26 julho, 2015

22 julho, 2015

uma mulher com uma vela acesa na mão precisava de não estar ali, ou de não ser ela, ou de estar numa outra vida
uma mulher com uma vela na mão há muito que havia aceitado o seu corpo, o seu destino, de vez em quando virava o olhar para a porta, depois verificava quantas gotas lhe tinham escapado da mão e se haviam solidificado na mesa
a janela foi aberta, lentamente, por uma brisa improvável e ela sorriu, como se acedesse
se a mulher não tivesse sorrido, a janela voltava a fechar-se?
a mesma brisa quase lhe extinguiu a luz da chama, eram sinais como este que traziam a mulher de volta à sua realidade, sentada na cozinha, a mulher viajava tão longe no seu pensamento que era difícil lembrar-se onde havia estado
uma mulher precisa de estar quieta para ir tão longe
e vai
regressa de lá com uma lágrima que não chega à boca, interceta a lágrima antes que o sabor do sal lhe tinja o paladar, pois isso seria conhecer uma lágrima duas vezes
vinda de tão longe, basta-lhe ter provado a lágrima uma só vez
e pensa
"a vela deve permanecer na cozinha, para que outros, na escuridão, se possam servir da luz."


Ondjaki