01 junho, 2016

mudei de casa.
agora é clcarina.wordpress.com

com coisas novas, com textos daqui, textos de antes

carinho sempre

a gente se vê


:*

11 maio, 2016

você não pode fazer nada você não pode nem piscar
e a manhã se acaba. há quanto tempo é um tempo antigo?

tenho nos dedos, respectivamente,
um rio, sinais de luta, flor amarela, a espera e um caminho
das cavernas de onde se sai sozinha para provar um novo açúcar
que não te dá um fim doce mas mostra que você precisa de menos
e é já tão agradável
como se fosse assim desde o início dos tempos e o melhor momento,
a melhor saúde das tuas vias e veias

e veja

a terra gela num outono estranho, só repetem essa palavra
é maio e só ouço como o tempo é estranho, os corações se estranham muito
na briga eterna pelo alto. cê quer é subir, de matéria leve,
precisar dos outros um nada - a autossuficiência é o engano mais bonito
do mundo vegetal
a vontade brota da base do pé naquela terra úmida que te falei
ação é substrato, é só começar
só salta, não é fácil? por cima do relógio das horas

você não pode fazer nada você não pode nem piscar

10 abril, 2016

rubro


meu joelho dias atrás, ferido do alto de um feriado.

e foi queda lenta: um deslizar no cimento já prevendo trauma e ao mesmo tempo sabendo-o inevitável 
(que bom seria sempre ajustar o corpo previamente e minimizar pancada)

também no balé, pelo retorno depois de longa pausa e pela pouca carne em torno dos ossos todos, qualquer minuto de joelho no chão me causa hematoma. é o tom de roxo forte das levezas

curioso estar adulta com o joelho ralado porque o corpo já tem registros da dor, já se acrescenta a chateação pelo golpe e o sofrimento pela futura marca. criança é careta, mertiolate e ilusão. os anos fazem algumas coisas de peso pequeno ralarem o juízo, coçando cascas e sentimentos ressecados

as partes frágeis duma pessoa tanto merecem quanto deveriam ser cobertas por matéria fofinha, como se parece a ternura, pra aplacar o que de mal quer chegar às camadas profundas

no que antecede as feridas, é possível falar de uma felicidade breve, corpórea e insana, de quem caminha em direção à praia ou tem o sangue correndo forte depois de saltos não ensaiados


*
pensei

a alegria é uma pele vermelha, viva e latejante na carne.


14 março, 2016

aparentemente foi numa manhã.

você falava:
que chuchu nos restaurantes nunca tem gosto,
que as árvores estão florindo na época errada,
de livros atrasados na biblioteca,
que até queria e planejou, mas sobre isso
não fez nada.

eu falaria:
sobre algum assunto sóbrio,
pensando (na verdade)
em amassos, versos, metrô lotado,
o que me acontece nas tardes,
pensando em declarações completas
ou resquícios.

no meio da fala, lançaria um feitiço
pra gravar com mão firme no ar
o traço dos planos suspensos em uma semana.

e por falar em sentimentos controversos,
a lua sorri num risco fininho de deboche
como quem chega inocente e sem hora
porque está sempre do lado avesso.
um lapso de tempo é coisa que se mastiga
pouco, matéria pra diluir em minutos:
dos sonhos rompe a coragem, deixa vislumbres

ou nem isso.

12 fevereiro, 2016

sem-nome


deve fazer uns dois anos que coloquei Hilda logo acima da minha cabeça, com letra insegura, na parede colada com a cama. é um poema que me enche de assombro daquilo que dá para captar e do que acho que não consigo. e que mostra alguma coragem também. 
não olho sempre para ele, e menos ainda quando me sinto sem habitar coisas que importam, porque é fácil fugir de tapas necessários, afinal.
quando releio, é de novo o olho bem aberto, o sentido atento para a força de cada verso que vai escapando dias a fio na malha do costume.


De cigarras e pedras, querem nascer palavras.
Mas o poeta mora
A sós num corredor de luas, uma casa de águas.
De mapas-múndi, de atalhos, querem nascer viagens
Mas o poeta habita
O campo de estalagens da loucura.
Da carne das mulheres, querem nascer os homens.
E o poeta preexiste, entre a luz e o sem-nome.

06 fevereiro, 2016

trinta e cinco


eu lembro de verões muito quentes
e de como as plantas miram o chão, vendo a secura dos próprios pés.

lembro de blusas dobradas em estilo lambada,
melancia para comer agachado na calçada
e de como o suor faz o corpo parecer brusco embora na outra ponta 
das vontades escaldantes um minuto corra em arrasto.

lembrei como no fim do dia, debaixo da água fria, 
a carne parece um plano fervente em que foram jogados vislumbres em gota.

lembro como sem porquê evito tanto a cor amarela.
pensei em girassóis e depois na beleza do tempo e seu controle difícil.
pensei em sóis e em largar de controle.

depois um ramo quebrado de alecrim, sua foto na geladeira, a conta d'água, limonada.
o gesto lançando os cubos de gelo e uma torcida estranha para que nada volte a seu lugar.
lembrei o mar,,,

depois esqueci.

07 janeiro, 2016

orgânico

sentidos ao alcance, 
botava-os no corpo e pulava retinha
de um trampolim com nome   p   a   c   i   ê   n   c   i   a

nas aulinhas de gaita tentavam ensinar
a respirar pelo diafragma, sei lá.
gostava era de observar nisso o ventre,
seu movimento.
...o ventre é uma coisa que acorda
lisa e reta como as folhas sem pecado
só que nas entranhas, o diabo...
por exemplo quando cai a tarde alongada,
em que toda palavra engolida
resulta em bolos indigestos.
então, por respeito aos processos e ao tom do tempo,
você entende que o forno é o útero da casa;
que quanto mais as horas se fazem matéria,
menos vestígios ficam na mão.

nesta massa mesmo – a minha própria
há um crescente por cozer
em todo o tronco
cujo nome (tomara!) não será tensão.