17 outubro, 2014

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, 
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam. 

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 
Transformam-se em escadas 
 
Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos 

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração. 


Daniel Faria

07 outubro, 2014

quintal


no quintal dos olhos há
folhas verdes suficientes
para que se diga
– acho que consigo fazer isso

a vontade, no entanto,
dura o exato tempo
de uma margarida em copo de vidro

branca. pétala olhando para baixo
a pétala dela olhando para baixo

e o abatimento traz motivos bastantes
para adoecer
ou amolecer no esquecimento
de algumas coisas pequenas

[em um cômodo espaçoso, cadeiras vazias
                          todos os meus convites
e ainda essa distância que tua mão cria]