que cabe uma música cantada bem 
baixinho enquanto o outro dorme.



acontece à tarde,


e como nas tardes é quente sempre
penso que as coisas antes de derretidas
fiquem mais evidentes.
solados duros, fivelas, grossas tiras
os poços profundos de que você me tira
em todas as danças e todos os passos
que causam dores, bolhas, cascos
e o ar um pouco preso perto da barriga.
o caso é que a poeira de encanto acompanha
em todos, todos os cantos por que vou andar
(e eu ando)
até que sob as solas se faça pele dura,
calango.




*

verde mar de cair pra trás
bandeirolas coloridas acima
ar morno de um lado a outro

isto posto,

vejo que esse chão será minha matéria bruta
sinto no tronco uma frase sobre caminhos

e o vento bota meu cabelo na rua.


porque o coração não resistiu a Recife, em viagem curtinha de junho deste ano, e se derramou no papel assim. 
daí que eu aproveitei as possibilidades que essa vida on-line dá e arrisquei, pela primeira vez, um PDF muito do singelo com a série toda lá, que você pode ver e até baixar clicando neste link, ó: http://issuu.com/carinacarvalho36/docs/pequenissimoestudochao.