12 fevereiro, 2016

sem-nome


deve fazer uns dois anos que coloquei Hilda logo acima da minha cabeça, com letra insegura, na parede colada com a cama. é um poema que me enche de assombro daquilo que dá para captar e do que acho que não consigo. e que mostra alguma coragem também. 
não olho sempre para ele, e menos ainda quando me sinto sem habitar coisas que importam, porque é fácil fugir de tapas necessários, afinal.
quando releio, é de novo o olho bem aberto, o sentido atento para a força de cada verso que vai escapando dias a fio na malha do costume.


De cigarras e pedras, querem nascer palavras.
Mas o poeta mora
A sós num corredor de luas, uma casa de águas.
De mapas-múndi, de atalhos, querem nascer viagens
Mas o poeta habita
O campo de estalagens da loucura.
Da carne das mulheres, querem nascer os homens.
E o poeta preexiste, entre a luz e o sem-nome.

06 fevereiro, 2016

trinta e cinco


eu lembro de verões muito quentes
e de como as plantas miram o chão, vendo a secura dos próprios pés.

lembro de blusas dobradas em estilo lambada,
melancia para comer agachado na calçada
e de como o suor faz o corpo parecer brusco embora na outra ponta 
das vontades escaldantes um minuto corra em arrasto.

lembrei como no fim do dia, debaixo da água fria, 
a carne parece um plano fervente em que foram jogados vislumbres em gota.

lembro como sem porquê evito tanto a cor amarela.
pensei em girassóis e depois na beleza do tempo e seu controle difícil.
pensei em sóis e em largar de controle.

depois um ramo quebrado de alecrim, sua foto na geladeira, a conta d'água, limonada.
o gesto lançando os cubos de gelo e uma torcida estranha para que nada volte a seu lugar.
lembrei o mar,,,

depois esqueci.